Publicado em: 18/08/2017 às 10h22

Como avaliar uma nova técnica na Implantodontia

Marco Bianchini alerta: nem todo lançamento é, realmente, uma novidade.

Na próxima semana, no horário em que a coluna é semanalmente postada aqui no portal INPN, estaremos todos desfrutando do IN 2017. Muitos de nós já teremos nos deparado com as supostas novidades que cada congresso nos traz. Na verdade, os eventos trazem, sim, lançamentos de novas técnicas e materiais, com o objetivo de facilitar a vida do clínico em Implantodontia. Contudo, há que se tomar cuidado com o que muitos lançam como sendo algo totalmente inédito. A velocidade com que a informação caminha nos dias atuais acaba nos mostrando que esse suposto ineditismo já estava sendo feito em algum lugar, há algum tempo atrás.

Confesso a vocês que este é um exercício que venho fazendo todas as vezes que eu frequento algum evento. Costumo vagar errante pelos estandes das empresas e pelas salas de conferências. Assim, vou checando os títulos das palestras, bem como os lançamentos de produtos. Esta terapia me agrega muito conhecimento, pois realmente se aprende muito assistindo às palestras e conhecendo as marcas que fabricam materiais relacionados aos implantes. O IN é uma oportunidade ímpar para isso, pois se trata do maior evento de Implantodontia da América Latina. Porém, além do aprendizado, também vem a constatação de que existe muita repetição travestida de novo.

A vida de um clínico em Implantodontia não permite que ele saia muito das quatro paredes do consultório. A maioria dos dentistas fica presa no trabalho e elege alguns eventos específicos para se reciclar. Não tenho nenhuma dúvida de que o IN é o melhor desses eventos. Mesmo assim, é importante que o clínico entenda o que está procurando e desenvolva o seu espírito crítico, não aceitando de imediato aquilo que é vendido como uma novidade espetacular e inédita. É preciso pesquisar! Checar a concorrência, ouvir opiniões antagonistas e, sobretudo, observar o que a literatura científica fala desta novidade. Em ciência, vale o que está escrito e comprovado cientificamente.

No Brasil, ainda estamos evoluindo lentamente nos critérios de avaliação dos produtos oferecidos pelas empresas de implantes. A maioria de nós ainda compra pelo preço e pela aparência, ou porque algum colega também compra. Não faz parte da nossa cultura pesquisar a fundo e avaliar critérios mais rígidos de sucesso de um novo material. A literatura, então... A literatura é subjugada, deixando a comprovação científica da eficácia das novidades em segundo plano. O resultado disso é um armário cheio de “lançamentos inéditos”, que compramos em congressos e pouco utilizamos.

O maior problema dos ineditismos, sejam eles de produtos ou conceitos teóricos, é a falta de coragem de quem os proclama em admitir que isto já existe ou já existiu em algum momento. Em um mercado aberto, como no da Implantodontia, é comum que as empresas copiem produtos umas das outras. Não há mal – nem crime – algum nisso. Uma vez respeitado o período dos domínios e patentes, as inovações caem no mercado e se tornam de domínio público. Desta forma, as empresas e pesquisadores podem se utilizar de acertos dos concorrentes para melhorarem ainda mais os seus próprios produtos.

O mesmo acontece com as técnicas e tratamentos utilizados no passado e que atualmente são vendidos como novidades. Nós, periodontistas, costumamos dizer que a Implantodontia vem usando conceitos, principalmente em relação ao tratamento das alterações peri-implantares, que a Periodontia já utiliza há mais de 100 anos. Sem falar nos implantes convencionais, tão rechaçados na década de 1990, mas que agora têm seus preceitos sendo reutilizados. Leia-se aqui os implantes de corpo único e a carga imediata.

Por fim, o que devemos levar em consideração no nosso aprendizado é aquilo que está confirmado na literatura. Seja a imitação de um produto já existente ou uma real novidade, o que vale são os estudos que comprovam a aplicabilidade clínica do produto e a sua aceitação biológica por parte dos pacientes no longo prazo. Ineditismos não testados tendem a não funcionar! Novidades que não possuem uma reprodutibilidade aceitável tendem a falhar e a ficar esquecidas no fundo do armário.

 

Todas as coisas trazem canseira. O homem não é capaz de descrevê-las; os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de ouvir. O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: veja! Isto é novo!? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época (Eclesiastes 1,8-10)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br