Publicado em: 28/03/2017 às 16h09

O que a literatura diz sobre o futuro dos laminados cerâmicos?

Na coluna Trocando em miúdos, Renata Marques de Melo debate o desempenho clínico dos laminados cerâmicos.

Sobre a previsibilidade e a possível transição que restaurações finas de cerâmica podem sofrer, caso falhem, Mark Friedman1 afirmou: “Os pacientes devem ser informados de todos os benefícios, riscos e alternativas às restaurações cerâmicas adesivas do tipo veneer. Isso é particularmente importante para indivíduos jovens, que podem ter que substituir restaurações diversas vezes durante a vida. Com sorte, a maior parte dessas restaurações não sofrerá infiltração ou descolará. Do contrário, muitas terão de ser transformadas em coroas totais e, inevitavelmente, entrarão no ciclo de substituições com possível necessidade de tratamento endodôntico. Ocasionalmente, a estrutura dentária será perdida. É lamentável para a profissão se isso já estiver ocorrendo”.

Esse texto, escrito há mais de dez anos, levanta dúvida sobre o desempenho clínico dos laminados cerâmicos. Apesar do número considerável de artigos clínicos que poderiam esclarecer a questão, o prognóstico dessas restaurações só pode ser definido por revisões sistemáticas e metanálises baseadas em estudos clínicos. Assim, as metanálises são tipos de estudos que selecionam os trabalhos clínicos com maior rigor científico (exemplo: aleatorização dos tratamentos, explicações detalhadas sobre os passos clínicos, número de sujeitos envolvidos etc.) e submetem-nos à análise estatística para responder à mesma pergunta feita nos estudos selecionados.

Dessa forma, vejamos o que dizem algumas metanálises sobre o que se pode esperar dos laminados cerâmicos. Um estudo metanalítico2 a respeito da sobrevivência de veneers feldspáticas (aplicadas manualmente) apresentou como conclusão que aproximadamente 95% dessas restaurações ainda se encontram em perfeito uso após dez anos, desde que tenham sido cimentadas sobre esmalte. Mesmo assim, houve heterogeneidade estatística dos resultados devido aos procedimentos clínicos e metodológicos pouco padronizados nos estudos selecionados. A falta de padronização dos estudos clínicos faz com que nem todos sejam úteis para se determinar o comportamento de uma terapia restauradora.

Outra metanálise dos mesmos autores3, porém, sobre cerâmicas usinadas em CAD/CAM, mostrou que há poucos artigos clínicos examinando esses materiais por mais de cinco anos. A taxa de sobrevivência após esse período chegou a 90%. Sobre a necessidade de recobrir a incisal, um estudo metanalítico4 mostrou que não houve diferenças na longevidade das restaurações com e sem cobertura. Isso significa que há evidência clínica para que o dentista use o tipo mais conservador de preparo sem prejuízo da restauração.

Recentemente, informações relevantes sobre as complicações mais frequentes dos laminados cerâmicos também foram obtidas em um estudo de revisão sistemática e metanálise5. Os autores concluíram que a taxa de sobrevivência dos laminados cerâmicos foi alta e as complicações mais comuns são fraturas ou lascamentos da porcelana, isto é, problemas reversíveis que fazem dessas restaurações uma opção conservadora da estrutura dentária. Porém, não foi possível concluir como o preparo em esmalte ou dentina afetou a longevidade das restaurações. Por isso, embora haja alguma evidência sobre o melhor desempenho dos laminados quando cimentados sobre esmalte, não é possível afirmar isso de maneira contundente, pois os estudos clínicos não dão informações suficientes sobre as caraterísticas dos preparos e do substrato usado para cimentação.

Também não há relatos na literatura (até a data em que este texto foi escrito) de estudos clínicos e, consequentemente, metanálises sobre lâminas cimentadas em preparos que tenham sido feitos com pouco ou nenhum desgaste da estrutura dentária, denominadas “lentes de contato”. Assim, restam-nos apenas os dados laboratoriais mostrando que a fragilidade da cerâmica feldspática é compensada pelo procedimento adesivo eficiente sobre o esmalte6.

O presente texto não pretende e nem poderia esgotar o assunto em questão. Mas, pode-se dizer que há evidência de que os laminados cerâmicos são pouco invasivos e apresentam longevidade suficiente para desfazer a dúvida de Mark Friedman.

O mais importante é a preocupação do Dr. Friedman com os pacientes jovens que podem estar sendo submetidos, indiscriminadamente, ao tratamento com lâminas cerâmicas sem saber das implicações – o que deve ser informado pelo clínico. De qualquer maneira, o surgimento de novas técnicas e novos materiais adesivos exige que estudos clínicos com procedimentos e metodologia mais detalhados possam produzir revisões e metanálises que definam melhor o prognóstico dessas restaurações.

 

Referências

1. Friedaman MJ. A disturbing transition of the bonded porcelain veneer restoration [On-line]. Disponível em <www.oralhealthgroup.com/features/a-disturbing-transition-of-the-bonded-porcelain-veneer-restoration/>.

2. Layton DM, Clarke M, Walton TR. A systematic review and meta-analysis of the survival of feldspathic porcelain veneers over 5 and 10 years. Int J Prosthodont 2012;25(6):590-603.

3. Layton DM, Clarke M. A systematic review and meta-analysis of the survival of non-feldspathic porcelain veneers over 5 and 10 years. Int J Prosthodont 2013;26(2):111-24.

4. Albanesi RB, Pigozzo MN, Sesma N, Laganá DC, Morimoto S. Incisal coverage or not in ceramic laminate veneers: a systematic review and meta-analysis. J Dent 2016;52:1-7.

5. Morimoto S, Albanesi RB, Sesma N, Agra CM, Braga MM. Main clinical outcomes of feldspathic porcelain and glass-ceramic laminate veneers: a systematic review and meta-analysis of survival and complication rates. Int J Prosthodont 2016;29(1):38-49.

6. Ge C, Green CC, Sederstrom D, McLaren EA, White SN. Effect of porcelain and enamel thickness on porcelain veneer failure loads I vitro. J Prosthet Dent 2014;111(5):380-7.

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.