INPN - O portal das revistas ImplatNews e PerioNews
 
Compartilhe  Compartilhe Twitter Imprimir Indique a um amigo
Publicado em: 5/31/2019 11h19

Refazendo casos: uma terapia quase obrigatória na clínica

Marco Bianchini observa que vislumbrar uma possível falha futura pode auxiliar no planejamento e na correção.

Refazer casos que não obtiveram sucesso é uma rotina frequente em nossos consultórios. Desde que a Odontologia existe, os cirurgiões-dentistas se deparam com situações clínicas nas quais o trabalho tem que ser repetido. Muitas vezes, estas situações são dos nossos próprios pacientes. Outras são de pacientes de outros colegas. Quando os pacientes são nossos, as repetições podem ser menos traumáticas para os clientes, uma vez que estes permanecem confiando no trabalho que iremos repetir. Entretanto, quando a repetição do trabalho é realizada por outro profissional, o saldo pode não ser tão positivo.

Por ser uma área extremamente delicada, a Odontologia requer um domínio das técnicas práticas que envolvem os procedimentos a serem realizados pelos profissionais. Isso faz com que o sucesso esteja diretamente relacionado com a habilidade e o treinamento do operador, somando-se a isso, a colaboração do paciente e o grau de dificuldade que cada caso apresenta. Desta forma, não é incomum que tenhamos falhas ou um tempo de duração reduzido dos nossos trabalhos na boca dos nossos pacientes, exigindo que tudo seja feito novamente.

Para melhor compreendermos este assunto, vou apresentar aqui um caso clínico que demonstra um insucesso que foi refeito em minha clínica particular. As Figuras 1 a 6 ilustram o caso.

Figura 1 – Radiografia panorâmica demonstrando implantes com perdas ósseas severas.

 

Figura 2 – Imagem clínica da prótese implantossuportada e a condição dos tecidos moles peri-implantares. Observar as deficiências do caso comprovando o insucesso.

 

Apesar de a literatura comprovar que implantes com perdas ósseas ou acometidos de peri-implantite podem ser tratados e mantidos em boca, algumas situações requerem como tratamento a remoção dos implantes com problemas e a confecção de novas fixações que sejam melhor planejadas. Neste caso aqui apresentado, optamos por esta terapia, removendo os implantes colocando novas fixações.
 

Figura 3 – Retalho aberto e a condição clínica dos implantes. Observar a grande perda óssea peri-implantar

 

Figura 4 – Implantes removidos com retriever e broca trefina. Observar a presença de tecido ósseo em algumas faces dos implantes.

 

Figura 5 – Novos implantes cone-morse Due Cone (Implacil De Bortoli – São Paulo Brasil), colocados após a remoção dos implantes condenados. Observar a posição intraóssea dos novos implantes e os pilares de cicatrização já instalados.

 

Figura 6 – Radiografia panorâmica após a instalação da prótese protocolo. Observar a boa disposição dos implantes, reduzindo o cantilever e possibilitando o posicionamento intraósseo dos implantes cone-morse, o que é mais previsível para implantes com este tipo de plataforma.

 

Quando estamos recolocando implantes em áreas que os nossos pacientes já perderam implantes antigos, geralmente encontramos dificuldades, pois estas regiões nem sempre oferecem uma disponibilidade óssea adequada, uma vez que já foram fresadas e preparadas anteriormente. Estas dificuldades fazem com que tenhamos que aproveitar ao máximo o osso disponível do paciente, sob pena de não conseguirmos solucionar o problema.

Neste caso aqui apresentado, a utilização de implantes cone-morse evitou que se executasse grandes modificações ósseas, pois este tipo de plataforma permite preservar as irregularidades ósseas, para que os implantes fiquem, propositalmente, em uma posição bem intraóssea, ao contrário de implantes de plataforma hexagonal, que exigiriam a confecção de um platô ósseo, a fim de deixar as plataformas dos hexágonos externos totalmente supraóssea.

Refazer casos, apesar de ser um pouco desagradável – porque ninguém gosta de repetir tratamentos – é uma terapia quase obrigatória para nós, dentistas. Afinal, nenhum tratamento tem a pretensão de ser eterno, embora alguns colegas insistam nesta falácia. Mesmo quando executamos tratamentos extremamente bem feitos, que foram planejados com muito esmero, obedecendo todos os protocolos da literatura, nós sabemos que, um dia, este belo tratamento também irá falhar.

Assim, o melhor caminho quando estamos planejando um caso é já vislumbrar a sua possível falha futura e o que poderemos executar para reparar esta falha quando ela vier a acontecer. A nossa obrigação como profissionais é evitar que elas ocorram precocemente. Porém, conviver com as nossas imperfeições e as imperfeições dos pacientes é um caminho saudável de aceitação das limitações que envolvem a nossa profissão.

 

“Não erreis, meus amados irmãos. Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” (Tiago 1:16,17)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 

 



E-mail
Cadastre seu e-mail e receba nossas Newsletters