PróteseNews 2019 | V6N2 | Páginas: 42-49

Reabilitação de agenesia de laterais superiores com pilares personalizados com cerâmica injetada feldspática reforçada com leucita

Rehabilitation in bilateral agenesis of maxillary lateral incisor with personalized abutments with feldspathic injected ceramics

Autor(es):

Leonardo Buso1

Danilo Lazzari Ciotti2

Guilherme da Gama Ramos3

Guilherme Ferreira Duarte4

Marina Barbosa5

Cassio Kampits6

1Mestre e doutor em Prótese Dental – Unesp São José dos Campos.

2Doutorando em Prótese Dental e mestre em Periodontia – Unicamp.

3Doutor e mestre em Clínica Odontológica com ênfase em Prótese Dental – FOP/Unicamp.

4Mestrando em Periodontia – SLMandic; Especialista em Implantodontia – APCD/Piracicaba.

5Estudante de Odontologia – Fasurgs.

6Doutor em Periodontia – UFRGS; Mestre em Periodontia – SLMandic.

Resumo:

Com o passar dos anos, os implantodontistas e protesistas superaram a fase que a osteointegração era o fator determinante para o sucesso reabilitador. O desafio atual é assegurar uma reabilitação que seja tanto funcional quanto estética. O maior desafio da Odontologia restauradora com implantes dentais é a reposição das estruturas perdidas, imitando perfeitamente dentes, tecido ósseo e tecido mole que circundam os dentes sadios. Em respeito a este último, a arquitetura, o contorno, a textura da superfície e a cor são importantes determinantes da aparência final da restauração. Neste relato de caso, foi proposta a utilização de pilares personalizados com cerâmica IPS para a reabilitação dos dentes 12 e 22. Após a aplicação de cerâmica dos elementos com e.max (Ivoclar Vivadent, EUA), o pilar personalizado foi instalado (torque de 15 N) em boca e os elementos foram cimentados com VariolinK II (Ivoclar Vivadent, EUA). O resultado estético satisfatório atingido com os pilares personalizados por cerâmica injetada IPS nos permite sugerir esse material como um potencial substituto dos pilares personalizados em zircônia.

Unitermos:

Cerâmica odontológica; Pilar personalizado; Agenesia de lateral.

Abstract:

Over the years, implantodontists and prosthodontists have overcome the stage that osseointegration was the determining factor for successful rehabilitation. The current challenge is to ensure a functional and aesthetic outcome. The major challenge of restorative dentistry with dental implants is the replacement of lost structures, perfectly mimicking teeth, bone and soft tissues surrounding healthy teeth. In respect to the latter, architecture, contour, surface texture, and color are important determinants of the final appearance of the restoration. This case reports the use of customized IPS ceramic abutments for the rehabilitation of teeth 12 and 22. After the ceramic application of the elements with e.max (Ivoclar Vivadent, USA), the customized abutment was installed 15 Ncm in the mouth and the elements were cemented with VariolinK II (Ivoclar Vivadent, USA). The satisfactory aesthetic result achieved with the customized abutments by injected ceramic IPS allows us to suggest this material as a potential substitute over personalized zirconia abutments.

Keywords:

Press ceramic; Customized abutments; Missing teeth.

Introdução

Os implantodontistas e protesistas, com o passar dos anos, superaram a fase em que a osseointegração era o fator determinante para o sucesso reabilitador, sendo que o desafio atual é assegurar uma reabilitação que seja tanto funcional quanto estética1. O maior desafio da Odontologia restauradora com implantes dentais é a reposição das estruturas perdidas, imitando perfeitamente dentes, tecido ósseo e tecido mole que circundam os dentes sadios. Em respeito a este último, a arquitetura, o contorno, a textura da superfície e a cor são importantes determinantes da aparência final da restauração2.

Essa busca incessante pela perfeição nas reabilitações e a necessidade de melhores propriedades mecânicas levaram à introdução dos pilares personalizados na Odontologia. Esta, aliada à tecnologia computacional, tem permitido aos clínicos atingirem excelentes resultados estéticos3. As vantagens de utilizar componentes cerâmicos em reabilitações podem ser sumarizadas na possibilidade de individualizar os componentes1. Além disso, outras vantagens, como propriedades óticas2, excelentes qualidades estéticas, como cor e a sua compatibilidade com os tecidos peri-implantares4-5, tornam os pilares personalizados uma ótima escolha para casos com alta exigência estética.

Autores relatam que muitos problemas estéticos, relacionados à reabilitação da região anterior com implantes, podem ser solucionados com a utilização de pilares cerâmicos. Estes pilares são indicados preferencialmente para a região dos incisivos e pré-molares, onde as forças oclusais são menores e a estética é predominante. É importante salientarmos que os pilares cerâmicos personalizados com cerâmica feldspática reforçadas por leucita terão uma tonalidade (matiz) próxima a do dente natural, por isso nos apresentam vantagens estéticas quando comparados com pilares personalizados em zircônia.

Este relato de caso clínico foca na reabilitação da agenesia dos incisivos laterais superiores, fazendo uso de pilares pré-fabricados personalizados com cerâmica injetada feldspática reforçada por leucita IPS InLine PoM (Ivoclar Vivadent).

Terapia Aplicada

Paciente do sexo feminino, com 28 anos de idade, compareceu na clínica da escola ABCD Centro-Vales para a reabilitação protética de dois implantes osseointegrados na região dos elementos 12 e 22. Os implantes instalados eram Alvim 3,5 mm x 11,5 mm (Neodent – Curitiba, Brasil), Figura 1.

Com o objetivo de melhorar o contorno gengival, foram instalados provisórios sobre um munhão universal CM 3,3 mm x 1,5 mm x 4 mm (Neodent – Curitiba, Brasil) com parafuso passante, para que o mesmo fosse parafusado diretamente sobre o implante, a fim de facilitar os procedimentos de condicionamento do tecido mole. Nas sessões seguintes, foi acrescentada resina acrílica na região cervical para que o contorno cervical atingisse o formato compatível com a região. Após dois meses, o correto contorno dos tecidos peri-implantares foi atingido, finalizando os procedimentos de condicionamento gengival. Foram utilizados dois munhões universais com parafuso passante CM 3,3 mm x 1,5 mm x 4 mm (Neodent – Curitiba, Brasil), os quais foram personalizados com cerâmica injetada feldspática reforçada por leucita IPS InLine PoM (Ivoclar Vivadent).

A moldagem foi executada utilizando transferentes de moldeira aberta, os quais foram personalizados com resina acrílica utilizando a própria coroa provisória de cada região. Para isso, as coroas provisórias foram removidas e instaladas sobre um análogo do respectivo implante, e a porção cervical copiada com silicone de condensação Zetalabor (Zermak). Após, foi removida a coroa provisória, deixando apenas o análogo dentro do silicone, parafusando o transferente sobre o análogo. O espaço foi preenchido com resina acrílica. Concluída a polimerização do material, removeu-se o transferente do conjunto. Após a personalização dos dois transferentes (22 e 12) e depois da instalação sobre os implantes em boca, uma moldeira plástica (Angelus) de estoque foi preparada recebendo abertura para o acesso aos transferentes. O material de moldagem utilizado foi silicone de adição Express XT (3M Espe, EUA). Após a reação de polimerização do material, os transferentes foram desparafusados e o molde foi encaminhado ao laboratório para a confecção do modelo de gesso.

Com o modelo de gesso, o laboratório preparou o pilar selecionado desgastando-o, encerou o perfil de emergência e, pela técnica da cera perdida, foi injetada a cerâmica feldspática reforçada por leucita IPS InLine PoM (Ivoclar Vivadent), Figura 2.
Os pilares personalizados foram levados em posição com a ajuda de um guia em resina acrílica (Figuras 3, 4 e 5), e radiografias periapicais foram feitas para verificar a correta adaptação. Após esse procedimento, selecionou-se a cor dos elementos dentários e foram realizadas fotos extra e intrabucais para auxiliar o laboratório na reprodução da coroa. Sobre esses pilares, foram confeccionados copings injetados do sistema e.max Press (Ivoclar Vivadent), e sobre eles foi aplicada a porcelana de cobertura e.max Ceram à base de feldspática reforçada por nanofluorapatita (Ivoclar Vivadent).

Com as coroas finalizadas, o pilar personalizado foi instalado (torque de 15 N) e a abertura do parafuso foi fechada com uma matriz de teflon e resina composta A1 de baixa translucidez (Z350 XT Body – 3M Espe). As coroas foram cimentadas com VariolinK II (Ivoclar Vivadent) cor A1, apenas com pasta base. Para isso, o pilar personalizado e a coroa foram condicionados com ácido fluorídrico 10% (Angelus – Brasil) durante 60 e 20 segundos, respectivamente (Figura 6), lavados abundantemente e secos. Silano Monobond S (Ivoclar Vivadent) foi aplicado e, após 60 segundos, seco (Figura 7). Apos colocação do cimento e assentamento da coroa, realizou-se uma fotopolimerização durante cinco segundos e remoção dos excessos grosseiros de cimento (Figuras 8 e 9). Por fim, um novo controle foi realizado 20 dias após a cimentação, e um exame radiográfico foi realizado para verificar e assegurar a correta adaptação das restaurações ( Figuras 10 ). Controles de um ano (Figuras 11, 12 e 13) mostram a qualidade e integração das restaurações com os tecidos moles, evidenciando que esta técnica é viável para ser utilizada na clínica diária.

Discussão

As restaurações cerâmicas são amplamente usadas na prática odontológica, a fim de atingir as exigências estéticas dos pacientes e dos profissionais. Elas oferecem melhores qualidades óticas, quando comparadas aos materiais metálicos, permitindo a reprodução da cor e translucidez mais próxima dos dentes naturais6.

Na região anterior, a escolha entre utilizar pilares personalizados ou metálicos será principalmente influenciada pela arquitetura do tecido mole, expectativa estética do paciente, resultado estético a ser atingido, valor e cor dos dentes vizinhos. Quando da escolha do pilar metálico sem a personalização, devemos estar cientes da dificuldade em se mascarar o acinzentado oriundo do pilar, tanto para a coroa dentária como para a sua transparência nos tecidos peri-implantares. Apesar disso, excelentes resultados podem ser atingidos7.

Para realizar a personalização dos pilares, foi necessário observar que o término do pilar personalizado não deve estar a mais de 1,5 mm subgengival. Essa distância nos possibilita a correta remoção do cimento residual, o qual, quando não removido, pode acarretar em inflamação peri-implantar e posterior perda óssea8. Segundo este estudo9, todos os materiais restauradores são induzidos a uma alteração de cor, a qual se torna menos aparente quanto mais espesso for o tecido gengival. O titânio apresenta a mudança de cor mais pronunciada, enquanto a cerâmica/zircônia não aparenta alteração de cor visível em mucosas com espessura de 2 mm a 3 mm.

Conclusão

O resultado estético satisfatório atingido com os pilares personalizados por cerâmica injetada nos permite sugerir esse material como uma alternativa em regiões onde a estética é fundamental e a qualidade dos tecidos moles são menos favoráveis ao uso dos pilares metálicos pré-fabricados.

Nota de esclarecimento

Nós, os autores deste trabalho, não recebemos apoio financeiro para pesquisa dado por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Nós, ou os membros de nossas famílias, não recebemos honorários de consultoria ou fomos pagos como avaliadores por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não possuímos ações ou investimentos em organizações que também possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Não recebemos honorários de apresentações vindos de organizações que com fins lucrativos possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não estamos empregados pela entidade comercial que patrocinou o estudo e também não possuímos patentes ou royalties, nem trabalhamos como testemunha especializada, ou realizamos atividades para uma entidade com interesse financeiro nesta área.
Endereço para correspondência
Cassio Kampits
Rua Bernardo Fuerstenau, 57096890-000 – Sinimbu – RSTel.: (51) 9762-9030
cassiokampits@gmail.com

Galeria

Referências bibliográficas:

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  2. van Brakel R, Noordmans HJ, Frenken J, de Roode R, de Wit GC, Cune MS. The effect of zirconia and titanium implant abutments on light reflection of the supporting soft tissues. Clin Oral Implants Res 2011;22(10):1172-8.
  3. Koutayas SO, Vagkopoulou T, Pelekanos S, Koidis P, Strub JR. Zirconia in dentistry: part 2. Evidence-based clinical breakthrough. Eur J Esthet Dent 2009;4(4):348-80.
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  5. van Brakel R, Meijer GJ, Verhoeven JW, Jansen J, de Putter C, Cune MS. Soft tissue response to zirconia and titanium implant abutments: an in vivo within-subject comparison. J Clin Periodontol 2012;39(10):995-1001.
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  7. Sailer I, Zembic A, Jung RE, Hämmerle CH, Mattiola A. Single-tooth implant reconstructions: esthetic factors influencing the decision between titanium and zirconia abutments in anterior regions. Eur J Esthet Dent 2007;2(3):296-310.
  8. Agar JR, Cameron SM, Hughbanks JC, Parker MH. Cement removal from restorations luted to titanium abutments with simulated subgingival margins. J Prosthet Dent 1997;78(1):43-7.
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