PróteseNews 2019 | V6N3 | Páginas: 306-313

Influência da cimentação adesiva na qualidade das facetas cerâmicas

Influence of adhesive cementation on the quality of ceramic veneers – literature review

Autor(es):

Jéssica Cecília Araujo Vitor Modesto1

Sinara Matos Gonçalves1

Gabriel Gomes da Silva2

Everton Freitas de Morais3

Juliana Campos Pinheiro3

Antônio Alves de Almeida Jr.4

1Cirurgiãs-dentistas – Universidade Tiradentes.

2Graduando em Odontologia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

3Doutorandos em Ciências Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

4Doutor em Reabilitação Oral – Universidade Estadual Paulista; Professor de Reabilitação Oral – Universidade Tiradentes.

Resumo:

Os laminados cerâmicos são opções restauradoras às quais os cirurgiões-dentistas têm recorrido devido às suas diversas vantagens estéticas. Podem apresentar cor, textura e forma semelhantes a um dente natural. Além disso, devido à lisura superficial da cerâmica, alterações de cor são raras e permitem pouco desgaste dental, fazendo desta técnica um procedimento minimamente invasivo em muitos casos. Assim, é possível a correção da cor, fechamento de diastemas, giroversões e alterações da anatomia. Apesar da evolução dos materiais utilizados para a técnica de cimentação adesiva, há questionamentos quanto à longevidade clínica devido, principalmente, ao fato da retenção ocorrer através de procedimentos adesivos e por ainda tratar-se de um procedimento relativamente novo. O presente estudo teve como finalidade o acompanhamento da longevidade das facetas de cerâmica por meio de revisão literária clássica e atual, destacando as principais falhas relacionadas à cimentação adesiva.

Unitermos:

Facetas de cerâmica; Longevidade; Falhas.

Abstract:

Ceramic laminate veneers are a restorative option which dentists have used because of their various aesthetic advantages. They are similar in color, texture and shape to the natural tooth. Furthermore, due to the ceramic surface smoothness, color changes are rare and allow little tooth wear, making this a minimally invasive technique in many cases. Thus, the color correction diastema closure, rotations and changes in anatomy are possible. Regardless the advance in the materials used for the adhesive cementing technique, there are still questions regarding the clinical performance mainly due to the retention of bonding procedures and because it still a relatively new procedure. This study aimed to monitor the longevity of ceramic veneers by classical and current literature review, highlighting the major flaws related to the adhesive cementation.

Keywords:

Ceramic laminate veneers; Longevity; Failures.

Introdução

O enaltecimento da imagem reforçado pela mídia, além da importância dada à boa aparência sobre a autoestima e o convívio social do indivíduo, tem gerado maior requerimento em relação à estética por parte dos pacientes. A Odontologia tem avançado na tentativa de realizar procedimentos com características de naturalidade, ao devolver forma, textura, cor e posição dental1-2.

A confecção de facetas vestibulares foi iniciada em 1940, através da cimentação provisória de restaurações em resina acrílica, sem qualquer desgaste dental prévio, promovendo estética em atores de Hollywood. Com o início do condicionamento ácido sobre a superfície dental, assim como o emprego do sistema adesivo, surgiram novas expectativas sobre os procedimentos estéticos adesivos1,3-4.

O desenvolvimento de novos conceitos quanto ao uso universal das cerâmicas odontológicas só foi possível com a introdução de alternativas mecanicamente viáveis e recursos estéticos compatíveis com o elemento dentário a ser reproduzido. O aumento da resistência mecânica foi possível com o aumento da fase cristalina, interceptando a fratura com grãos coalescentes que, em contrapartida, diminuem a translucidez da peça protética4.

Dentre as cerâmicas odontológicas, a cerâmica feldspática (porcelana) possui uma fase vítrea proporcionalmente maior do que a fase cristalina, por isso consegue reproduzir nuances de translucidez do esmalte de forma mais complexa e natural. Contudo, ao ganharem resistência pelo aumento do número e uniformidade dos cristais, as cerâmicas policristalinas perderam a naturalidade, tornando-se inerentemente opacas. Coadjuvar os dois tipos de cerâmica é a chave para o sucesso estético e mecânico5.

Com a utilização da cerâmica feldspática em facetas laminadas5, foi possível reproduzir cor similar à estrutura dentária empregando uma camada tênue do material e obtendo alta estabilidade química, pouca condutibilidade elétrica, biocompatibilidade, resistência à atrição, abrasão e compressão. Assim, com a implantação do ácido fluorídrico no condicionamento do laminado cerâmico6, além da inserção de cimentos resinosos e do agente silano, o uso de facetas de cerâmica tornou-se uma opção decisiva para a realização de procedimentos estéticos, com excelente união entre cerâmica e esmalte dentário7.

As facetas de cerâmica possuem diversas vantagens, dentre elas: podem ser fixadas ao substrato dental por sistema adesivo; e não possuem contração de polimerização, fator inconveniente nas facetas de resina composta. Devido à lisura superficial da cerâmica, alterações de cor são raras. Além disso, permitem pouco desgaste dental, fazendo desta uma técnica minimamente invasiva em muitos casos2,8. Mesmo com a alta tecnologia utilizada nos promotores de adesão e aumento da procura por este procedimento, há questionamentos quanto à longevidade clínica, considerando que a retenção é dada através de procedimentos adesivos9.

O objetivo do presente estudo foi acompanhar a longevidade dos laminados cerâmicos por meio de uma revisão bibliográfica clássica e atual, evidenciando as principais falhas relacionadas à cimentação adesiva.

Revisão da Literatura

Na literatura, destacam-se estudos que avaliaram a estabilidade das cores das resinas compostas, que apresentam em sua composição matriz resinosa semelhante aos cimentos utilizados para a fixação dos laminados cerâmicos. Em um estudo10, foram utilizados cinco tons de dois fabricantes de resinas compostas, cujas alterações de cores foram mensuradas através do sistema CIE L*a*b* após exposição desses materiais à luz ultravioleta durante 24 horas. O sistema abordado media a distância condizente à disparidade de cores semelhantes, onde L analisa a luminosidade de um objeto, ou seja, a variação do preto puro ao branco puro; a medida a* é dada pela qualidade de vermelho e verde; e b* refere-se ao amarelo e azul. Concluiu-se que, independentemente do fabricante das resinas estudadas, a mudança maior ocorria nas cores mais claras.

Na literatura, são observados estudos in vitro que avaliam a resistência adesiva através de testes de cisalhamento dos laminados cerâmicos, assim como a microinfiltração marginal em incrustações de cerâmicas cimentadas com três diferentes sistemas de ativação dual. Dentre os sistemas avaliados, pode-se destacar: o Enforce (Dentsply Sirona – Nova York, EUA); o Scotchbond Resin Cement/Scotchbond Multi-Uso Plus (3M – Maplewood, EUA); e o Variolink Professional Set (Ivoclar Vivadent – Schaan, Leichtenstein). A resistência adesiva foi igual após o teste de cisalhamento dos agentes cimentantes utilizados, entretanto o sistema Variolink Professional Set apresentou-se estatisticamente inferior entre os demais. Em relação à resistência à fratura a partir do teste de cisalhamento, os sistemas Enforce e Scotchbond Resin Cement/Scotchbond Multi-Uso Plus também reagiram de forma mista, já com o sistema Variolink Professional Set observou-se fratura adesiva entre a dentina e o sistema de fixação em todos os corpos-de-prova. Desta forma, concluiu-se que nenhum cimento selecionado para pesquisa foi eficaz na vedação marginal, ocorrendo infiltração em todos, sendo estatisticamente superior ao Variolink Professional Set11.

Outro aspecto importante é a influência da luz na preservação de cor dos cimentos resinosos duais. Em um estudo prévio12, dois cimentos foram avaliados: Bistite II (Tokuyama Dental American – Encinitas, EUA); e Variolink II (Ivoclar Vivadent – Schaan, Leichtenstein). Ambos foram submetidos à fotopolimerização durante 120 segundos e à polimerização química apenas. Em 24 semanas, foi possível detectar alteração de cor dos espécimes que foram polimerizados apenas quimicamente em relação aos que foram submetidos à luz, chegando à conclusão de que os cimentos duais necessitam também da polimerização através da luz para garantir a manutenção da cor do material. Entretanto, a avaliação da longevidade das facetas de cerâmica, instaladas em um período de 12 anos em 46 pacientes restaurados com 182 laminados cerâmicos, foi reportada em outro estudo13. Os quesitos observados foram alterações da cor, integridade marginal e condição superficial da cerâmica, avaliados através dos critérios CDA/Ryge modificado, e o risco de fratura foi estabelecido pela análise de sobrevida de Kaplan-Meier. Para os autores, a sobrevida das facetas avaliadas foi de 94,4%, sendo considerada baixa proporção de falha. O sucesso clínico foi relacionado à utilização de técnicas adesivas relacionadas a este tipo de reabilitação.

A longevidade das facetas de cerâmica também foi avaliada em um estudo prévio14em que foram analisados 64 incisivos centrais. Assim, foram estudados quatro grupos, onde no grupo-controle foi confeccionado o preparo tipo janela. Nos demais, foram realizados términos incisais, sendo o último com chanfro palatino de 2 mm. Após 1,2 milhões de ciclos, foi observada que a maior taxa de trincas estava associada ao grupo que havia chanfro palatino. As fissuras iniciavam-se na concavidade palatina, alcançando a face vestibular.

Também foi realizado um estudo retrospectivo e observacional15de 304 facetas de cerâmica feldspática em 100 pacientes que se submeteram ao procedimento restaurador há pelo menos 16 anos (1988-2003). Os preparos limitados ao esmalte compreendiam 80% dos casos. Assim, a sobrevida encontrada para os laminados foi: 96% dos procedimentos realizados de cinco a seis anos; 93% de dez a 11 anos; 91% de 12 a 13 anos; e 73% de 15 a 16 anos. Os autores relacionaram o declínio constatado entre as facetas realizadas entre 13 e 16 anos ao falecimento de um paciente e ao pequeno número de facetas nesse período. Foi observada falha nas facetas de 14 pacientes, sendo 31% das falhas de cunho estético, 31% associadas à falha mecânica, 12,5% à condição periodontal, em 12,5% houve perda de retenção e processos cariosos, e em 6% houve fraturas.

A longevidade das facetas de cerâmica pode ser potencializada caso o tempo de condicionamento e a concentração do ácido sejam expandidos, sendo sugerida na atualidade a concentração de 2% a 10% de ácido hidrofluorídrico, aplicado durante 20 segundos até um minuto, de acordo com o tipo de cerâmica empregada. As facetas devem ser tratadas com abrasivo de óxido de alumínio associado ao condicionamento com ácido hidrofluorídrico, conferindo assim maior resistência quando comparadas àquelas tratadas apenas com esse último16. A silanização é um importante método de tratamento superficial que vem sendo estudado na cimentação de facetas cerâmicas, sendo o silano um agente que garante a adesão química dos componentes inorgânicos da cerâmica à porção orgânica do cimento resinoso. Trata-se de um monômero no qual o silício está ligado a radicais orgânicos reativos e a grupamentos monovalentes hidrolisáveis. Os radicais orgânicos reativos ligam-se quimicamente com as moléculas de resina, como Bis-GMA e TEGMA, encontrados tanto no adesivo como no cimento resinoso17. Por essas características, tem sido proposta sua utilização para otimizar os resultados clínicos na cimentação de restaurações indiretas de resina e de cerâmica, assim como nos reparos desses trabalhos na cavidade oral. Ainda em relação aos silanos, o tratamento térmico deste monômero permite a remoção de películas externas deixando apenas a camada mais interna, que é mais estável e quimicamente unida à cerâmica. Desta forma, a utilização do silano termicamente tratado permite a melhora da união entre resinas compostas e a sílica das cerâmicas vítreas8.

Ao ser aplicado em uma superfície de cerâmica vítrea sem o prévio condicionamento com o ácido hidrofluorídrico, o silano apresenta interface adesiva menos resistente. Para isso, é necessário o condicionamento químico da superfície interna das cerâmicas vítreas com ácido hidrofluorídrico em concentração de 8% a 10%, para promover alteração morfológica da fase vítrea e criar topografia com aspecto de colmeia, considerada ideal para a retenção micromecânica9.

A fim de minimizar os passos durante o tratamento superficial das cerâmicas vítreas, surgiu o primer autocondicionante. Este material é composto por monômeros resinosos ácidos, que simultaneamente modificam e removem parcialmente a smear layer . Além de descalcificar a superfície de dentina e esmalte, sua acidez é menor do que a apresentada pelo ácido fosfórico e sua dissolução tende a ser autolimitada, uma vez que o ácido é neutralizado em algum momento pelos íons cálcio e fosfato liberados durante a desmineralização. Durante a cimentação das facetas cerâmicas, os primers autocondicionantes permitem a formação de uma continuidade entre as superfícies dentais e o material adesivo, sendo que a maior vantagem desse sistema sobre os demais está na simplificação e menor sensibilidade da técnica. Além disso, a eliminação dos passos de lavagem reduz a possibilidade de excesso de secagem ou umidade, o que pode exercer uma influência negativa sobre a adesão ao cimento resinoso em facetas cerâmicas10.

O emprego da cerâmica na Odontologia se deve à sua semelhança ao dente natural, às excelentes propriedades óticas e estabilidade química. Além disso, também são observadas características como rigidez e elevada qualidade estética, sendo uma excelente opção restauradora que supre as exigências dos pacientes8. Foram avaliadas as alternâncias de duas cores de cimento (Vita A1 e A3) após serem mantidas por 90 dias em solução aquosa reforçadas por leucita, cimentados em dentes humanos18. A cor foi checada com um espectrofotômetro após três, 30 e 90 dias, novamente utilizando o sistema CIE L*, a*, b*. Ao fim do estudo, não foi notada qualquer alternância de cor, independentemente do tom inicial e período avaliado.

Um respectivo estudo19utilizou como metodologia 30 amostras preparadas com os seguintes cimentos resinosos duais: Rely X ARC (3M – Maplewood, EUA) e AllCem (FGM – Joinville, Brasil). Através da utilização ou não da fotopolimerização, observou-se se havia ou não alteração de cor. Os espécimes foram mantidos em água destilada e a cor foi aferida de imediato e 15, 30 e 45 dias depois, através do aparelho Vita Easyshade (Vita Zahnfrabik H Hauter GmbH & CO. KG – Bad Säckingen, Alemanha). Com a análise final, foi possível concluir que a cor inicial dos cimentos resinosos não coincidiu com a cor apontada pelos fabricantes. Além disso, verificou-se instabilidade de cor do cimento RelyX ARC quando não praticada a fotopolimerização.

O planejamento do caso, seleção dos materiais, tipo e técnicas do preparo dental, tratamento da superfície da cerâmica e do dente, e escolha correta da cor do agente cimentante são as etapas em que ocorrem os mais significantes erros. Também é ressaltada a importância do acabamento, polimento e selamento, levando em consideração que uma superfície rugosa está mais propensa à pigmentação extrínseca do que uma superfície polida, sendo a razão de possíveis manchamentos8. Respeitar as limitações do paciente, como presença de hábitos parafuncionais, remanescente coronário de tamanho insuficiente, dentes apinhados, girovertidos e/ou excessivamente vestibularizados, restaurações extensas, diastemas exagerados, condições patológicas que envolvam o periodonto, e também a inserção baixa do freio labial durante o planejamento é fundamental para o êxito do tratamento. Enceramentos, mock-ups , imagens digitais e provisórios capazes de reproduzir o aspecto futuro são importantes para a participação do paciente no aspecto final. Uma falha importante na etapa de tratamento da superfície dental é a exposição à umidade e a contaminação, quando não realizado o devido isolamento da região, implicando mais uma vez em falhas adesivas20.

No que tange a avaliação da resistência ao microcisalhamento relacionado ao tipo de ativação do cimento resinoso, um estudo in vitro 7avaliou a espessura da faceta de cerâmica, seu envelhecimento imediato e, depois, realizou o seu armazenamento por 30 dias com 3.500 de termociclagem. Foram confeccionados 60 blocos de cerâmica feldspática (Vita Zahnfabric – Bad Sackingen, Alemanha), divididos em grupos de 1 mm e 2 mm de espessura. De acordo com a cimentação, foram divididos em grupos conforme a sua ativação: grupo A – fotoativado RelyX Veneer (3M Espe – Maplewood, EUA); grupo B – ativação dual RelyX ARC (3M Espe – Maplewood, EUA); e grupo-controle – quimicamente ativado C&B Cement (Bisco Dental – Schaumburg, EUA). De acordo com os resultados, não houve diferença da resistência ao microcisalhamento entre os laminados de 1 mm e 2 mm, e em relação ao tipo de ativação do cimento resinoso, entretanto houve redução após o envelhecimento das facetas de 1 mm de espessura. Desta forma, concluiu-se que, em virtude do pequeno volume de amina terciária, o cimento fotoativado possuía pouca capacidade de descoloração, diferente dos cimentos de ativação química e dual, sendo o cimento fotoativado o material de escolha para a realização da cimentação adesiva de facetas em cerâmica.

Um estudo clínico randomizado21avaliou as condições clínicas de 119 facetas de cerâmica durante sete anos. Os pacientes selecionados não apresentavam extensa destruição coronária ou quaisquer problemas periodontais e foram instruídos a realizar uma higiene bucal satisfatória. Além disso, para os que apresentavam hábitos parafuncionais, foram confeccionadas placas miorrelaxantes. Foi definida uma padronização da cerâmica utilizada que media 0,7 mm de espessura no terço médio e 1,5 mm no terço incisal. Durante a análise, três casos foram considerados fracassos absolutos, sendo que dois apresentaram necrose pulpar no quarto e quinto ano, e em um houve deterioração secundária na interface dente-cerâmica, observada no sexto ano. No sétimo ano de acompanhamento, foi observada a eminência visível da fenda na adaptação marginal de três casos (2,5%), porém sem a penetração do explorador. Em cinco casos (4,2%) houve mudança na coloração da margem, no entanto sem penetração no sentido pulpar. Não foram encontradas alterações anatômicas e de cor, como incompatibilidade da mesma, sombra e translucidez. Também não houve recessão gengival em nenhum caso, mas é importante ressaltar que todos os preparos foram confeccionados a nível supragengival.

O sucesso clínico da utilização de cerâmica na Odontologia se deve à evolução dos meios de retenção à superfície dentária. O emprego do silano foi um marco neste quesito devido à ligação covalente entre o agente silano e o íon hidroxila, constituinte da cerâmica. Trata-se de um agente com dupla função, a molécula pode se conectar tanto à superfície inorgânica da cerâmica quanto à matriz orgânica resinosa9.

A ação que o tempo, o modo de polimerização do agente cimentante e os variados matizes do cimento exercem sobre a cor também foi analisada22. Foram selecionados cimentos nas cores translúcida, clara e escura de quatro fabricantes: Choice 2 (Bisco Dental – Shaumburg, EUA); Rely X Venner (3M – Maplewood, EUA); Variolink II (Ivoclar Vivadent – Schaan, Liechtenstein) e AllCem (FGM – Joinville, Brasil), sendo dois polimerizados (Choice 2; Rely X Venner) através da fotoativação e outros dois (Variolink II e AllCem) ativados através do modo dual. Por meio de um colorímetro digital, foram consignadas as medidas durante sete dias e novamente após 30 e 90 dias. Concluiu-se que os cimentos transparentes tendem a apresentar maior descoloração quando comparados aos de cor clara e escura. Em relação ao método de ativação do cimento, houve uma mudança estatisticamente significativa entre eles, entretanto os fotoativados apresentaram melhor êxito.

Foi analisada a resistência à fratura in vitro 23-25e microinfiltração do laminado cerâmico de dentes previamente restaurados com resina composta após a carga cíclica. Após a seleção de 30 incisivos centrais com ausência de cárie, trincas e desgaste demasiado, eles foram divididos em três grupos: hígidos; com cavidades classe III, restauradas com resina composta do tipo microhíbrida/microparticulada; e com cavidades classe IV. Visto que alguns estudos sugerem a total remoção de restaurações prévias, e considerando que a remoção de uma restauração classe III para o preparo de um laminado resultaria em uma classe IV, tais cavidades foram confeccionadas pelos próprios autores com a finalidade de comprovar ou não tal hipótese. O maior número de casos de microinfiltrações foi encontrado no grupo em que havia restaurações classe IV antes e após a carga cíclica, já o menor estava relacionado ao grupo-controle. Todavia, de uma forma geral, a quantidade de microinfiltrações foi maior após a carga cíclica em todos os grupos. A resistência à fratura foi significativamente maior no grupo-controle e menor no grupo classe IV. Sendo assim, concluiu-se que não houve diferença significativa entre dentes hígidos e os que foram submetidos a restaurações prévias de resina composta.

Discussão

As facetas cerâmicas, diferentemente das confeccionadas a partir da resina composta, possuem propriedades excepcionais que resultam em estabilidade de cor e resistência ao desgaste, auxiliando de forma satisfatória a reabilitação das características estruturais, óticas e biomecânicas do dente a longo prazo. Quando limitadas ao esmalte, oferecem previsibilidade a longo prazo e um baixo número de falhas. Por essa razão, indica-se o preparo tipo janela, quando possível13-15,24.

O emprego do agente silano associado a cimentos resinosos aumenta a durabilidade das facetas de cerâmica, em consequência de demonstrarem maior índice de resistência de união entre a restauração e a estrutura dental. Outro fator significativo é o tratamento das superfícies, realizado previamente à cimentação. É preconizada a utilização de ácido fosfórico a 37% durante 30 segundos para o tratamento da área dental preparada, e ácido hidrofluorídrico de 2% a 10% durante 20 segundos até um minuto, associado ao jateamento abrasivo com óxido de alumínio, nas superfícies cerâmicas9,16,19. Entretanto, atualmente preconiza-se o uso do condicionamento ácido seguido da aplicação de agente silano na superfície das cerâmicas vítreas, dentre elas a cerâmica feldspática7.

Quanto à longevidade, observou-se uma sobrevida de 94,4% após 12 anos, correlacionando o baixo índice de falhas das técnicas adesivas agregadas ao procedimento13. Após a análise, foi observado que a enumeração de dados referentes às falhas em restaurações com facetas cerâmicas reduziu, 93% comumente estão relacionadas à fratura, lascamento, trincas, descoloração relacionada ao sistema de fixação, e à discrepância marginal15,26.

Os relatos na literatura correlacionam as alterações de cor ao agente cimentante, seja pela sua tonalidade, forma de polimerização ou absorção de água, visto que a cerâmica possui propriedades óticas resultantes da fase cristalina que permitem a estabilidade da cor17. Outros estudos mostraram resultados semelhantes, concluindo que as cores mais claras possuem maior tendência de descoloração10,22. No que se refere ao maior sucesso dos cimentos duais em relação aos de polimerização unicamente química, observou-se que todas as moléculas são passíveis de polimerização, intervindo assim no volume de monômeros residuais responsáveis pela formação de produtos de deterioração de cor7,12.

O preparo dental merece atenção, visto que, quando realizado de maneira insuficiente e comedida, há possibilidade de não haver espaço suficiente para os demais componentes. Já quando ocorre de maneira exacerbada, pode interferir na adesão e coesão. Deve também ser realizado de forma homogênea, a fim de conferir resistência ao remanescente coronário devido a mesma espessura do esmalte em toda sua extensão20. O preparo tipo janela possui maior resistência à fratura em facetas feldspáticas devido ao fato de haver, nesse caso, menor desgaste de estrutura sadia24. Observou-se que os preparos mais conservadores resultavam em maior resistência, mesmo que para isso fossem preservadas as restaurações prévias25.

A principal razão do aparecimento de trincas e, consequentemente, fraturas da cerâmica é a sua baixa flexibilidade. Também pode estar associado à tensão na interface adesiva, resultante da contração de polimerização do cimento, e à oclusão traumática. O risco de fraturas é aumentado expressivamente quando o laminado cerâmico está fixado sobre dentina, devido ao estresse acerca da peça durante a carga mastigatória. É sugerido um estudo referente ao diferencial ou não do selamento dentinário nestas condições23. Há uma correlação importante entre a saúde periodontal e descoloração marginal com a adaptação marginal. O aparecimento de fendas entre a margem do laminado cerâmico e a margem do preparo dental ocasiona atrição e perda gradual do cimento utilizado para a fixação, propiciando o acúmulo de biofilme bacteriano e, portanto, a inflamação gengival11.

Dentre a bibliografia utilizada para o presente trabalho, a preponderância de casos em que não houve comprometimento na adaptação marginal foi expressiva. Outros estudos27-28não apresentaram qualquer sinal de desadaptação externa. Embora três casos de outro estudo21tenham apresentado fenda visível, e cinco casos tenham apresentado alteração da cor da linha de união, não houve penetração da sonda exploradora em nenhum deles, tratando-se de lesões extremamente superficiais.

A microinfiltração trata-se da comunicação que permite o contato da saliva com o agente de fixação, podendo ocasionar alterações cromáticas e até deslocamento axial dos laminados estésticos29. Estudos encontraram um maior número de espécimes microinfiltrados no grupo em que havia restaurações classe IV, portanto havia maior desgaste da estrutura sadia e menor suporte dental. No entanto, nenhum dos cimentos avaliados, de ativação dual, foi capaz de impedir a microinfiltração11.

Conclusão

De acordo com a revisão da literatura apresentada, os artigos relacionam a durabilidade das restaurações estéticas com facetas cerâmicas à utilização de medidas como a preservação da estrutura dental adjacente. Desta forma, as facetas devem ser fixadas em esmalte dental, quando possível. O tratamento da superfície dental consiste em condicionamento com ácido fosfórico a 37% e o tratamento da superfície cerâmica com ácido hidrofluorídrico de 2% a 10% associado à utilização de silano e cimentos resinosos que sejam passíveis de polimerização total, como os fotoativados. Em relação ao tempo, as facetas em cerâmica feldspática têm apresentado sucesso clínico, com altos índices de longevidade, podendo ser consideradas um método seguro de recuperação da estética em longo prazo.

Nota de esclarecimento

Nós, os autores deste trabalho, não recebemos apoio financeiro para pesquisa dado por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Nós, ou os membros de nossas famílias, não recebemos honorários de consultoria ou fomos pagos como avaliadores por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não possuímos ações ou investimentos em organizações que também possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Não recebemos honorários de apresentações vindos de organizações que com fins lucrativos possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não estamos empregados pela entidade comercial que patrocinou o estudo e também não possuímos patentes ou royalties, nem trabalhamos como testemunha especializada, ou realizamos atividades para uma entidade com interesse financeiro nesta área.
Endereço para correspondência
Juliana Campos Pinheiro
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59056-000 – Natal – RN
Tel.: (84) 98156-8333
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