Publicado em: 29/03/2017 às 09h25

Henrique Cerveira Netto, um desbravador

A trajetória profissional de Henrique Cerveira Netto se mistura à história recente da Odontologia no Brasil. Ele tornou-se referência nacional quando o assunto é Prótese Total.

Ilustração: Lézio Júnior.

 

Reportagem: Renata Putinatti

 


Encontrar uma definição para a relação entre o protesista Henrique Cerveira Netto e a Odontologia não é tarefa fácil. Foi amor à primeira vista há quase 60 anos – e ainda é um grande motivo para fazer seus olhos azuis brilharem de emoção. Falar sobre sua carreira e dedicação à Prótese Dentária o faz sorrir o tempo todo e, entre uma história outra, é possível ouvir diversas vezes “eu me divirto muito” e “adoro o que faço”.

Tanta motivação e respeito pela profissão – e pelos pacientes – renderam estudos e pesquisas para aprimorar e criar técnicas e procedimentos que envolvem Prótese Total – área que domina plenamente e que o colocou entre os maiores nomes do Brasil.

Cerveira Netto esteve à frente da criação de três faculdades de Odontologia: São José dos Campos (ICT/Unesp), Universidade de Mogi das Cruzes e Universidade Metropolitana de Santos. Formou centenas de alunos na graduação e na pós-graduação, pelos quais guarda um apreço imenso e faz questão de dividir todo o seu conhecimento. Aos 79 anos, tem uma vitalidade invejável a aposentaria total ainda é um projeto longínquo.
 

O começo de tudo

O encontro com a Odontologia aconteceu por acaso, enquanto acompanhava um amigo em uma visita à Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (Fousp). Até então, sob pressão da família, Cerveira Netto pretendia fazer Medicina, embora soubesse que essa não era sua vocação. “Durante a visita, fiquei encantado. E pensava: ‘puxa, que coisa linda. É isso que eu estava procurando na vida’. O que me encantou na Odontologia foi poder tratar das pessoas, deixá-las mais bonitas e felizes. Naquele momento, as próteses já me conquistaram”, recorda-se.

Ao chegar em casa, empolgado com a decisão de tornar-se dentista, encontrou o apoio da mãe e o descontentamento do pai, que queria ter um filho médico – assim como fora o avô de Cerveira Netto, um dos responsáveis pelo lançamento da pedra fundamental do Hospital Beneficência Portuguesa, na capital paulista. “Meu pai não se conformava com a minha decisão de trocar a Medicina – onde eu tinha os caminhos abertos pelo meu avô – pela Odontologia, uma área onde não conhecia ninguém”, resume.

Para mostrar sua responsabilidade com a decisão tomada, Cerveira Netto passou meses debruçado sobre os livros estudando para o vestibular. Resultado: em 1959, aos 21 anos, passou na Fousp. Começava ali uma história de dedicação total à Prótese Dentária. “A faculdade foi o tempo mais feliz da minha vida. Foram quatro anos muito alegres, que aproveitei da melhor forma possível tudo o que tinha disponível: fiz teatro, participei do centro acadêmico, assisti a muitos cursos e palestras”, diz.

Logo no início da graduação, teve certeza de que seguiria carreira em Prótese Dentária. Tinha habilidade manual e aptidão necessárias para o preparo das próteses e mostrava muita facilidade em compreender a parte técnica e mecânica da especialidade. Isso chamou a atenção do professor Camilo de Moraes, que o convidou para fazer parte do núcleo de Prótese Total de uma nova faculdade de Odontologia que estava sendo criada em São José dos Campos (SP) – que se tornou hoje a Faculdade de Odontologia do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unesp).

Assim que se graduou, em 1962, tornou-se assistente do professor Camilo de Moraes na cadeira de Prótese Total da nova instituição de ensino, participando da formação da primeira turma de dentistas dessa faculdade de Odontologia. Pouco tempo depois, por razões políticas decorrentes da Revolução de 1964, houve uma troca de diretorias, o professor Radamés Gonçalves de Freitas assumiu o curso de Odontologia e Cerveira Netto ficou à frente das aulas de Prótese Total. “Eu tenho grande apreço por esse homem e por tudo o que ele me ensinou. Comecei a substituí-lo em aulas e cursos e, de tanto estudar para cumprir essa ‘missão’, acabei me interessando muito pelos articuladores, adquirindo grande experiência no assunto. Ele também me deu muitas aulas sobre as forças que agem sobre os dentes (o que hoje é chamado de oclusão), e como eu gostava bastante de Física, tinha facilidade de aprender – tanto que minha tese de doutorado foi sobre vetores [concluída em 1973]”, acrescenta.
 

Estudo contínuo

Paralelamente à atividade acadêmica, Cerveira Netto mantinha um consultório em São Paulo, e a falta de especialistas em Prótese Total foi importante para projetar seu nome e sua carreira. “Essa área sempre foi o ‘patinho feio’ da Odontologia, e como eu tinha um bom embasamento prático e teórico, comecei a receber muitos casos; com isso, ampliei meus horizontes.

Descobri que esse é um dos tipos de próteses mais difíceis de serem feitos, pois depende de muitos fatores que o profissional não tem controle. É uma prótese de minúcias, pois, se fiCar 0,5 mm maior que a boca do paciente, já é suficiente para não aderir. É essencial ter precisão para obter sucesso”, relata.

Logicamente, ao receber mais e mais casos, alguns eram bastante complicados e geravam a necessidade de aprimorar o conhecimento. Como consequência, ele estudou incansavelmente as principais técnicas para confeccionar prótese, sobretudo as de resina acrílica, e seguia à risca tudo o que havia na literatura. Também exigia dos alunos a mesma atenção aos detalhes e a mesma precisão. Tamanha dedicação o tornou conhecido como um dos profissionais que mais entendem de Prótese Total no Brasil. Modesto, ele diz que não tem segredo nenhum: “eu simplesmente sigo rigorosamente todas as normas”.

Apesar de ganhar destaque pela pesquisa e pelos resultados obtidos, Cerveira Netto nunca fez questão de publicar seus achados, sempre preferiu acreditar que aquilo tudo deveria ser de domínio público, por isso disseminava seu conhecimento em cursos e aulas pelo Brasil afora. Exemplos de seus feitos foram o aprimoramento das técnicas de desgaste seletivo e desgaste de Paterson, no qual, utilizando vaselina e realizando movimentos mais amplos do que o original, ele chegou a resultados melhores. Também apresentou e desenvolveu os fonemas que são usados atualmente, trabalho elaborado em conjunto com uma ex-aluna da Faculdade de Odontologia da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).
 

Abrindo caminhos

A ascensão profissional de Cerveira Netto rendeu convites para que participasse da composição de novas faculdades de Odontologia, como aconteceu na Universidade de Mogi das Cruzes e na Universidade Metropolitana de Santos (Unimes). “Curiosamente, fundei e formei as primeiras turmas de São José dos Campos, Mogi das Cruzes e Santos”, diz.

Na Unesp, ele passou a maior parte de sua carreira – entrou em 1963 e aposentou-se em 1999 como professor doutor da graduação e da pós-graduação. Em meados da década de 1970, ingressou na Unimes, onde atua até hoje como professor na graduação e pós-graduação. Em Mogi das Cruzes, devido à dificuldade de conciliar as distâncias, a passagem foi mais rápida, ficou de 1972 a 1984. Nessa jornada acadêmica, ainda esteve presente em uma breve reformulação da disciplina de Prótese Total da Universidade Paulista (Unip) – instituição que leciona até hoje na pós-graduação –, disciplina de Prótese Total – e ainda faz parte do grupo docente da Escola de Aperfeiçoamento Profissional (EAP), da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (APCD).

Hoje, há centenas de protesistas que passaram pela sala de aula de Cerveira Netto. Todos tiveram o privilégio de participar de aulas ricamente ilustradas, didáticas e dinâmicas. No auge de seus 79 anos, ele tem total domínio de recursos e programas de computador, que usa para montar suas apresentações e facilitar a assimilação dos conteúdos pelos discentes. Costuma usar exemplos do dia a dia para ilustrar técnicas e procedimentos.

Como exemplo, preparou um conteúdo valendo-se de diferentes tipos de sapatos para mostrar o desempenho da placa miorrelaxante. Sua criatividade nata vai mais além: utiliza a aptidão para o desenho para criar ilustrações que demonstram movimentos da boca, por exemplo.

Para ele, assim como a Prótese Dentária passou por grandes mudanças ao longo dos anos, os alunos também têm outro perfil. É preciso se ajustar às novidades, sem perder a qualidade do ensino. “Sempre exigi e ainda exijo que os alunos do curso de especialização façam a prótese inteira, inclusive a parte laboratorial. Assim, eles terão base para argumentar com o laboratório depois que estiverem trabalhando em seus consultórios. A Odontologia exige prática e habilidade”, avalia.

Quanto ao futuro, ele tem uma resposta na ponta da língua: “Só sei que eu ainda não quero parar. Adoro o que faço, me divirto muito e adoro estar em contato com os jovens”, destaca. Talvez esse seja o seu maior legado para a Odontologia: encontrar alegria e motivação na profissão, mesmo depois de quase 60 anos de carreira.
 

Galeria