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Publicado em: 6/28/2019 11h47

Protocolo com hexágono externo: ainda há espaço na Implantodontia?

Marco Bianchini analisa vantagens e desvantagens deste sistema de implantes em comparação com as demais opções no mercado.

A plataforma dos implantes osseointegráveis é a região cervical do implante, que recebe o assentamento do componente protético. Esta parte do implante é crítica, uma vez que influencia no modo de transmissão das forças oclusais para o osso, além de ser a parte de transição entre o cilindro, que fica intraósseo, e a coroa protética, que já se localiza no meio bucal. A desadaptação entre o componente protético e a plataforma do implante pode levar ao insucesso do tratamento, principalmente devido à indução de concentração de tensões, infiltração de bactérias e formação de biofilme.

O sucesso dos implantes com hexágono externo introduzidos por Brånemark é bastante conhecido e foi estudado exaustivamente ao longo das últimas décadas. Além disso, os critérios de sucesso de Albrektsson et al (1986) foram muito rígidos para comprovar a eficácia deste tipo de plataforma. São eles: imobilidade clínica do implante, ausência de radiolucência peri-implantar; perda óssea vertical menor que 0,2 mm anualmente, a partir do primeiro ano de função, ausência de dor, infecção, neuropatia, parestesia ou violação do canal mandibular, dentre outros.

Com a finalidade de  obedecer aos critérios de Albrektsson et al (1986) citados acima, as empresas fabricantes de implantes foram lançando produtos que respeitassem estes critérios. Isso levou à aceitação de um padrão de perda óssea na crista do rebordo, junto à plataforma dos implantes hexágono externo, por se entender que esta perda óssea ocorreria sempre. Assim, alguns fabricantes trataram de adequar seus implantes a essa prerrogativa e os produziram com uma cinta cervical altamente polida que oferecia uma boa condição aos tecidos moles, que ali se alojariam após a reabsorção óssea.

Com o passar dos anos e a evolução das pesquisas, foi possível compreender melhor que uma remodelação óssea ocorreria na porção mais coronal do implante e isso não poderia ser considerado como uma doença, desde que não houvesse uma perda óssea progressiva intermitente. A comunidade científica mundial vem concentrando os seus esforços no melhor entendimento desta área de transição entre o implante propriamente dito e a parte protética. Muitos autores já vêm afirmando que uma boa zona de transição entre o cilindro do implante e a parte protética independe da plataforma, mas sim do respeito das distâncias biológicas peri-implantares.

Os implantes da linha hexágono externo apresentam como grande vantagem sua simplicidade e previsibilidade, adquiridas durante anos de casuísticas favoráveis. Outra característica desse sistema é possuir uma grande variedade de componentes protéticos, facilitando a escolha da solução adequada para cada caso. Isso faz com que este sistema seja reconhecido facilmente por qualquer implantodontista em qualquer região do planeta. Desta forma, um paciente que tenha algum problema no seu implante de plataforma hexagonal 4.1 poderá ser atendido sem a necessidade de grandes buscas por peças compatíveis, uma vez que o sistema é familiar à maioria dos implantodontistas.

Baseado nestas evidências, ainda é possível utilizar perfeitamente hexágonos externos em muitas situações clínicas que enfrentamos no nosso dia a dia clínico, especialmente nos casos em que temos uma boa disponibilidade óssea. Eu, particularmente, continuo a utilizar este tipo de plataforma hexagonal externa em alguns dos meus casos, principalmente em protocolos inferiores sob carga imediata. As figuras de 1 a 3 ilustram um caso realizado em minha clínica particular na semana passada.

Figura 1 – Radiografia panorâmica realizada imediatamente após a instalação da prótese protocolo sobre cinco implantes inferiores de plataforma hexagonal externa.

 

Figura 2 – Radiografias periapicais realizadas imediatamente após a instalação da prótese protocolo sobre cinco implantes inferiores de plataforma hexagonal externa.

 

Figura 3 – Prótese protocolo inferior metaloplástica inferior e prótese total superior realizadas pela Dra. Joraci Teixeira.

 

Antes da decisão de investir na mudança de sistemas de implantes devido às conexões e plataformas, deve-se refletir se existe a real necessidade de se optar por conexões internas para cada caso que estamos realizando. É inegável que as conexões internas oferecem uma série de vantagens que não podem ser desprezadas. Aqui mesmo na coluna, inúmeras vezes já apresentamos casos e pesquisas que comprovam a eficácia de plataformas diferentes dos hexágonos externos, especialmente os implantes cone-morse. Contudo, estas conexões internas também apresentam problemas quando são utilizadas de maneira equivocada.

Eu tenho absoluta certeza de que muita gente vai torcer o nariz quando ler esta coluna de hoje. Os avanços da Implantodontia e o lançamento de novos produtos causam uma espécie de frisson na nossa classe, fazendo com que se abandone muito rapidamente técnicas que estão consagradas na literatura. Desta forma, acredito que poderemos perfeitamente ainda optar por plataformas de hexágono externo por razões socioeconômicas, praticidade, reprodutibilidade e domínio da técnica. Na Implantodontia, o que mais importa é respeitarmos os protocolos corretos de utilização de cada implante, selecionando adequadamente os casos que se adaptam a cada tipo de implante oferecido pelos fabricantes.

 

“E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não podem fazer mais nada. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei. Não se vendem cinco passarinhos por duas moedinhas? E nenhum deles está esquecido diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois vós valeis mais do que muitos passarinhos”. (Lucas 12:4-7)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 


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