Publicado em: 17/08/2017 às 10h57

A biografia de Rolf Rode, um transformador

O alemão naturalizado brasileiro considera que o grande mérito de seu trabalho era transformar os pacientes com mutilações na face em rostos anônimos na população.

(Ilustração: Lézio Júnior)

 

 
Por João de Andrade Neto
Colaboração: Sigmar de Mello Rode
 
Desde jovem, o alemão naturalizado brasileiro Rolf Rode se interessou pela prótese laboratorial. Estudou Odontologia, tornou-se cirurgião-dentista e foi o criador do primeiro curso de pós-graduação em nível de mestrado acadêmico de Prótese Bucomaxilofacial do Brasil. Para Rode, o grande mérito de seu trabalho era transformar os pacientes com mutilações na face em rostos anônimos na população.
 
A ideia de transformar a vida das pessoas sempre fascinou Rolf Rode. Para realizar essa missão, o alemão naturalizado brasileiro encontrou como caminho a Odontologia – mais especificamente a área de Prótese Bucomaxilofacial, que foi a ferramenta ideal para ajudar os seus pacientes a terem uma vida normal.
 
Rolf Rode nasceu na Alemanha em 1928 e chegou ao Brasil com apenas um ano de idade. Morou em Curitiba (PR) antes de se mudar para São Paulo (SP), onde construiu sua vida pessoal e profissional. Sempre educado e polido, ele usou sua competência e dedicação para demonstrar o amor que sentia pela Odontologia. Conseguiu a naturalização brasileira em julho de 1954 para, então, poder cursar a faculdade que tanto desejava. Desde jovem se interessou pela prótese laboratorial, onde começou a carreira e militou até o início da década de 1960.
 
Em 1961, formou-se em Odontologia pela Universidade de São Paulo (Fousp) e passou a exercer a profissão de cirurgião-dentista, embora nunca tivesse abandonado a Prótese. A experiência com a prótese laboratorial e o interesse por estética facial, aliados ao seu dom natural, fizeram com que Rode se aproximasse da área de Prótese Bucomaxilofacial, onde desenvolveu grande habilidade na escultura facial em cera e em argila.
 
Seguindo esse caminho, o alemão desenvolveu e defendeu a primeira tese de doutorado sobre Prótese Ocular do Brasil, em 1968, na Faculdade de Odontologia de São José dos Campos (Unesp). Com o tema “Prótese ocular individualizada em resina acrílica com esfera oca”, ele obteve a segunda aprovação com distinção e louvor dessa faculdade. A técnica permitia que a prótese ficasse mais leve e, consequentemente, oferecia melhor mobilidade, semelhante a do olho saudável e simulando o uso. Embora a prótese ocular fosse sua principal linha de trabalho e pesquisa, ele também desenvolveu próteses faciais e complementares da cirurgia.
 
Por conta da especialidade, Rode teve grande contato com a cirurgia plástica, área em que atuou nos Hospitais Santa Cruz e Defeitos da Face, em São Paulo. Escreveu sobre a especialidade em capítulos de seis livros da área médica e outros três livros da área odontológica. Ao todo, publicou mais de 70 artigos, todos versando sobre a especialidade, sendo que alguns se tornaram clássicos e referências internacionais. Mesmo assim, a preferência de Rolf Rode sempre foi pela bancada do laboratório e pela cadeira de atendimento clínico, onde tinha o verdadeiro prazer de atuar.
 
Festividade que comemorou sua formação no Centro de Estudos de Parapsicologia e Psicologia Cristã, em 1979. Em sua homenagem mais recente, em 2015, na qual José Marcos Mélega – chefe do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital Santa Cruz – fez a condecoração.

 

Ensinamento passado adiante
 
O sucesso na profissão o encaminhou para a vida docente. O alemão foi professor da Faculdade de Odontologia de Mogi das Cruzes, da Faculdade Franciscana de Odontologia de Bragança Paulista, da Faculdade de Odontologia da Fousp e da Faculdade de Odontologia de São José dos Campos, pela qual se aposentou, tendo recebido o título de professor emérito.
 
Na Faculdade de Odontologia de São José dos Campos, casa que adotou como sua, ele foi responsável pelo Centro de Prótese Bucomaxilofacial, que atendia pacientes de toda a região do Vale do Paraíba, localizado no estado de São Paulo, além da capital paulista e do Rio de Janeiro. Assim, tornou-se uma referência na especialidade.
 
Ele também criou o primeiro curso de pós-graduação em nível de mestrado acadêmico de Prótese Bucomaxilofacial do Brasil e o primeiro curso de mestrado acadêmico da Faculdade de Odontologia de São José dos Campos, que coordenou por dez anos e recebeu avaliação com conceito “A” pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Depois, ainda trabalhou no Serviço de Prótese Ocular na Faculdade de Odontologia da Universidade de Santo Amaro (Unisa), onde encerrou suas atividades acadêmicas no ano 2000.
 
 
O reconhecimento pelo trabalho
 
Sempre primando pela técnica prática de confecção, aliada à pesquisa científica, Rode foi premiado ao longo de sua carreira. Recebeu a primeira medalha Luiz Cesar Pannain, do Sindicato dos Odontologistas do Estado de São Paulo (Soesp), ofertada à área de Prótese Bucomaxilofacial – um grande reconhecimento pelo seu trabalho na área.
 
Rode orientou estagiários, mestres e doutores do Brasil e da América Latina até depois de sua aposentadoria. Em sua homenagem, o Departamento de Materiais Odontológicos e Prótese deu seu nome à Clínica de Pós-graduação. O alemão ainda recebeu inúmeras homenagens durante sua vida profissional e pessoal, sendo a última no ano de 2015, do Centro de Cirurgia Plástica do Hospital Santa Cruz, pelos relevantes serviços prestados à especialidade.
 
Mas, o professor sempre deixou claro que o grande mérito de sua atuação profissional era transformar a vida de seus pacientes. Ele tratou de inúmeros casos de mutilações na face e trabalhou para transformá-los em rostos anônimos na população. O grande prêmio que ele recebia era o carinho de seus pacientes, seja na forma de um sorriso de felicidade ou de um choro de alegria. Em outras tantas vezes, o alemão foi presenteado com bolos de fubá ou doces feitos por seus pacientes, que não tinham condições de pagar pelo tratamento.
 
Durante toda a sua carreira, Rode sempre prezou pelo respeito ao ser humano que está ao seu lado, independentemente de ser paciente, acompanhante, funcionário, aluno ou colega de profissão. Além do conhecimento técnico, essa foi a marca de sua vida profissional.
 
Rode ao lado da sua bisneta Julia. Durante quase 50 anos, Rode se dedicou a casos bastante complexos de reabilitação, devolvendo a normalidade à vida de seus pacientes.

 

 
Odontologia em família
 
Além de trilhar um caminho de sucesso, Rode ainda deixou mais frutos para a Odontologia. Ele foi casado com Hildegarda Augusta Rode, com quem teve dois filhos, Sigmar de Mello Rode, que é professor titular da Unesp, e Ingrid de Mello Rode, ambos cirurgiões-dentistas. Ele também tem uma neta na área, Kátia Martins Rode, que é doutora pela Fousp e também cirurgiã-dentista. Os demais netos, Myrna, Marcelo e Marcos, seguiram a carreira de Direito, enquanto Christian cursou Engenharia de Materiais. 
 
Hoje, com 89 anos de idade e uma vida inteira dedicada à Odontologia, Rolf Rode curte os frutos de sua bem-sucedida carreira. Uma nova geração de cirurgiões-dentistas já coloca a mão na massa e está preparada para seguir os seus ensinamentos.