Publicado em: 05/06/2017 às 11h07

CAD/CAM: resultados superiores em menor tempo de treinamento

O TPD David Morita explica como a alta tecnologia beneficia os resultados laboratoriais.

A Odontologia busca de forma incansável a melhora dos resultados de adaptação aliada à produtividade laboratorial, a fim de reduzir as distorções causadas pelas limitações dos materiais dentários. Como consequência, a digitalização dos processos está ganhando mais espaço nos laboratórios dentários de todo o mundo.
 
Não há como contestar a eficiência desta ferramenta. É muito fácil perceber a diferença entre uma peça confeccionada de forma manual e uma peça confeccionada de modo digital. A redução das fases laboratoriais também é um importante fator a ser discutido e para ampliar a adoção desse conceito.
 
Enfim, não há tempo para “dar as costas” para esta nova visão de mercado. Justificando esta afirmação, a seguir será descrito um caso de prótese fixa de múltiplos elementos confeccionados em zircônia, utilizando o sistema Ceramill (Amann Girrbach). Ele foi realizado por David Morita em parceria com o TPD Daniel Morita, que se encarregou de projetar a estrutura que deu suporte à complementação do material estético.
 
O primeiro passo foi fazer um modelo adequado, com as margens dos preparos visíveis para favorecer o escaneamento (Figuras 1).
 
As fases da elaboração da estrutura serão descritas de forma resumida, pois será enfatizado o processo de aplicação de cerâmica, por ser uma etapa importante para compartilhar informações preciosas para a longevidade do trabalho protético. Quando os modelos são confeccionados de maneira correta e precisa, o próprio sistema se encarrega de definir com exatidão as bordas do preparo. A capacidade dos sistemas é incontestável, quando comparada ao que um técnico com pouca experiência seria capaz de definir. Existe uma inteligência artificial neste novo modo de operação dos laboratórios, mesmo assim os técnicos nunca serão substituídos, o que acontece é apenas a troca do modo de confecção para aliar precisão e produtividade (Figura 2).
 
Figuras 1 – Nitidez das bordas, proveniente de um modelo preparado adequadamente.
 
Figura 2 – Modelos digitais oferecem mais precisão e maior produtividade.

 

O uso desta inteligência facilita bastante a produção das peças, pois é capaz de substituir delineadores ou até mesmo a experiência técnica para verificar o eixo de inserção e o paralelismo entre os preparos. Os sistemas acusam de forma fácil e rápida onde e como podemos resolver esta questão, indicando se é possível seguir adiante ou não. A partir daí, é possível salvar a imagem e discutir com o clínico a melhor maneira de resolver a questão. Como as retenções que dificultariam o encaixe são mínimas, há preferência por usar ferramentas do sistema para sanar o problema e aliviar digitalmente as retenções evidenciadas pela ferramenta. Quando as intercorrências são maiores, o sistema recusará o processo e um novo molde ou escaneamento intraoral deverá ser feito após ajustes nos preparos dentários (Figura 3).
 
Figura 3 – Ajustes para o preparo dentário.

 

Ao desenvolver uma estrutura complexa de múltiplos elementos, é importante ter boa experiência para realizá-la manualmente, já que a construção exige a adição de material de escultura, seja resina para padrões ou cera, e isso demanda muito tempo. Nos sistemas CAD/CAM, o processo é diferente: um extenso “banco de dados” acompanha todos os sistemas, sendo alguns mais completos e outros mais enxutos, dependendo da marca e das licenças adquiridas pelo usuário. Mesmo assim, esse banco de dados é um grande facilitador para ganhar tempo na confecção das peças no laboratório. Outro fator importante é a possibilidade de gerar cópias dos planejamentos encerados previamente a esta fase. Vale lembrar que, dentro do processo, existe a possibilidade de salvar todas as fases de elaboração – podendo retornar a alguma etapa anterior, caso necessário –, o que garante que o laboratório tenha os backups dos trabalhos (Figura 4).
 
Depois de concluídas as etapas de desenvolvimento, basta inserir o projeto para a próxima fase e realizar a usinagem da peça utilizando o CAM. Aqui, o TPD poderá se preocupar com outras tarefas, uma vez que a máquina fará sozinha a fresagem. Assim que termina a fresagem, a peça deverá ser levada para a sinterização (Figura 5).
 
A redução do tamanho da peça é visível a olho nu pelo técnico, e isso é normal ocorrer com a zircônia. Para peças extensas e com múltiplos elementos, é viável deixar uma parte do bloco ligando os pilares para estabilizar a contração e diminuir os riscos de distorções causadas pela contração do material. A peça deve ser colocada de forma cuidadosa no recipiente que será levado ao forno de sinterização (Figura 6). Quando concluída a sinterização, é fácil perceber o quanto a peça contraiu (Figuras 7).
 
Figura 4 – Backups dos trabalhos desenvolvidos pelo sistema CAD/CAM.
 
Figura 5 – Peça fresada e pronta para a sinterização.
 
Figura 6 – Peça pronta para ser levada ao forno de sinterização.
 
Figuras 7 – O paquímetro mede a peça antes e depois da sinterização, comparando as medidas e demonstrando a contração.

 

A grande surpresa ao término desta fase é a precisa adaptação da peça, sem que nenhum ajuste interno precise ser feito. Esta garantia de adaptação fascina pela eficiência dos sistemas CAD/CAM. Os procedimentos laboratoriais sempre estão fadados a promover pequenas distorções por conta das variantes encontradas nos manuseios dos materiais dentários. Somente técnicos com muita experiência realizam trabalhos de forma tão precisa que podem contestar esse fato, mas, para atingir tão alto grau de perfeição, é necessário ter muita experiência e, claro, cometer alguns erros para chegar a esse nível. Então, a digitalização reduz drasticamente esse tempo de experiência. Ou seja, o TPD que já começa a confeccionar trabalhos de forma digital alcançará mais rapidamente a etapa da perfeição (Figuras 8).
 
A próxima etapa é iniciar a aplicação do material estético, que envolve a necessidade de um modelo rígido para evitar ajustes de contornos cervicais e nas regiões dos elementos suspensos. O material eleito para o recobrimento foi o e.max Ceram (Ivoclar Vivadent), que tem aplicabilidade para ser usado na confecção de restaurações na técnica de refratários, recobrimento de dissilicato de lítio, zircônia e estruturas em ouro eletrodepositado. Neste caso, ele foi utilizado para complemento estético de zircônia. Então, primeiramente, utilizou-se um agente de união para melhorar a estabilidade da cerâmica sobre a peça, que é denominado liner e está disponível em várias cores (Figura 9).
 
Figuras 8 – Peça totalmente realizada de forma digital, conferindo, assim, uma ótima qualidade.
 
Figura 9 – Aplicação do liner utilizando uma cor referente à cor final, neste caso entre A1 e A2.

 

Aplica-se sobre toda a superfície uma fina e homogênea camada de liner e leva-se ao forno para cocção, seguindo os parâmetros de queima indicados pelo fabricante. O liner, além de melhorar a aderência da cerâmica, ajuda no mascaramento da estrutura (Figuras 10).
 
Seguindo o protocolo do fabricante, após a cocção deste material, deve ser feito um “polvilhamento” de dentina opaca para fortalecer a união da cerâmica e, assim, seguir para a próxima fase da aplicação do material estético. Isso se faz aplicando na superfície da peça uma fina camada de líquido de glaze.
 
Em seguida, é preciso polvilhar a cerâmica com um pincel seco e deixar que a umidade presente na superfície se encarregue de aderir às partículas de cerâmica em toda a peça (Figura 11). Posteriormente, inicia-se a aplicação de cerâmica de forma habitual, levando em conta a forma desejada e as cores previamente selecionadas. Neste caso, inicialmente foram aplicadas massas cervicais e dentina opaca e coccionada, com o propósito de mascarar toda a estrutura. Desta maneira, evita-se que, após o longo tempo de aplicação de diversas massas e caracterizações, a estrutura ainda fique visível e prejudique todo o trabalho técnico.
 
Figuras 10 – Os materiais de cobertura estão cada vez mais translúcidos e podem demonstrar a “sombra” da estrutura ao final da aplicação.
 
Figura 11 – Após o polvilhamento, é preciso aguardar a adesão das partículas de cerâmica em toda a peça.

 

A separação destas etapas pode parecer perda de tempo, no entanto, seguindo esses passos, percebe-se maior previsibilidade e ainda existe a chance de correções antes de aplicar todas as massas desejadas. Se após esta fase a estrutura estiver totalmente mascarada, o TPD seguirá adiante sem preocupação (Figuras 12). Se tudo estiver dentro do previsto e a estrutura estiver totalmente mascarada pelas finas camadas de cerâmica aplicadas, pode-se dar continuidade utilizando recursos altamente sofisticados do sistema para aproximar o trabalho ao natural (Figura 13).
 
Treinamento é fundamental para o engajamento das tarefas e domínio dos princípios teóricos que regem as tarefas no laboratório, isso sem contar a importância do trabalho em equipe: sem uma equipe empenhada em desenvolver o melhor para o paciente, fica difícil alcançar bons resultados.
 
A melhora dos trabalhos é proveniente da alta exigência dos parceiros, como Adriano Sapata e Claudio Sato, que tiveram atuação neste caso (Figuras 14).
 
Figuras 12 – Mascaramento realizado em etapas para oferecer maior previsibilidade e facilidade de correções.
 
Figura 13 – Uso da tecnologia para tornar o trabalho o mais natural possível.
 
Figuras 14 – Conclusão do caso, mostrando a melhora nos procedimentos e o bom resultado obtido.

 

 

David Morita


Técnico em Prótese Dentária; Coautor dos livros de atualização em Prótese 2007 e 2009 do Congresso Internacional de Prótese Dentária, da APDESPbr.


Coordenação:
Guilherme Saavedra

Coautores: 
Adriano Sapata, Claudio Sato e Daniel Morita