Publicado em: 28/03/2017 às 16h47

Edwin McGlumphy conta sua experiência com a Prótese Dentária

Em entrevista à PróteseNews, o norte-americano explica como se tornou um dos principais estudiosos das propriedades físicas dos componentes do implante e da prótese dentária sobre implantes.

Edwin McGlumphy se formou na Universidade Estadual de Ohio, onde atualmente é professor associado.

 

O início da história do norte-americano Edwin McGlumphy na Prótese Dentária é permeado de ricos encontros com a Implantodontia. Talvez essa tenha sido a “obra do destino” para que ele se tornasse um dos principais estudiosos das propriedades físicas dos componentes do implante e da prótese dentária sobre implantes.

Formado desde 1985 em Odontologia pela Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, McGlumphy fez residência na Universidade do Texas, em San Antonio, e no primeiro mês de curso em Cirurgia Oral observou que era colocada uma grande quantidade de implantes Brånemark.

Mais tarde, naquele mesmo ano, PI Brånemark foi à San Antonio para dar um curso e McGlumphy viu na plateia o Dr. Larry Peterson, seu ex-professor, e o Dr. Wayne Campagni, que seria o seu mentor em Prótese no ano seguinte na Universidade Estadual de Ohio. “Durante o resto do meu ano, tentei aprender o máximo que pude sobre os implantes dentários com os Drs. Steve Parel, Joseph Van Sickles e Gil Triplett. Quando voltei para a Universidade Estadual de Ohio e ao meu programa de Prótese, já sabia bastante sobre implantes dentários por causa de minhas experiências em San Antonio, então pude começar a atuar nos primeiros pacientes na universidade”, conta.

Desta experiência, ele fez seu projeto de pesquisa de mestrado sobre a mecânica de transferência de estresse nos implantes e o apresentou em uma reunião da Academia de Osseointegração, em 1988, em Dallas. “A partir desse ponto, ficou claro para mim que esta foi uma grande mudança em benefício dos pacientes, mas ainda havia um monte de questões em pesquisa que precisavam ser respondidas, e que se tornaram o sentido da minha carreira em pesquisa acadêmica, assim como na minha prática privada”, descreve.

Atualmente, McGlumphy é professor associado do Depto. de Odontologia Restauradora e Prótese Dentária da Universidade Estadual de Ohio, e revisor do Journal of Prosthetic Dentistry e Journal of Oral and Maxilofacial Implants. Dentre dezenas de publicações, destacam-se os estudos das propriedades físicas dos componentes do implante e a prótese dentária sobre implantes.

Para ele, é uma grande alegria ser capaz de transmitir seu aprendizado aos alunos, residentes e participantes de educação continuada. A seguir, ele compartilha um pouco do seu conhecimento com os leitores da PróteseNews.
 

PróteseNews – Quais são os pontos mais interessantes para ensinar na pós-graduação e cursos de graduação em relação à prótese sobre implante?
Edwin McGlumphy –
Eu recebi uma lição importante muito cedo na minha carreira. Um clínico-geral local estava colocando um monte de implantes dentários, e seu tratamento mais comum parecia ser extrair os dentes inferiores e imediatamente colocar implantes nos alvéolos, conectá-los com uma barra e restaurá-los com overdenture barra clip. Um grande número de seus pacientes veio até mim queixando-se de problemas. Os implantes foram perfeitamente bem integrados e as barras estavam intactas, no entanto, os problemas eram as próteses, que muitas vezes tinham aumento nas dimensões verticais de oclusão, o que causou diversas fraturas, problemas na articulação temporomandibular e preocupações estéticas. Em outras palavras, os pacientes tiveram sucesso no implante e falha na prótese, principalmente, porque eles não tinham espaço para o tipo de restauração planejada. Desde o início, tornou-se claro para mim que, se você colocar o implante na extração, você basicamente só tem espaço para restaurar o implante com uma coroa. Se você está planejando fazer uma overdenture ou prótese híbrida, este osso alveolar já deveria estar ausente, como em muitos dos nossos usuários de prótese total de 20 anos, ou o osso alveolar precisa ser removido antes da colocação dos implantes para que estas restaurações sejam feitas na dimensão vertical de oclusão adequada. Da mesma forma, os implantes colocados em alvéolos de extração e que vão receber as coroas, especialmente na zona estética, precisam ficar o mais profundo e lingual possível, o suficiente para fazer uma restauração estética. Eu tento ensinar aos estudantes e residentes que “o beijo da morte” na região estética é colocar implantes muito rasos ou para vestibular. Para restaurações totais nas arcadas, o sucesso depende mais da escolha do tipo adequado de recuperação, dada a quantidade de espaço vertical disponível. Se o paciente tem de 8 mm a 10 mm de espaço vertical disponível em cada arco, ele deve ser restaurado com metalocerâmicas fixas ou zircônia (coroas e pontes). Para qualquer tipo de restauração metaloplástica fixa ou removível, tais como as híbridas ou overdentures, pelo menos 13 mm (ou, preferivelmente, mais) de espaço vertical são necessários. Eu ensino aos residentes e estudantes que, se eles prestarem atenção à profundidade e angulação do implante para dentes individuais, e entenderem a importância da dimensão vertical em uma situação de arcada total, a restauração será bem-sucedida e o paciente ficará feliz. No entanto, se esses princípios são ignorados, pode ser difícil mudar os resultados.
 

PrNews – Será que o dentista tem que se transformar em um “especialista em biomecânica”, devido ao número de sistemas de implantes, conexões e pilares disponíveis no mercado?
EM –
Depois de 30 anos, o número de sistemas de implantes e peças pode ser esmagador. Eu ensino aos nossos estudantes que não há nenhuma forma deles aprenderem todos os sistemas, conexões e pilares que estão disponíveis mundialmente. No entanto, se você destrinchá-los, perceberá que na verdade todos são muito mais semelhantes do que diferentes. Cada sistema tem um componente de moldagem, um análogo do corpo do implante, uma característica antirrotacional e vários tipos de pilares que se encaixam no implante. Agora, o desafio é que cada um tem um nome diferente, um número de catálogo diferente e um sistema de codificação de cores diferente para todas essas partes, e isso pode ficar confuso. Eu tento ensinar os alunos a escolherem para cada componente um nome genérico que faz mais sentido para eles e olharem mais para a foto no catálogo, para entender o que a parte faz. Dessa maneira, eles devem ser capazes de aprender a usar qualquer sistema de implante, desde que possam identifi car qual implante é. Eu ensino aos nossos alunos que, para restaurar um implante, eles precisam saber três coisas: assim como um carro pode ser identificado pela sua marca, modelo e ano, os implantes dentais podem ser identificados pela marca, modelo e diâmetro. Se você sabe que o implante é Nobel Biocare (marca) Active (modelo) e possui 3,7 mm (diâmetro), ou Zimmer, Tapered Screw-vent, 4,5 mm, os componentes apropriados que permitem restaurar este implante podem ser comprados facilmente. Em seguida, o maior desafio é apenas para os implantes que não podemos identificar. A nossa profissão deve fazer um trabalho muito melhor para garantir que nossos pacientes saibam exatamente o sistema de modelo e diâmetro de implante que eles têm na boca. Idealmente, registros nacionais ou internacionais deveriam ser criados, mas claro que seria difícil. Costumo brincar com os nossos alunos que, para ser realmente bom em identificar sistemas de implantes, o que ajuda é ser velho e ter uma carreira utilizando muitos dos sistemas. Para os mais novos, se o paciente ou o seu cirurgião não podem fornecer o tipo de implante, recursos on-line, como o whatimplantisthat.com, podem ser fontes de ajuda.


 

PrNews – A mecânica do parafuso de pilar e as complicações clínicas: quais são os pontos mais sensíveis?
EM –
Mais uma vez, os fundamentos odontológicos básicos são a coisa mais importante para a mecânica de sucesso. Em outras palavras, se as infraestruturas se encaixam de forma passiva e a oclusão é ajustada de forma apropriada, poucos problemas ocorrem (como o afrouxamento do parafuso, sua fratura ou a fratura do pilar). Hoje, o escaneamento intraoral para próteses pequenas ou dentes individuais e a usinagem melhoraram muito a nossa capacidade de obter uma infraestrutura passiva. Para a oclusão, eliminar os contatos em balanceio é rotina para a maioria dos clínicos, no entanto, contatos oblíquos também devem ser identificados e adequadamente ajustados. Uma vez que os fundamentos dentários são feitos de forma adequada, assim chamado “função de antirrotação”, torna-se o componente mais importante. No entanto, às vezes, o nome “característica antirrotação” pode dar ao clínico a impressão errada. Para mim, é melhor pensar nesse recurso como uma característica “anti-inclinação” ou “de resistência às forças laterais”. Quando as paredes verticais do hexágono envolvem as paredes verticais do implante, eles fornecem resistência ao basculamento lateral daquela coroa. Portanto, o comprimento destas paredes e as tolerâncias do quão bem se encaixam são a chave para fornecer uma restauração estável. Além disso, é típico que as características internas sejam mais longas do que as características externas em função da estética, portanto, geralmente são mais eficazes na prevenção de afrouxamento. Assim, já que a maioria das empresas foi para as conexões internas mais profundas com boas tolerâncias de seus componentes, o clínico precisa ficar muito menos preocupado com as chaves de aperto, parafusos de ouro, lubrificação etc. Todos esses fatores podem desempenhar um pequeno papel na melhora da mecânica dos parafusos, mas os papéis principais são desempenhados por infraestruturas bem ajustadas, oclusão adequadamente ajustada e conexões internas profundas com boa tolerância que resistem às forças laterais. Clinicamente, nunca é errado usar os valores de torque sugeridos pelo fabricante para cada um dos seus componentes. Eu também sinto que é importante usar as peças que vêm da empresa que faz o implante, em vez de reposição ou de terceiros. Esta é a única maneira de controlar e assegurar que as tolerâncias apropriadas das peças sejam mantidas. Naturalmente, é sempre melhor evitar complicações pelo melhor uso do nosso conhecimento dos fundamentos. No entanto, é claro que todos nós sabemos que há complicações que entram em nossa prática. Meu melhor conselho, particularmente, sobre parafusos e componentes quebrados, é perceber que nada geralmente quebra a menos que esteja solto, em primeiro lugar. Portanto, qualquer parte restante dentro da outra parte geralmente está solta. Se a linha de fratura estiver definida, geralmente a peça pode ser removida em sentido anti-horário, muitas vezes com uma sonda explorado a ou cureta. Se estiver fraturado de tal maneira que não possa ser facilmente rodado para fora, ferramentas de remoção de parafuso fornecidas pela maioria dos fabricantes podem ser utilizadas para aplicar um pouco mais de torque e ultrapassar as roscas irregulares do parafuso. No entanto, se o clínico considera que o parafuso está apertado e será difícil removê-lo, ele pode ficar tentado a fazer uma fenda no parafuso, o que muitas vezes gera mais complicações do que o problema original.
 

PrNews – Em relação às restaurações em zircônia monolítica sobre implantes, será que finalmente estamos vendo “a luz” na prática clínica?
EM –
Certamente, as restaurações em zircônia monolítica são emocionantes e até agora nossos resultados têm sido muito encorajadores, mas é claro que sempre devemos ter em mente que, às vezes, com qualquer novo produto, as questões nem sempre aparecem imediatamente. Dito isto, temos utilizado restaurações em zircônia há aproximadamente oito anos. A maioria das complicações tem sido muito pequena e geralmente relacionada com pequenos lascamentos (delaminações) na porcelana de revestimento. Envolver a zircônia monolítica ligeiramente além da borda incisal tem eliminado esse problema. Mesmo com as restaurações de zircônia tipo Procera, a maioria dos nossos casos foi tratada com insertos metálicos (links) de Zirkonzahn e estruturas fresadas de zircônia cimentadas sobre os mesmos. Temos tido pouco problema, se é que existe, com este tipo de conexão. No entanto, pode ser que a sensibilidade técnica entre os laboratórios nem sempre garanta os mesmos resultados clínicos em todas as configurações. Da mesma forma, assim como na mecânica dos parafusos, quanto mais forte for o material odontológico, mais importante será realizar corretamente os fundamentos. Se a oclusão está errada e o material dentário da prótese for fraco, ela provavelmente vai se desgastar ou fraturar. Se a prótese é tão forte que não pode se desgastar ou fraturar, se for sobrecarregada, as forças deletérias vão para algum lugar no sistema. Provavelmente, no futuro haverá alguns casos em que essas forças de sobrecarga poderão causar danos aos implantes ou ao osso, mas espero que estes casos sejam poucos e raros. No entanto, fala-se mais uma vez sobre a importância dos fundamentos no ajuste da infraestrutura, dimensão vertical e oclusão.
 

PrNews – Os testes de laboratório e a prática clínica: com base na sua experiência, quais são as lições ainda a serem aprendidas?
EM –
Atualmente, o maior obstáculo seguinte às próteses sobre implantes é melhorar a nossa capacidade de digitalizar na boca uma arcada total com precisão, de forma rápida e razoavelmente barata. Quando melhorarmos em todos estes pontos, os casos extensos se tornarão mais rotineiros na clínica geral. Além disso, o advento da impressão 3D no consultório permitirá um acesso mais fácil e rápido a guias cirúrgicos mais baratos gerados por computador, e isto deverá proporcionar resultados mais rápidos e seguros para os pacientes. Se uma melhoria contínua for realizada no equipamento de usinagem para consultório, poderíamos, eventualmente, fazer mais restaurações definitivas (em vez de uma provisória ou de transição), como as restaurações imediatas para arcadas totais. Entretanto, deve-se entender que o que funciona para uma prótese total não se aplica automaticamente para restaurações unitárias. Portanto, acho que a nossa capacidade de fazer coroas definitivas sobre implantes no mesmo dia ainda está limitada porque a biologia humana básica e o princípio original de Brånemark para a ausência de micromovimentos durante o período de cicatrização serão um desafio muito maior a ser superado.