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Publicado em: 7/12/2019 10h34

Aposentadoria: até quando um dentista deve trabalhar?

Marco Bianchini cita a Reforma da Previdência e debate as longas carreiras dos profissionais de Odontologia.

O assunto do momento, em todas as rodas, é a Reforma da Previdência, que deve ser aprovada no Congresso Nacional até o final de agosto. A aposentadoria é um tema que afeta todos os profissionais, de todas as áreas. Não importa em qual ramo você trabalhe ou qual seja a sua profissão, uma vez no mercado de trabalho, em algum momento da sua vida profissional, você vai pensar em se aposentar. Normalmente, este pensamento deveria começar a aparecer com mais frequência na medida em que fossemos envelhecendo. Entretanto, as regras corporativistas e a cultura nacional inverteram essa sequência, especialmente no serviço público. Assim, muitas pessoas começam a falar na aposentadoria desde o primeiro dia em que são contratadas.

Quando se trata de Odontologia, uma pergunta que sempre me vem à cabeça é: até quando um cirurgião-dentista deve trabalhar? Por ser uma profissão deveras artesanal, que demanda, além do conhecimento científico, um preparo físico considerável para aguentar horas de consultório, talvez nós devêssemos nos aposentar mais cedo. Porém, não é isso que eu vejo na iniciativa privada odontológica. Generalizando bem a classe, eu venho observando que aqueles que se dedicam a um atendimento diário, em consultório, costumam trabalhar além dos 70 anos de idade. Também percebo que a grande maioria faz isso com prazer, sem ter a mínima vontade de parar.

Obviamente que existe uma imensa quantidade de variáveis que podem influenciar uma pessoa a decidir trabalhar por mais ou menos tempo. Eu tenho certeza de que muitos colegas cirurgiões-dentistas mais idosos ainda estão trabalhando por necessidades socioeconômicas. Ou seja, se pararem, vai faltar dinheiro para viver. Por outro lado, também existem aqueles que já poderiam ter parado, pois já possuem reservas para viver de suas economias. Contudo, uma leve ganância de querer sempre ganhar mais faz com que continuem trabalhando. Por fim, certamente existem aqueles que trabalham para se manterem ocupados, para terem relacionamentos e contato com pessoas e, obviamente, para continuar a ganhar um bom dinheirinho extra.

Polêmicas à parte, eu acredito que a maior mudança a ser realizada, quando se fala em aposentadoria, está na cabeça das pessoas e, especialmente, das gerações futuras. O trabalho não pode ser encarado como uma punição ou um fardo pesado a ser carregado. É preciso mudar este conceito. Na verdade, trabalhar até idades mais avançadas é motivo de orgulho, não só para quem trabalha, mas também para os familiares e amigos destas pessoas, que são verdadeiros exemplos a serem seguidos. Cito aqui o Dr. Nilton De Bortoli, fundador da empresa Implacil De Bortoli, e o Dr. Jean Emmanuel Gjorup, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que trabalharam em consultório até os seus 85 anos de idade.     
A maioria da população brasileira já entendeu e concorda que as regras de aposentadoria devem ser mudadas. Sem entrar aqui nas particularidades de cada classe, existem muitos privilégios que precisam ser cortados. É inegável que os benefícios exagerados do serviço público (e eu me incluo aqui) precisam ser ajustados, a fim de que o país não quebre e as pessoas possam continuar a receber os seus benefícios. Não tenho dúvidas de que o fato de as pessoas terem que trabalhar por mais alguns anos, em função das novas regras que serão aprovadas, vai aumentar a produtividade do nosso país e gerar mais riqueza para todos nós.

Particularmente, eu sempre fui e continuo a ser um crítico das aposentadorias precoces. Entretanto, quando você tem a oportunidade de se aposentar mais cedo, com um salário razoável, a tentação é muito grande. Uma das cenas que mais me irritavam durante a minha graduação era escutar um grupinho de professores conversando sobre aposentadoria, nos corredores das clínicas aqui da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Quando eu me tornei professor, essas conversas me irritavam ainda mais. Até que, um dia, depois de alguns anos de docência, eu mesmo me peguei conversando nessas rodinhas e contando nos dedos, quanto tempo faltava para eu me aposentar. Era a escola da vida e o tempo, que estavam me ensinando da maneira mais cruel aquela velha máxima: “nada como um dia após o outro”. Acredito que as mudanças das regras de aposentadoria certamente irão reduzir bastante estas conversinhas de corredor.

 

“O que colhe recebe a recompensa, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim tanto o que semeia como o que colhe, ambos se alegrem. Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que colhe. Eu vos enviei a colher onde vós não trabalhastes; outros trabalharam para que vós entrastes no trabalho deles.” (João 4:36-38)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 


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