Publicado em: 09/11/2017 às 17h00

Técnica especular: reproduzindo a natureza com implantes dentais

Solução estética para restauração de implantes dentários em combinação com facetas cerâmicas no setor anterior.

Nas últimas décadas, os pesquisadores, em parceria com a indústria de materiais odontológicos, desenvolveram uma série de sistemas cerâmicos que têm sido rotineiramente utilizados na confecção de próteses fixas, possibilitando diferentes opções clínicas aos dentistas.

Os sistemas cerâmicos disponíveis apresentam comportamentos óticos e mecânicos distintos, pois a microestrutura e o processamento laboratorial são diferentes. Este fato pode se tornar um problema frente a casos estéticos que demandam o emprego simultâneo de diferentes desenhos protéticos e sistemas cerâmicos. Estas situações, normalmente, envolvem coroas totais sobre dentes ou implantes associadas a facetas em elementos adjacentes no setor anterior. A harmonização destes diferentes sistemas cerâmicos é extremamente desafiadora, com resultados estéticos muitas vezes aquém dos desejados, devido às diferentes espessuras e tipos de material. Os problemas que podem surgir na integração estética entre os diferentes tipos de restaurações cerâmicas estão diretamente relacionados às propriedades óticas inerentes aos materiais selecionados.

Para se beneficiar das vantagens dos materiais cerâmicos disponíveis, dentistas e técnicos devem aprender a controlar e ajustar a influência da dinâmica da luz nas cerâmicas utilizadas. Este artigo descreve uma solução estética para restaurar implantes dentários em combinação com facetas cerâmicas no setor anterior, empregando-se em diferentes etapas a tecnologia CAD/CAM para facilitar a rotina clínica, bem como as etapas laboratoriais. No caso clínico apresentado, o paciente foi tratado com um implante substituindo o incisivo central superior esquerdo. O pilar protético sobre o implante foi confeccionado por meio da tecnologia CAD/CAM em zircônia, posteriormente recoberta com cerâmica feldspática, simulando o substrato do incisivo superior direito que havia sido preparado para faceta cerâmica. Este procedimento permitiu ao técnico a confecção de duas facetas, padronizando o uso dos materiais cerâmicos, lembrando que foram utilizados os princípios de adesão cerâmica/cerâmica. Esta alternativa reabilitadora foi desenvolvida para fornecer ao cirurgião-dentista uma opção segura e previsível para o tratamento em situações estéticas que envolvam dentes e implantes.


Relato de caso clínico

Um paciente com 18 anos de idade procurou atendimento odontológico emergencial em função de um trauma que ocasionou as fraturas incisais nas coroas dos dentes 11 e 21 (Figura 1). A tomografia computadorizada de feixe cônico (Figuras 2) evidenciou uma fratura radicular no dente 21, levando à indicação da exodontia deste elemento (Figura 3). O planejamento e o procedimento cirúrgico para instalação do implante foram realizados seguindo os conceitos da cirurgia guiada por computador (Figuras 4 e 5). Este método apresenta diversas vantagens, como otimização do tempo cirúrgico, planejamento integrado cirúrgico-protético, precisão no posicionamento do implante e rápida recuperação pós-operatória do paciente. Uma coroa de transição sobre o implante e uma faceta de transição sobre o dente 11, confeccionadas em polimetilmetacrilato (PMMA) por tecnologia CAD/CAM, foram posicionadas em boca (Figuras 6 e 7).

Após o período de osseointegração, o paciente retornou para a sequência do tratamento. Em função da ampla fratura incisal no dente 11, planejou-se uma faceta cerâmica para este dente. A associação de laminado cerâmico em um dente, com uma coroa sobre implante em seu homólogo, caracteriza o caso como uma reabilitação anterior estética híbrida, o que o torna muito mais desafiador. Nesses casos, o emprego de diferentes desenhos protéticos e sistemas cerâmicos pode fornecer resultados óticos distintos, fazendo com que a excelência estética nem sempre seja alcançada.

Visando contornar esta dificuldade, planejou-se a padronização no uso dos materiais cerâmicos empregando facetas cerâmicas, inclusive para a prótese sobre implante, uniformizando o resultado final. O dente natural foi preparado e, com o auxílio de um guia de silicone, verificou-se a correta redução do esmalte (Figuras 8 e 9). Procedeu-se com a moldagem do dente preparado, bem como a transferência do implante osseointegrado, para confecção do modelo de trabalho.

O pilar protético foi fabricado por tecnologia CAD/CAM em zircônia tetragonal estabilizada por ítria (Y-TZP). A superfície vestibular foi reduzida para possibilitar o revestimento com cerâmica feldspática, espelhando o dente homólogo já preparado para faceta (Figuras 10 e 11). Além de simular a cor e a forma do dente adjacente, este recobrimento garante a fluorescência da peça protética, principalmente na interface dente/tecido gengival, e possibilita o condicionamento ácido do pilar para a cimentação adesiva da faceta cerâmica. O pilar foi instalado em boca (Figura 12), e o modelo em gesso desta nova situação foi obtido (Figura 13). Duas facetas de transição confeccionadas em polimetilmetacrilato (PMMA) por tecnologia CAD/CAM foram posicionadas em boca (Figura 14).

Foram confeccionadas duas facetas estratificadas com cerâmica feldspática sobre refratário (Willi Geller Creation, Áustria), caracterizadas para obtenção de resultado mais natural (Figura 15). Após a aprovação do paciente, com a prova clínica antes da cimentação (RelyX Veneer Try-in, 3M Espe – EUA), o procedimento de cimentação foi iniciado. Sob isolamento absoluto (Figura 16), o condicionamento ácido da superfície vestibular do pilar cerâmico foi realizado com ácido fluorídrico a 10% (condicionador de porcelana, Dentsply – EUA) durante 90 segundos. Após a remoção do ácido com abundante irrigação durante 60 segundos, o preparo dentário para faceta foi condicionado com ácido fosfórico a 37% em gel (condicionador dental gel, Dentsply – EUA) durante 30 segundos, lavado com água e seco com leves jatos de ar. O pilar protético foi silanizado durante 60 segundos (RelyX Ceramic Primer, 3M Espe – EUA) e seco em seguida. As superfícies internas das facetas foram condicionadas e silanizadas de forma semelhante ao pilar sobre implante. O adesivo (Single Bond Universal, 3M Espe – EUA) foi então aplicado sobre os preparos e foi utilizado um cimento resinoso fotopolimerizável (RelyX Veneer, 3M Espe – EUA), resultando na excelente integração entre os materiais cerâmicos, estrutura dental e tecidos moles (Figuras 17 a 20).


Considerações finais

Nos casos clínicos em que facetas cerâmicas forem indicadas em áreas onde outros desenhos protéticos estiverem presentes, como coroas totais ou próteses sobre implantes, confronta-se um grande desafio estético. Conduzir o caso com coroas preparadas para receberem facetas cerâmicas, assim como foram preparados os dentes naturais, poderá permitir um resultado final mais previsível.

A padronização das peças cerâmicas a serem utilizadas é uma interessante alternativa reabilitadora estética, uma vez que garante um resultado estético controlado, harmonioso e natural. Em diferentes etapas do caso clínico relatado, optou-se pela utilização do sistema CAD/CAM. Esta tecnologia está modificando os processos de fabricação, bem como os padrões de qualidade da prótese odontológica, proporcionando mais precisão, rapidez e qualidade na confecção das peças protéticas.
 

Agradecimento a César Augusto Magalhães Benfatti, pela condução da etapa cirúrgica, e à ceramista Karina Nunes Pessoa (Prothexis Arte Dental, Florianópolis/SC), pela etapa laboratorial.


Autor:

Diego Klee de Vasconcellos
Professor associado da disciplina de Prótese Parcial – UFSC; Doutor em Odontologia Restauradora/Prótese – Unesp/FOSJC.

 

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