Publicado em: 22/09/2017 às 14h38

Preenchimento facial: procedimento para médicos ou dentistas?

Para Marco Bianchini, os profissionais da Saúde devem trabalhar de acordo com as evidências científicas e com a lei que regulamenta suas atividades.

Achei que esta rivalidade entre médicos e dentistas já havia acabado faz tempo. Mas, infelizmente, parece que a liberação por lei dos preenchimentos faciais e da toxina botulínica para serem realizados por dentistas reavivaram esta estúpida competição. Na semana passada, aqui em Santa Catarina, ocorreu o óbito de uma paciente por um AVC. No relato do caso divulgado pela imprensa, a paciente havia realizado a aplicação de ácido hialurônico na face com um dentista, três dias antes do AVC. Pronto, foi o prato cheio para alguns médicos destilarem todo o preconceito e falta de ética em cima da nossa classe.

Em uma das postagens que eu encontrei na internet sobre este assunto, constava: “procure um profissional médico especializado! Temos 12 anos de estudo entre medicina e cirurgia plástica, e não cursos de final de semana”. Além do preconceito escancarado, este tipo de afirmação demonstra um total desconhecimento do meio acadêmico e do que se ensina nos cursos de graduação e pós-graduação de Medicina e Odontologia. Baseando-se nessa medíocre comparação, se um médico leva seis anos de graduação para estudar o corpo inteiro, e o dentista leva cinco para estudar a face, quem estaria mais completo para atuar na face?

Eu venho de uma geração que escolheu a Odontologia como primeira opção no vestibular. Somos dentistas por opção de vida e vocação, e não por falta de opção. Não somos resquícios de quem não conseguiu passar em Medicina e acabou ficando pela Odontologia mesmo. Aliás, diga-se de passagem, no meu tempo, a pontuação para ser aprovado em Medicina e Odontologia, aqui na Universidade Federal de Santa Catarina, era praticamente a mesma. Hoje, esta distância é maior. Porém, continuo observando nos meus alunos uma intensa vontade de serem dentistas, e não médicos.

Os preenchimentos faciais, sejam eles terapêuticos ou estéticos, têm sido considerados importantes tratamentos na área odontológica. Observo que a Odontologia vem obtendo resultados estéticos muito melhores quando associamos estes preenchimentos aos tratamentos reabilitadores com implantes e próteses sobre implantes. É um caminho sem volta amparado por lei, pois é importante que o dentista intervenha na área onde este mais atua e mais tem conhecimento. Isto sem falar nos tratamentos de desordens temporomandibulares que tanto afetam os nossos pacientes.

Na verdade, o grande problema não é a aptidão dos dentistas em detrimento dos médicos. O que ocorre é que o mercado ficou dividido e muitos clientes estão preferindo fazer os preenchimentos faciais com dentistas, pois este tipo de tratamento tem tudo a ver com o sorriso e com a estética geral que envolve a parte dentária. É impossível não perceber isso. Os responsáveis legais já perceberam, os clientes perceberam e a grande maioria dos médicos também já percebeu. Entretanto, um pequeno grupo de oportunistas ainda não se deu conta de que isso é um caminho sem volta que beneficia os pacientes.

Enxovalhar toda uma classe por um fato isolado – e que ainda não se comprovou a sua relação com o óbito ocorrido – é, no mínimo, antiético e de uma total falta de critérios. Por que não reclamam dos tatuadores, então? Logicamente, os tatuadores não atuam no mesmo mercado, logo não atrapalham. E os erros médicos? Quantos óbitos temos anualmente com procedimentos realizados exclusivamente por médicos? Sem falar naqueles pacientes que têm complicações médicas pós-cirúrgicas por migrações de bactérias bucais para outras partes do corpo. Nem por isso se denigre a imagem dos médicos que não se deram conta de examinar a boca ou encaminhar para um dentista fazer isso.

Há muito tempo que trabalho com médicos em minha vida profissional. Já aprendi muito com eles, assim como aprendo ainda hoje. Acredito que eles também já aprenderam comigo. Compartilhamos erros e acertos em uma convivência salutar, onde quem ganha é o paciente. Vejo nos meus colegas dentistas um grande respeito pela classe médica, assim como observo o mesmo respeito da grande maioria dos médicos pela classe odontológica. Não podemos aqui generalizar uma atitude errada de uns poucos despreparados como sendo o pensamento de toda uma classe profissional.

Erros profissionais acontecem em todas as profissões. Na área da Saúde, estes erros podem ser imprevisíveis algumas vezes, sem que haja necessariamente um culpado. Acredito que os mais variados profissionais ligados à Saúde, como fisioterapeutas, psicólogos, médicos, dentistas e profissionais da educação física, devem trabalhar em conjunto para promover esta mesma Saúde e não para disputar mercado. Há espaço para todos, mas principalmente para aqueles que desenvolvem a carreira baseados não apenas nas oportunidades do mercado, mas nas evidências científicas e na lei que os protege e regulamenta as suas atividades.

 

“Não fareis acepção de pessoas em juízo; de um mesmo modo ouvireis o pequeno e o grande; não temereis a face de ninguém porque o juízo é de Deus; e a causa que vos for difícil demais, a trareis a mim e eu a ouvirei.” (Deuteronômio 1, 17)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br