Publicado em: 11/10/2017 às 14h35

Luiz Fernando Pegoraro, o colecionador de estrelas

A vocação natural de Pegoraro para o ensino na Odontologia lhe deu a oportunidade de uma longa carreira na FOB.

Luiz Fernando Pegoraro abriu portas para que seus alunos brilhassem profissionalmente. (Ilustração: Lézio Júnior)


Por Adilson Fuzo


Na infância, ele nunca sonhou ser dentista. Mesmo assim, o destino fez dele um dos protesistas mais conhecidos do País. Sua carreira foi construída de maneira despretensiosa, sem um projeto ou um objetivo definido.

Felizmente, o acaso se provou um grande aliado para Luiz Fernando Pegoraro, abrindo espaço no caminho certo para o seu sucesso profissional. “Eu fui deixando a vida me levar, como diz aquela música. As oportunidades foram surgindo, os convites foram aparecendo, e assim eu ia seguindo a minha trajetória.”

A primeira vez que Pegoraro entregou seu futuro nas mãos do acaso foi na escolha da sua profissão. A decisão pela Odontologia aconteceu em meados de 1968, quando ele frequentava as aulas do ensino médio – na época em que o curso ainda era chamado de “científico” – e participou de uma visita monitorada com a turma da escola para conhecer as dependências da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), inaugurada há poucos anos em sua cidade.

Mesmo sem se sentir especialmente atraído pela carreira de cirurgião-dentista, Pegoraro percebeu que seria muito conveniente frequentar aquela faculdade. “Eu sempre me perguntava: por que sair de Bauru? Eu não queria me mudar. Acho que esse foi o principal fator que me fez ser dentista. Eu percebi que eu tinha uma ótima faculdade em minha própria cidade e aquilo era tudo o que eu precisava naquele momento”.

“Existem professores que gostam de ensinar porque sentem prazer em ver seus alunos aprendendo. Minha motivação é ver meus alunos brilhando.”


O laço do protesista com a cidade de Bauru, no interior do estado de São Paulo, começou aos oito anos, quando ele chegou na cidade acompanhado pelos pais e pelos quatro irmãos. Antes da mudança, o pai sustentava a família mantendo uma pequena mercearia no distrito de Jacuba (SP), onde Pegoraro nasceu. Com exceção de breves períodos, ele passou a vida toda morando na cidade e não tem planos de sair de lá tão cedo.
 

Pegoraro, ao centro, participa de um
encontro com seus colegas de turma
de graduação da FOB, em 1973.
 

Orador da turma de
formandos da FOB de 1973.
(Fotos: acervo pessoal)

 


Amor pela academia

Pegoraro conseguiu ingressar no curso de Odontologia em 1970 e se adaptou muito bem à vida no campus. Era um aluno bastante ativo nas atividades da faculdade e chegou a ocupar a presidência do centro acadêmico. Ele só evitava as discussões sobre política, já que era totalmente avesso a qualquer forma de radicalização. Vale lembrar que o Brasil vivia o período mais conturbado da Ditadura Militar naqueles anos e havia muitos estudantes mobilizados na militância política.

A vida universitária na FOB foi ajudando o jovem a descobrir sua vocação profissional. De forma geral, ele gostava de praticar a Odontologia e tinha muita afinidade com a disciplina de Prótese Dentária, mas o seu maior prazer estava no atendimento clínico, no contato com o paciente e na possibilidade de transformar a vida das pessoas. “Tudo que envolve o atendimento clínico sempre me deu muito prazer. É nesse momento que sentimos que nosso trabalho tem um impacto verdadeiro na vida do paciente, e você vê o resultado na hora. É algo que me atrai até hoje”.

O professor Valdir Janson foi uma pessoa-chave na orientação da carreira acadêmica do jovem cirurgião-dentista. Ao perceber o interesse e o potencial do rapaz, Janson o convidou para trabalhar como docente da FOB enquanto ele fazia seu doutorado, entre 1973 e 1977. Foi dessa forma que Pegoraro descobriu que adorava ensinar – uma atividade que ele praticou com amor e dedicação ao longo de toda carreira, formando milhares de protesistas e revelando muitos talentos.

Em 1997, na conclusão do concurso para
Professor Titular, ao lado de sua esposa Leila Liz.

Em 1999, durante curso ministrado
na Universidade da Flórida.

 

“Existem professores que gostam de ensinar porque sentem prazer em ver seus alunos aprendendo. Minha motivação é ver meus alunos brilhando”, revela Pegoraro. E a vida foi levando o jovem professor do jeito que ela quis. Ele manteve suas atividades na FOB em tempo integral, sem clínica particular. Apaixonou-se por uma de suas alunas Leila Amadei Pegoraro, com quem se casou em 1976. Dois anos depois, veio a filha Thais Amadei Pegoraro, formada em Direito, e o filho Thiago Amadei Pegoraro, que também se tornou protesista e professor universitário na Universidade Sagrado Coração (USC).

Em 1983, diante de uma oportunidade que surgiu para estudar no exterior, Luiz Fernando Pegoraro pegou a esposa e os dois filhos pequenos e se mudou para os Estados Unidos, onde morou por 24 meses enquanto cursava seu pós-doutorado na Universidade de Nova York. Ao final do período, até recebeu um convite para ficar, mas ele e a família sentiam saudades da vida em Bauru.

Entre 1987 e 1997, Pegoraro prestou concurso e conseguiu as vagas de professor associado e titular da cadeira de Prótese da FOB. Nos anos seguintes, diante de oportunidades e convites que foram surgindo, ele passou a se aproximar cada vez mais das rotinas administrativas da Faculdade, ocupando diversas funções na gestão da FOB, inclusive a de vice-diretor. Em 2006, ele foi escolhido para ser o diretor da FOB em um mandato de quatro anos.

“Eu fui deixando a vida me levar, como diz aquela música. As oportunidades foram surgindo, os convites foram aparecendo, e assim eu ia seguindo a minha trajetória.”


 

Ao lado do mentor,
Waldir Janson.
Em 2006, na solenidade de posse
como diretor da FOB/USP.

 


O processo

A partir de 2007, a trajetória profissional tranquila de Pegoraro sofreu uma reviravolta. Uma das entidades das quais foi tesoureiro, a Fundação Bauruense de Estudos Odontológicos (Funbeo), foi denunciada por desvio de verbas e peculato. O professor foi envolvido no processo do Ministério Público e só conseguiu provar sua inocência depois de oito anos, em 2015.

“Meu sofrimento foi maior por saber o quanto esse episódio desgastou minha esposa e filhos. Por outro lado, foi um período que serviu para que nos uníssemos ainda mais, dando-me intensa tranquilidade para que eu pudesse prosseguir normalmente com minhas atividades profissionais”, comenta o professor.

De todo o grupo investigado, apenas o protesista conseguiu provar sua inocência no desvio de verbas. “No dia em que minha absolvição foi anunciada, eu comprei 12 rojões e soltei na faculdade. Foi uma brincadeira e celebração que serviram também para agradecer a todos os que me apoiaram – e para avisar aqueles que torceram contra.”

Aos 67 anos, Pegoraro ainda tem muita energia e conhecimento para compartilhar com seus alunos. Atualmente, ele faz planos para se aposentar pela FOB em 2019, completando uma trajetória acadêmica de 45 anos, ensinando e mostrando o caminho para seus alunos brilharem. Essa aposentadoria, no entanto, não significa que ele pretende parar de trabalhar. “Depois que eu me aposentar na FOB, quero continuar dando cursos de atualização e especialização junto com meu filho Thiago”, revela Pegoraro.

Ao lado da família, em 2017: esposa (Leila Liz), filhos (Thais e Thiago), netos (Zeca e Pedro) e a cachorra Filipa.