Publicado em: 09/11/2017 às 17h06

Uso de scanner intraoral na prática clínica

O scanner intraoral permite que a informação esteja disponível imediatamente.

Desde a introdução do CAD/CAM (computer-aided design/computeraided manufacturing) na Odontologia no final dos anos 1980, diversos paradigmas têm sido rompidos na rotina clínica e nos laboratórios. O desenvolvimento estratégico das técnicas de CAD/CAM inclui a automação dos processos e a otimização da qualidade das restaurações, utilizando materiais biocompatíveis e cerâmica de “alta performance”, como dissilicato de lítio1, híbridos de resina com cerâmica, silicato de lítio reforçado por zircônia, zircônia translúcida, entre outros. Estudos recentes demonstram a precisão e praticidade obtidas através desta tecnologia, quando comparada ao método analógico ou convencional2-4.

A transferência dos processos de confecção das próteses do analógico para o digital minimizou as etapas suscetíveis a erros, tais como: material de moldagem, proporção pó/água, espatulação a vácuo ou manual, tipo de gesso, entre outros5-8. O escaneamento intraoral (EIO) oferece velocidade, eficiência, armazenamento de dados e transferência dos mesmos por meio digital, assim como boa aceitação dos pacientes, redução das distorções, pré-visualização em 3D dos preparos e potencial custo-benefício pela economia de tempo9-11.

Diversos estudos focam em fatores técnicos e/ou comerciais, e não clínico-laboratorial: qual o melhor scanner? Qual o mais preciso? Qual o mais barato? Entretanto, poucos se preocupam em demonstrar como rentabilizar o investimento. Hoje, podemos dizer que o sistema digital é mais eficiente2-3, porém, o sistema analógico ainda permanece com extrema importância na hora do planejamento e da execução de trabalhos complexos. A arte e a criatividade dos protéticos, que possuem excelência artística, são essenciais, apesar do desenvolvimento estético dos blocos CAD/CAM apresentados nos últimos anos.

Este artigo teve o intuito de mostrar o workflow do scanner intraoral Cerec Omnicam Dentsply Sirona em três possibilidades clínicas, utilizando o registro de mordida digital para auxiliar na tomada de decisão no dia a dia.

- Chairside: sessão única totalmente digital;

- Labside: digitalização do processo analógico;

- Chair e labside: combinação dos dois processos.


A AVALIAÇÃO INICIAL DO PACIENTE CONSISTE NO EXAME CLÍNICO, RADIOGRÁFICO E PERIODONTAL

Avaliação inicial do paciente
Anatomia  Cor
Oclusão  Restauração pré-existente
Periodonto  Quanto tempo você tem?
Radiografia  



Chairside

O termo chairside consiste em realizar em uma única sessão todo o tratamento. As etapas para esta modalidade abrangem:

- Escaneamento intraoral do quadrante de trabalho, antagonista e registro de mordida;

- Desenho do projeto;

- Fresagem da restauração;

- Acabamento e polimento da restauração;

- Cimentação adesiva.

Os procedimentos mais comuns realizados em sessão única são restaurações deficientes, lesões cariosas, dentes com anatomia e/ou cor deficiente, implantes unitários ou mesmo a troca de provisório para definitivo. O tempo médio de trabalho é de uma hora por dente, sendo indicado fazer no máximo três elementos. Tempos mais prolongados aumentam o estresse do paciente e diminuem o efeito da anestesia no momento crítico de todo o tratamento, que é a cimentação adesiva.

É importante salientar que o periodonto deve estar saudável. Os preparos devem ser, sempre que possível, supragengivais para facilitar o EIO e a cimentação adesiva12.

As condições que inviabilizam o escaneamento intraoral são preparos subgengivais com sangramento e exsudato, por impedirem a visualização com nitidez do bordo do preparo. As contraindicações para o tratamento chairside são casos em que tecidos periodontais tenham que ser condicionados e materiais que necessitam de sinterização, cristalização e maquiagem – devido ao tempo acrescido no tratamento.


Labside

Processo que consiste na moldagem convencional com aquisição dos modelos de trabalho, os quais serão digitalizados mantendo o registro de mordida digital salvo no arquivo do paciente. Assim, é possível escanear os modelos sem se com a interposição deles ou montagem em articulador. Neste caso, as restaurações são feitas com mais calma e podem incluir detalhes como maquiagem, cristalização, estratificação e ajustes finos.

Vale ressaltar que o EIO precisa identificar os bordos propriamente ou corpo de escaneamento, no caso de implante. Os princípios da Prótese Dentária e da Oclusão não mudam por ser CAD/CAM. Os procedimentos comuns no labside são:

- Planejamentos complexos, como reabilitações (acima de quatro elementos);

- Levantamento de DVO;

- Necessidade de enceramento;

- Pacientes com limitação na abertura de boca;

- Tempo limitado.

Estes casos podem ser feitos em duas sessões, podendo ser no mesmo dia.


Chair e labside

Nesta combinação, o tratamento pode ser feito em sessão única ou em dois tempos, porém, é recomendada uma estrutura mínima de laboratório na clínica. Sendo um tratamento muito útil em casos estéticos e/ou implantes, as etapas desta modalidade consistem em:

- Moldagem do quadrante de trabalho;

- EIO do quadrante de trabalho, antagonista e registro de mordida.

O processo digital seguirá como descrito no chairside, tendo um modelo para executar detalhes, análise e ajustes finos. É comumente indicado para casos de dentes anteriores complexos, nos quais a arte e a criatividade podem ser exploradas tendo modelo e paciente ao lado. Implantes esplintados, periodonto inadequado e materiais que necessitam ir ao forno também podem ser explorados nessa combinação. O tempo de consulta pode durar duas sessões ou uma sessão longa.


Evolução

A velocidade em que a informação é transmitida vem mudando o mundo. Quanto mais rápida e precisa a informação viaja, mais rápido evoluímos e dividimos conhecimento. Evoluímos do código morse ao telegrama, rádio, televisão, computador, internet, Facebook e Instagram, e hoje vivemos um tempo em que a informação é instantânea. A Odontologia segue os mesmos passos – ao atender um paciente, por exemplo, estamos 100% focados naquele momento, naquele presente. O scanner intraoral permite que a informação esteja disponível imediatamente.

O preparo e a articulação podem ser analisados junto com o paciente e, caso não estejam bons, em um minuto pode ser feito o ajuste, re-escaneado e o caso finalizado naquele momento. Se associar a tomografia computadorizada e fotografia 3D ao EIO, cria-se o paciente virtual, ou seja, não há necessidade da presença física da pessoa. Ao moldar, a informação demora a retornar para o dentista (tempo de presa do material de moldagem, tempo de presa do gesso, troquelização, espaçador, entre outros). Estamos aprendendo a viver o presente, e o acesso imediato às informações permite que estejamos conectados a este presente. E aí, vai escanear?


Sugestões de leitura

1. Luthardt R, Weber A, Rudolph H, Schone C, Quaas S, Walter M. Design and production of dental prosthetic restorations: basic research on dental CAD/CAM technology. Int J Comput Dent 2002;5:165-76.

2. Yuzbasioglu et al. Comparison of digital and conventional impression techniques: evaluation of patients’ perception, treatment comfort, effectiveness and clinical outcomes. BMC Oral Health 2014.

3. Keeling A, Wu J, Ferrari M. Confounding factors affecting the marginal quality of an intra-oral scan [On-line]. Journal of Dentistry. Disponível em <http://dx.doi.org/10.1016/j.jdent.2017.02.003>.

4. Amin S, Weber HP, Finkelman M, El Rafie K, Kudara Y, Papaspyridakos P. Digital vs. conventional full-arch implant impressions: a comparative study. Clin Oral Impl Res 2016;1-8 (doi: 10.1111/clr.12994).

5. Rudd RW, Rudd KD. A review of 243 errors possible during the fabrication of a removable partial denture: part III. J Prosthet Dent 2001;86(3):277-88.

6. Powers J. Gypsum products and investments. In Craig’s Restorative Dental Materials. Edited by Powers J. St. Louis: Mosby, 2006. p.313-36.

7. Duke P, Moore BK, Haug SP, Andres CJ. Study of the physical properties of type IV gypsum, resin-containing, epoxy die materials. J Prosthet Dent 2000;83:466-73.

8. Powers J. Impression materials. In Craig’s restorative dental materials. Edited by Powers J. St. Louis: Mosby, 2006. p.269-312.

9. Wöstmann B, Rehmann P, Balkenhol M. Infl uence of impression technique and material on the accuracy of multiple implant impressions. Int J Prosthodont 2008;21(4):299-301.

10. Birnbaum N, Aaronson HB, Stevens C, Cohen B. 3D digital scanners: a high-tech approach to more accurate dental impressions [On-line]. Inside Dentistry. Disponível em <www.insidedentistry.net>.

11. Kim SY, Kim MJ, Han JS, Yeo IS, Lim YJ, Kwon HB. Accuracy of dies captured by an intraoral digital impression system using parallel confocal imaging. Int J Prosthodont 2013;26(2):161-3.

12. Christensen GJ. Impressions are changing: deciding on conventional, digital or digital plus in-office milling. Jada 2009;140:1301-4.


Autores:

José Umberto De Luca
Especialista em Prótese Dentária.


Silvio De Luca
Especialista em Periodontia pela APCD; Mestre em Clínicas Odontológicas pela Universidade Camilo Castelo Branco.


Pedro G. De Luca
Especialista em Endodontia pela Unesa; Mestre e especialista em Prótese Dentária pela São Leopoldo Mandic, Campinas/SP.

 

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