Publicado em: 17/08/2017 às 10h58

Os limites da tecnologia: a Era Digital continuará sendo “humana”?

André Callegari e Juliana Dornelles levantam essa questão e debatem a evolução tecnológica.

Coordenação: Guilherme Saavedra
 
O mundo moderno provoca mudanças aceleradas, e nós, que fazemos parte do universo da Odontologia, precisamos nos esforçar para acompanhar essa movimentação. É nossa missão nos mantermos atualizados e proporcionar ao cliente o que a Ciência pode oferecer de melhor. No entanto, a velocidade não pode ser tão alta a ponto de impedir nossa capacidade de processar informações, tomar decisões embasadas na melhor evidência científica disponível e oferecer materiais ou técnicas suficientemente testadas.
 
Ole Fejerskov, em 2011, afirmou que profissionais formados sem consciência biológica e sem conhecimento baseado em evidências científicas, e que acreditam apenas na tecnologia de ponta – sem base biológica para controlar os fatores etiogênicos das doenças orais – acabam se tornando “tecnodependentes” e seus pacientes continuam doentes, apesar de serem submetidos a sofisticados tratamentos. Ou seja, transformam-se em “tecnovítimas”. Será que este é o futuro da Odontologia: formar profissionais de saúde especializados unicamente em tecnologia digital e técnicos de prótese dentária especializados em robótica?
 
Há quem diga que sim, pois, com a avalanche de sistemas CAD/CAM, softwares, fresadoras e impressoras 3D apresentados pelo mercado, não haveria como visualizar um futuro diferente. Porém, existe a necessidade de esclarecer alguns pontos importantes. A evolução tecnológica nos mais diversos campos da Ciência vem sendo incorporada à Odontologia, permitindo o desenvolvimento de novas técnicas, conceitos e métodos de trabalho, principalmente na área da Prótese Dentária, na qual ainda existem inúmeras variáveis que podem comprometer o resultado final do trabalho.
 
A tecnologia CAD/CAM já é utilizada em várias indústrias e teve a sua introdução na Odontologia no final da dé cada de 1970 e início da dé cada de 1980, com o objetivo principal de automatizar o processo manual para obter material de elevada qualidade, padronizar processos de fabricação e reduzir os custos de produção. Com isso, ela vem ganhando protagonismo e trazendo uma verdadeira revolução na fabricação de restaurações indiretas, quando comparada às técnicas convencionais de laboratório.
 
No passado, para atingir excelência no resultado final de uma peça protética, dependia-se exclusivamente do conhecimento do técnico sobre os processos laboratoriais em cada passo. Já a tecnologia CAD/CAM requer uma associação de conhecimentos, não só de Odontologia e Anatomia, mas também de Engenharia e Informática, para extrair o máximo dessa nova maneira de construir restaurações indiretas, que é composta por três unidades funcionais básicas:
 
1) Captura de dados ou digitalização para obtenção da informação oral;
 
2) Desenho da estrutura (CAD) em software específico, definição de anatomia e bordos;
 
3) Fabricação da restauração (CAM), seja fresada ou impressa.
 
Com o desenvolvimento dessa tecnologia na área odontológica, o trabalho laboratorial passou a ser menos artesanal e mais automatizado, eliminando assim algumas possíveis falhas decorrentes dos diferentes processos realizados até chegar ao resultado final. O avanço na área dos materiais é outro fator importante, que contribuiu na obtenção de resultados de melhor qualidade das peças confeccionadas. Diversos estudos já comprovaram que a adaptação marginal das peças indiretas tem uma fidelidade maior quando confeccionadas via CAD/CAM.
 
A agilidade do processo promoveu um workflow mais simplificado, quando comparado às técnicas convencionais (Figuras 1 a 5). Em contrapartida, observamos trabalhos perdendo sua individualidade, personalização e notória falta de humanização, passando a ser apenas próteses e não um substituto natural do dente, principalmente quando falamos de reabilitações em setor anterior. Estamos vivendo um momento em que a “Odontologia necessária” está perdendo espaço para a “Odontologia desejada”, em que os aspectos básicos e fundamentais de formação odontológica, como bom planejamento, estudo da face, lábios, gengiva e a inter-relação entre eles, possam ser desenvolvidos para que, além das expectativas do paciente, respeitemos sobretudo os princípios biomiméticos e fundamentais de oclusão.
 
Figura 1 – Escaneamento intraoral (3Shape).

 

Figura 2 – Peças fresadas em e.max CAD.

 

Figura 3 – Adequação dos remanescentes dentais.

 

Figuras 4 – Sequência da prova dos laminados.

 

Figuras 5 – Laminados em boca (caso clínico: Laboratório Aliança).

 

Dizer que os técnicos em prótese dentária serão substituídos por máquinas é radicalizar, ser extremista, além de ser uma grande inverdade – já que o fator humano é decisivo para a programação e obtenção do resultado final das estruturas modeladas no CAD e fresadas no CAM. Acredito que a alma dos trabalhos ainda depende da mão hábil e da sensibilidade do técnico em perceber o conjunto e conseguir reproduzir características individuais de cada paciente, tornando assim um trabalho harmônico e o mais próximo possível do natural (Figuras 6 a 11).
 
Figura 6 – Preparos suficientemente invasivos.

 

Figura 7 – Facetas injetadas com e.max maquiado.

 

Figura 8 – Facetas maquiadas.

 

Figura 9 – Aspecto das peças finalizadas.

 

Figura 10 – Aspecto final em boca.

 

Figura 11 – Resultado mostrando a naturalidade (caso clínico: Laboratório LOF).

 

A implementação da tecnologia CAD/CAM exige do clínico e do técnico uma adaptação das dinâmicas de trabalho, de forma a rentabilizar o alto investimento efetuado. O custo-benefício deve ser muito bem pensado antes da aquisição de qualquer tipo de sistema, pois o retorno não é imediato e muito menos proporcional ao tamanho do investimento.

A pressa e o impulso em adquirir o primeiro sistema CAD/CAM que lhe é apresentado, sem ao menos conhecê-lo, estudá-lo, verificar autonomia, observar suas possibilidades de produção e, especialmente, a expectativa criada em torno do lucro financeiro imediato, talvez sejam os principais inimigos dessa tecnologia, que é uma ferramenta de auxílio e comprovadamente útil para a Odontologia.
 
Definitivamente, o resgate da autoestima e a construção de um sorriso que teve um ou mais elementos dentais perdidos não estão associados somente ao clique do botão de uma máquina, mas sim a anos de muito estudo, aperfeiçoamento, aprimoramento de técnicas, emoção, sensibilidade e paixão pelo que se faz.

 

André Callegari
Especialista e mestre em Prótese Dentária; Doutor em Odontologia; Coordenador do livro Beleza do Sorriso (volumes 1 e 2); Membro da equipe “Como eu faço: laminados cerâmicos e fotografia odontológica”.
Juliana Dornelles
Especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial e Implantodontia; Mestranda em Implantodontia; Membro da equipe “Como eu faço: laminados cerâmicos e fotografia odontológica”.