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Publicado em: 7/19/2019 24h1

Pequenos enxertos ósseos mudam resultados clínicos?

Marco Bianchini debate a necessidade de preenchimento de pequenos defeitos com a utilização de biomateriais.

A Implantodontia atual acaba requisitando que o clínico realize, quase sempre, algum tipo de enxerto ósseo prévio ou concomitante à colocação do implante. Seja em implantes imediatos ou em casos que a anatomia óssea não é muito favorável, volta e meia estamos sempre colocando algum tipo de biomaterial ou osso autógeno para preencher as áreas deficientes, na tentativa de que estas regiões se regenerem e o implante fique totalmente circundado de osso. Entretanto, quando fazemos uma reflexão mais profunda, vem sempre a pergunta: será que isso é realmente necessário?

Sabemos perfeitamente que não existe a formação de 100% de osso ao redor de todo o implante. Até nos casos nos quais temos um excelente volume ósseo, a osseointegração não ocorre em todo o corpo do implante. Em 2018, a nova classificação das doenças periodontais e peri-impantares abordou muito este tema em algumas publicações, como a de Araújo e Lindhe que afirmava que 60% da parte intraóssea do implante parece estar em contato com o osso mineralizado, enquanto a porção restante está coberta por osso medular, estruturas vasculares ou tecido fibroso. Durante o período de cicatrização, após a instalação do implante, ocorre uma espécie de modelagem óssea, que pode resultar em alguma redução do nível ósseo total em contato com o implante.

Estes achados de Araújo e Lindhe de 2018 vão ao encontro de outros achados da era Brånemark, nos primórdios da Implantodontia, que também já afirmavam que não havia osseointegração em toda a área peri-implantar. Desta forma, a literatura já aceita, há muitos anos, que existe algum tipo de tecido fibroso ao redor dos nossos implantes e que isso não prejudica o sucesso da técnica. Ora, se isso já parece ser um consenso entre os mais variados autores, por que nós ainda continuamos a fazer pequenos preenchimentos ósseos na maioria dos casos? Para enriquecer este debate, a figura 1 nos apresenta uma situação bastante interessante que ilustra esta discussão.

Figura 1 – Implante de plataforma hexagonal externa inserido na região do elemento 46. Observar a ausência de tecido ósseo em cerca de 3 mm da face mesiovestibular do implante.

 

Este caso clínico representa uma situação que ocorre com bastante frequência em nossos consultórios. Então, olhando bem para esta foto, amigo leitor, vamos fazer algumas perguntas para que eu e você, que está lendo a coluna, possamos responder:

  1. Você preencheria este pequeno defeito?
  2. Você acredita que o material de preenchimento que você vai utilizar – seja ele autógeno, sintético ou qualquer outro biomaterial – irá se integrar ao implante?
  3.  Você acha que este enxerto irá mudar os resultados clínicos da sua reabilitação?
  4. Você acredita que, caso não faça nenhum enxerto, você irá perder o implante?
  5. A ausência de preenchimento deste pequeno defeito poderá induzir uma peri-implantite?


Obviamente que esta imagem clínica pode levantar uma série de questionamentos, e que não podemos adotá-la como referência total neste assunto de pequenos preenchimentos ósseos. Os tecidos moles aqui não estão sendo avaliados, e eles podem trazer modificações de conduta, conforme a sua espessura e altura, muito embora isso também não seja de consenso. Outro aspecto que poderíamos abordar aqui, também, seria a plataforma do implante usada. Talvez um implante cone-morse alterasse algumas de nossas respostas às perguntas feitas anteriormente. De qualquer forma, pensar um pouco antes de realizar qualquer procedimento vale muito a pena. Seguir os “movimentos de manada”, como se fala na Bolsa de Valores, pode não ser o melhor caminho.

A presunção de nós, cirurgiões-dentistas, querermos reabilitar nossos pacientes em situações de extrema perfeição, leva-nos, muitas vezes, a realizar sobretratamentos. A Odontologia, como um todo, leva-nos a buscarmos situações “ideais”, que não existem nem na dentição natural criada por Deus. Além disso, as empresas que comercializam biomateriais, salvo raras exceções, tentam nos empurrar goela abaixo produtos de toda a sorte, que devem ser utilizados sob o pretexto falso de aumentarmos a sobrevida dos nossos implantes. E assim vamos caindo em mais um “Conto do Vigário”, esquecendo que o maior objetivo de um implante é fazer o paciente mastigar.

 

“O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente; o Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés.” (Naum 1:3)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 


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