Publicado em: 16/06/2017 às 10h29

Como a síndrome do algodão no sino atrapalha os dentistas

Marco Bianchini conta que a experiência e a falta de atenção podem levar o profissional a cometer erros básicos.

Quando você tem muitos anos de experiência clínica, ainda mais em uma mesma especialidade, um fenômeno muito interessante acaba acontecendo: é a síndrome do algodão no sino. Para entender melhor isso, temos que voltar no tempo e lembrar das igrejas mais antigas, que geralmente tinham um grande sino, que badalava avisando a hora da missa. Isto ainda acontece em muitas igrejas pelo mundo afora. Quem já visitou a famosa Catedral de Paris (Notre Dame) e teve a oportunidade de subir os incontáveis degraus para contemplar o seu enorme sino sabe bem o que eu estou falando.

Ora, o sino por si só não faz nenhum ruído. É preciso que alguém movimente o badalo, para que o mesmo encontre as paredes do sino e produza o ruído característico que pode ser ouvido a muitos quilômetros de distância. Agora imaginemos nós que esse sino fosse revestido internamente por uma espessa camada de algodão. Por mais que movimentássemos o badalo, não seria produzido som algum, pois o metal do sino estaria isolado pelo algodão. Com isso, o barulho ensurdecedor das badaladas de um sino tradicional de igreja desapareceria e ninguém escutaria nada.

Na Implantodontia, ou em qualquer outra especialidade odontológica, algo parecido com o “algodão no sino” pode acontecer. Este algodão no sino odontológico é quando não admitimos que cometemos erros básicos que levam à perda de implantes, principalmente por não respeitarmos os princípios básicos do planejamento. É quando não realizamos montagens em articulador, enceramento diagnóstico e guia cirúrgico. É quando não respeitamos a distância mínima entre implantes ou entre dentes naturais e implantes. É quando forçamos a barra em um osso fino ou curto. É quando insistimos em implantes imediatos. Enfim, é quando achamos que temos habilidade e competência suficientes para encarar qualquer desafio e resolver casos difíceis, segundo a nossa visão.

Os últimos meses de consultório têm sido bastante cruéis comigo. Tenho observado que os meus insucessos aumentaram, justamente porque a síndrome do algodão no sino me pegou. A cegueira escondida atrás do orgulho me impediu de constatar que a maioria das falhas que estavam ocorrendo comigo era fruto de erros básicos, aqueles mesmos que eu tanto falo e escrevi no meu primeiro livro: “O Passo-a-Passo Cirúrgico da Implantodontia”. O domínio da técnica que possuo e a vasta experiência clínica que tenho acabaram por me iludir a pular etapas, consideradas imprescindíveis para os iniciantes, mas desnecessárias para um expert.

Felizmente, meus alunos me ensinam diariamente e, o que eu falo para eles, passei a falar para mim mesmo, várias vezes antes de iniciar e planejar um caso. Abri meu próprio livro novamente e reli os capítulos básicos, retirando todo o algodão que tentava se impregnar no meu sino. Assim, voltei a fazer check-list de procedimentos e rechecagem de planejamentos. Confesso que isto vem sendo um exercício fantástico, pois o que você planeja em um dia pode ser modificado em outro, quando o seu olhar está mais descansado. Tenho procurado me apegar no básico, evitando tergiversar nas novidades que embaçam as nossas mentes, na expectativa de oferecermos aos nossos clientes algo de muito novo e diferente do trivial, que ainda funciona.

Atualmente, a Implantodontia é uma especialidade que apresenta poucas falhas, desde que sejam respeitados todos os princípios básicos de sua execução. É raro perdermos um implante quando realizamos tudo certo, “como manda o figurino”. O problema reside em pularmos etapas e apressarmos as coisas. Sempre que optarmos por este falso caminho do imediatismo, estaremos sujeitos a resultados desastrosos. O problema é que, na medida em que vamos evoluindo profissionalmente, adquirindo mais segurança e experiência, vamos perdendo o medo de errar e aumentando a nossa soberba. Isso nos leva a pensar que podemos resolver qualquer caso, sem obedecer aos princípios básicos de um bom planejamento.

Quando nós, profissionais, optamos por este perigoso caminho de pular etapas e desprezar o básico, fatalmente os nossos insucessos começam a aumentar estatisticamente. Se percebermos que estas falhas estão acontecendo por erros nossos – e que devem ser corrigidos –, voltaremos para o caminho certo. Contudo, se acharmos que estamos certos e que as falhas ocorreram por culpa de terceiros (pacientes, empresas fabricantes de implantes, bactérias extremamente virulentas etc.), estaremos colocando algodão no sino e não dando ouvidos ao intenso badalar da falta de planejamento e diagnóstico que estamos realizando.

 

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que toca.“ (1 Coríntios 13, 1)

             

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br