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Publicado em: 6/7/2019 32h1

Você já “perdeu a mão” na prática odontológica?

Marco Bianchini relata caso clínico no qual a falta de prática quase complica o resultado final do tratamento.

Na semana passada, vivenciei um fato muito comum e que costuma ser assunto em rodas de cirurgiões-dentistas: “perder a mão” na Odontologia. Aqui não se trata de perder o membro, efetivamente, e ficar mutilado. Trata-se de ficar muito tempo sem realizar uma técnica e, mesmo sabendo o que fazer na teoria, na hora da prática em si, acabamos sofrendo com a nossa falta de habilidade, já que não estamos executando este procedimento sucessivamente na nossa clínica diária.

O fato aconteceu na minha clínica particular quando eu estava atendendo o último paciente do dia. O relógio já marcava 18h e a paciente em questão fazia a sua primeira consulta comigo. Ela havia sido indicada pela mãe, que já havia feito vários implantes conosco. Após o exame clínico, pude constatar um problema periodontal importante, generalizado, mas que tinha a sua maior gravidade no elemento 31, que estava praticamente avulsionado, preso apenas pelo cálculo que impregnava uma contenção ortodôntica lingual e, de alguma forma milagrosa, ainda mantinha o dente em boca. O fio ortodôntico da contenção já não tinha mais a adesividade da resina neste dente, que estava realmente solto, preso apenas pelo tecido mole no periápice e pela lingual no cálculo. A paciente me relatava que eventualmente o dente se movimentava para vestibular e ela o empurrava com o dedo novamente para lingual e este encaixava novamente na contenção, ficando estável.

Expliquei para a paciente que necessitaríamos de um exame radiográfico para melhor avaliação de toda sua condição bucal, mas que eu iria remover aquele dente imediatamente, pois estava condenado e com uma inflamação crônica que poderia agudizar de uma hora para outra. Para minha surpresa, a paciente me relatou que o dente estava naquela situação há muitos anos e que o seu dentista clínico havia dito que o melhor era não mexer nesse dente. Mesmo sabendo que eu poderia postergar este atendimento para outra sessão e indicá-la para alguma protesista da minha equipe, resolvi fazer o procedimento, pois percebi a angústia da cliente quanto a esta situação. Sem maiores delongas, apliquei um anestésico tópico na gengiva apical, que ainda ancorava o dente, e fiz a remoção com uma pinça clínica, apenas desprendendo o elemento dental do cálculo lingual, preso a contenção ortodôntica que o segurava.

Feito isso, houve um pequeno sangramento, mas que logo desapareceu, pois a pequena porção do alvéolo que ainda segurava o dente já estava praticamente toda epitelizada. A contenção se manteve estável, fixada nos demais dentes (33, 32, 42 e 43) o que, segundo a minha ótica, iria facilitar o meu trabalho, pois eu pretendia realizar uma adesiva direta com a própria coroa do dente removido, utilizando resinas compostas e seus sistemas adesivos. Era um procedimento que eu executava rotineiramente no passado, quando eu ainda realizava clínica geral. Desta forma, não havia novidades nisso. Estava tudo armazenado no meu cérebro, embora um pouco adormecido.

Após a remoção do cálculo, e com a área limpa, eu achava que já tinha feito a parte mais complicada. Entretanto, mal sabia eu que os meus problemas estavam apenas começando. Peguei emprestado das colegas protesistas que trabalham comigo todo o material e instrumental protético e de resina para confeccionar a minha adesiva direta. Mentalmente, eu sabia todos os passos, estava tudo muito bem montado na minha mesa de trabalho, não tinha como dar errado. Só que eu esqueci de um detalhe: não avisei para as minhas mãos o que iríamos fazer. E elas, acostumadas com procedimentos periodontais e de Implantodontia, resolveram não me obedecer.

Resumindo, levei uma surra tremenda das brocas, da resina, dos adesivos, da contenção e do remanescente dental. O suor tomava conta do meu corpo e a paciente percebia as minhas dificuldades. Por fim, após quase uma hora trabalhando, eu consegui terminar o caso e o atendimento emergencial cumpriu o seu papel, antes de partirmos para o tratamento completo e definitivo dessa cliente. Embora a paciente tenha ficado feliz e a radiografia pós-operatória demonstrado que o resultado ficou satisfatório, eu não tive coragem de postar aqui a foto clínica. Na minha ótica, o trabalho ficou devendo no quesito estética. Abaixo as figuras 1 a 3 ilustram com imagens radiográficas o caso aqui discutido.

Figura 1 – Corte panorâmico de tomografia volumétrica do cone-bean. Observar o problema periodontal generalizado e o defeito ósseo provocado pela lesão do elemento 31, que foi extraído e teve a sua coroa recolocada na contenção ortodôntica através de uma adesiva direta.

 

Figura 2 – Cortes transversais da tomografia. Observar a grande perda óssea na região onde estava o dente 31. Observar também que para a confecção da adesiva direta o remanescente dental do elemento 31 foi preparado, tendo parte de sua raiz cortada e a face palatina da coroa bastante desgastada, para acomodar a resina e a contenção ortodôntica.

 

Figura 3 – Radiografia periapical da área realizada após o procedimento. Observar o seccionamento da porção radicular do elemento 31, a adesiva direta realizada com auxílio da contenção ortodôntica e a condição de perda óssea periodontal dos dentes 41 e 32.

 

A nossa profissão é uma atividade extremamente prática. Assim, precisamos estar frequentemente exercitando as mais diversas técnicas para não “perdermos a mão” de realizar algum tipo de procedimento. O trabalho em equipe pode suprir estas dificuldades, uma vez que cada especialista atende em sua área de maior conhecimento e experiência. Contudo, em algumas situações emergenciais, teremos que descer do palanque de nossas especialidades para realizarmos atendimentos clínicos de rotina que fogem da nossa área, mas nos fazem voltar a sermos dentistas de verdade.

 

“Tu, Senhor, permaneces eternamente, e o teu trono subsiste de geração em geração. Por que te esquecerias de nós para sempre? Por que nos desampararias por tanto tempo? Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes.” (Lamentações 5:19-21)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 

 

 

 

 



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