Publicado em: 11/10/2017 às 14h36

Novas ferramentas para velhas práticas

Será que o dentista ainda está preso aos conceitos tradicionais da Odontologia, deixando de aproveitar o potencial da tecnologia digital?

 

Depois de tanto se falar sobre a inserção das tecnologias digitais na Odontologia, acho que já não restam dúvidas de que uma profunda transformação está em curso em nossa profissão. Em alguns mercados mais maduros, como nos Estados Unidos e na Europa ocidental, esse processo vem avançando rapidamente, mas aqui no Brasil ainda estamos engatinhando.

Para quem olha de fora, pode parecer que falta visão aos dentistas brasileiros. No entanto, a explicação para o nosso atraso está na diferença cambial e nas barreiras fiscais que dificultam nosso acesso à tecnologia. Diante disso, nossa revolução digital particular ficou restrita a uma pequena fração de profissionais habituada a atender pacientes de alto padrão social.

Graças a esse infeliz fenômeno, a Odontologia digital no Brasil se tornou sinônimo de uma Odontologia exclusiva para a elite, o que é um absurdo não só do ponto de vista da justiça social, mas também do ponto de vista do potencial que essa tecnologia pode oferecer.

Muitos dentistas brasileiros estão se acomodando na ideia de que a Odontologia digital deve ser vendida aos nossos pacientes apenas como uma “alternativa moderninha” e mais cara de se fazer os tratamentos tradicionais. Não estamos explorando de verdade as possibilidades que a tecnologia está nos oferecendo.

Vamos deixar claro: para quem usa o digital no dia a dia, já é possível fazer bons tratamentos e ganhar algum dinheiro com isso. No entanto, ainda tenho a sensação de que estamos usando ferramentas novas para aplicar conceitos tradicionais. Nossa cabeça ainda está pensando com as fórmulas antigas. As oportunidades de inovação estão todas aí, bem diante de nós. Só precisamos perder o medo e esticar a mão para pegá-las.

Em setembro, tive a oportunidade de participar como ativador em um seminário sobre Odontologia digital, coordenado pela Profa Altair Antoninha Del Bel Cury e promovido pela Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (SBPqO). O debate contou com três pesos pesados da Prótese Dentária no Brasil: Oswaldo Scopin, Nelson Silva e Dario Adolfi.

A discussão foi excelente, rica em conhecimento e em insights. Diante de tudo que foi falado e dos questionamentos trazidos pelo público, fica claro que nossa transição para o digital está apenas começando. Mesmo entre os iniciados na tecnologia, ainda temos mais perguntas do que respostas, e isso é uma boa notícia. Significa que a Odontologia ainda vai crescer muito com a ajuda do digital.

Para compartilhar com vocês um pouco do que foi discutido no evento, apresento a seguir um pequeno resumo dos pontos que mais chamaram a minha atenção em cada apresentação.


Simpósio de Odontologia Digital na 34ª reunião da SBPqO

Altair Del Bel Cury coordenou o seminário de Odontologia digital da SBPqO.

Cerca de 6 mil pessoas, entre professores, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação de diversas universidades do País, estiveram presentes na 34ª reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (SBPqO), sob atual presidência de Carlos Eduardo Francci.

O encontro aconteceu entre os dias 3 a 6 de setembro no Expo D. Pedro, em Campinas (SP), e contou com 50 atividades em sua programação. Entre os destaques, estava o Simpósio de Odontologia Digital, com apresentações de Oswaldo Scopin, Nelson Silva e Dario Adolfi. Confira alguns dos assuntos discutidos no seminário.

 

Nelson Silva começou sua apresentação lamentando o descompasso entre indústria e universidades na condução das pesquisas na área. Para ele, as indústrias do setor de tecnologia caminham com suas pesquisas em um ritmo muito mais forte do que nas instituições de ensino.

Ele revelou algumas das inovações que estão sendo desenvolvidas neste momento por diferentes companhias. Destacando os exemplos da impressão de guia de preparos, uso de comandos de voz e inteligência artificial no diagnóstico odontológico, novas tecnologias de sinterização e scanners captando o movimento mandibular, Silva comentou como cada uma dessas áreas vem evoluindo tecnologicamente.

Ele finalizou mostrando um protocolo de duas seções para próteses totais removíveis utilizando a tecnologia digital. Além disso, alertou para a necessidade de cautela nos investimentos com tais tecnologias para garantir que o profissional consiga seu retorno financeiro adequado.

 

Em sua apresentação, Oswaldo Scopin lembrou que ainda haverá uma longa curva de aprendizado até que seja possível tirar pleno proveito da tecnologia digital. À primeira vista, o relacionamento entre clínicos e TPDs poderá ser muito beneficiado à medida que o uso dos scanners intraorais pode reduzir drasticamente os erros da moldagem tradicional.

Além disso, segundo Scopin, o digital traz novas questões para a mesa de debates dos pesquisadores. Lembrando que novos materiais estão sendo lançados ano a ano, ele deu como exemplo o debate que está surgindo em torno das reais vantagens estéticas e funcionais na comparação das próteses estratificadas versus monolíticas.

Ele ressaltou alguns dos erros mais frequentes que já estão acontecendo na clínica, citando os problemas de fratura da borda incisal e a pigmentação do terço cervical próximo à linha de terminação. Para finalizar, Scopin enumerou alguns temas que podem ser objeto de pesquisa a partir do uso da tecnologia.


 

Em sua exposição, Dario Adolfi apresentou um sofisticado protocolo de trabalho com duplo escaneamento para reabilitações totais. A discussão detalhada de cada etapa serviu para ilustrar inúmeras situações em que as técnicas tradicionais e as digitais eram comparadas, promovendo vantagem (ou não) em sua substituição.

Adolfi falou sobre como a atual complexidade dos materiais dificulta a decisão do dentista e do TPD na escolha do material restaurador. Ele também chamou a atenção para as diferenças entre o sensor do scanner e as limitações do olho humano para perceber sutilezas de coloração nas próteses.

O professor defendeu que, para realizar trabalhos de excelência, algumas etapas tradicionais do processo precisam ser mantidas, como o enceramento diagnóstico. Em sua opinião, esta é uma importante ferramenta de controle de qualidade dos trabalhos digitais.

 

 

 

Guilherme Saavedra

Professor assistente do Depto. de Materiais Odontológicos e Prótese, e professor da especialidade de Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos – Faculdade Odontologia, Universidade Estadual Paulista (Unesp).