Publicado em: 17/08/2017 às 10h51

Monossilicato de lítio: a nova vitrocerâmica

Na coluna Trocando em miúdos, Renata Marques de Melo detalha o uso do material, que oferece resistência e tenacidade às fraturas intermediárias.

O dissilicato de lítio tornou-se o material de escolha de muitos dentistas devido à resistência e tenacidade às fraturas intermediárias, além das propriedades óticas adequadas para refazer a estrutura dental perdida. Por muitos anos, ele foi o único que apresentava essas características, pois estava sob propriedade exclusiva da empresa Ivoclar (Schaan, Liechtenstein). Após o término da patente, novas vitrocerâmicas com propostas semelhantes a do dissilicato foram lançadas no mercado, como é o caso do monossilicato de lítio (ou ZLS, do inglês zirconia reinforced lithium silicate), desenvolvido conjuntamente pelas empresas DegunDent (Dentsply, Konstanz, Alemanha) e Vita (Bad Säckingen, Alemanha).

No início, o monossilicato foi comparado ao antecessor como sendo uma combinação de cristais de metassilicato e dissilicato de lítio, enquanto o outro teria apenas cristais de dissilicato1. Adiante, a caracterização da microestrutura dos dois materiais mostrou que os cristais de monossilicato são mais arredondados do que os de dissilicato, que têm formato de agulha2. Não só a microestrutura é diferente, mas a composição dos monossilicatos apresenta zircônia como pretenso material de reforço, embora esse efeito não tenha sido comprovado no estudo anterior, pois os materiais apresentaram a mesma suscetibilidade à fratura.

A apresentação comercial do monossilicato é exclusivamente em forma de blocos para usinagem em CAD/CAM. Os blocos são encontrados na forma parcialmente cristalizada (Suprinity FC/Vita e Celtra Duo/Dentsply), sendo que o material Celtra Duo (Figuras 1) pode ser usado neste estágio de cristalização parcial. Essa é outra diferença dos blocos azuis de dissilicato (e.max CAD, Ivoclar) e do próprio Suprinity FC (cujo bloco tem aspecto âmbar), que se apresentam somente na forma pré-cristalizada e não podem ser cimentados antes de submetidos a altas temperaturas. A partir daí, são observadas duas filosofias: uma em que a restauração pode ser usinada e cimentada com a máxima rapidez, e outra em que a restauração não é cimentada imediatamente, mas adquire maior resistência após o ciclo de cristalização3. O fabricante reitera que o comportamento mecânico do Celtra Duo pré-cristalizado é inferior ao material cristalizado em temperaturas mais altas, mas até a data em que este artigo foi escrito isso não fora demonstrado na literatura.

Apesar de estar há mais tempo no mercado, ainda são poucos os estudos clínicos sobre o dissilicato de lítio usinado4-5. As evidências após dois anos de avaliação são de excelente desempenho das restaurações de e.max. Dessa forma, assim como o dissilicato de lítio, o monossilicato ainda precisa ser mais bem avaliado e tem um longo caminho para percorrer.

Figuras 1 – A. Micrografi as do material Celtra Duo pré-cristalizado mostrando os cristais. B. Em maior aumento, observe a presença de outro material (setas), provavelmente a zircônia. C. Percebe-se que os cristais de dissilicato são maiores e mais finos. (Imagens cedidas por Nathália Ramos)

 

Figuras 2 – A. Infraestrutura de Suprinity FC pré-cristalizado mostrando a aparência âmbar. B. Depois da cristalização final. (Imagens cedidas por Hilton Riquieri)


 

Referências

1. Denry I, Kelly JR. Emerging ceramic-based materials for dentistry. Journal of Dental Research 2014;93(12):1235-42.

2. Ramos NC, Campos TM, Paz IS, Machado JP, Bottino MA, Cesar PF ET al. Microstructure characterization and SCG of newly engineered dental ceramics. Dental Materials 2016;32(7):870-8.

3. Disponível em http://zdigitaldentistry.com/en/cadcam-materials-part-3-zls-basics/.

4. Fasbinder DJ, Dennison JB, Heys D, Neiva G. A clinical evaluation of chairside lithium disilicate CAD/CAM crowns. The Journal of the American Dental Association 2010;141:10S-4S.

5. Reich S, Schierz O. Chair-side generated posterior lithium disilicate crowns after 4 years. Clinical Oral Investigations 2013;17(7):1765-72.

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.