Publicado em: 09/11/2017 às 17h11

Escaneamento intraoral: mudança de paradigma na Odontologia contemporânea

A moldagem dos arcos dentais está sendo gradualmente substituída pelo procedimento de escaneamento ótico das superfícies intraorais.

Na atualidade, o cirurgião-dentista prima pelo uso de novas tecnologias e novos materiais para restabelecer a forma, a função e a estética dos pacientes. A moldagem dos arcos dentais é um procedimento clínico importante para o diagnóstico e para o planejamento terapêutico. Atualmente, esta técnica está sendo gradualmente substituída pelo procedimento de escaneamento ótico das superfícies intraorais.

O desenvolvimento e a aplicabilidade desta tecnologia na área odontológica ocorreram no início da década de 1970, com o trabalho do professor François Duret, que descrevia a técnica de “moldagem ótica”. No entanto, apenas em meados de 1980 um sistema primário com uma sutil aplicabilidade clínica foi desenvolvido por Moermann. O objetivo deste artigo foi revisar algumas peculiaridades desta tecnologia, exemplificando um pouco de seu funcionamento e suas aplicabilidades no diagnóstico maxilofacial.

Atualmente, os modelos digitais são obtidos de duas formas distintas: pela técnica extraoral ou pela técnica intraoral. No caso do escaneamento extraoral, é realizada moldagem convencional e o modelo resultante é digitalizado com o scanner de mesa laboratorial. Durante este procedimento, podem ocorrer distorções decorrentes do processo de moldagem e/ou da expansão da cristalização do gesso durante a confecção do modelo1. O rápido avanço tecnológico, assim como a necessidade da digitalização de modelos intraorais, contribuiu para o desenvolvimento clínico do escaneamento intraoral, reduzindo o tempo total para aquisição do modelo do paciente. Atualmente, existem diversos sistemas de escaneamento intraoral comercializados no Brasil que, aos poucos, estão modificando a prática clínica e, consequentemente, melhorando a Odontologia. Desta forma, um modelo virtual tridimensional é obtido reproduzindo as estruturas anatômicas com acurácia e precisão2-3. Ambos os métodos utilizados são válidos, confiáveis e reprodutíveis para obtenção de medidas dentais para fins de diagnóstico e reabilitações protéticas4. O modelo virtual adquirido por meio de um scanner intraoral está representado na Figura 1.

Inevitavelmente, erros ainda podem ocorrer durante esse procedimento em algumas situações clínicas, como presença de saliva, limitação de abertura bucal e posicionamento dos dentes na arcada, o que pode contribuir para a imprecisão do modelo digital. Tais condições intrabucais dificultam a reflexão da luz, promovendo a imprecisão da técnica11. Nestes casos, o uso de substâncias opacificadoras pode melhorar a fidelidade do modelo digital5.

Os modelos virtuais devem estar relacionados especialmente para o planejamento de uma eventual reabilitação ou tratamento ortodôntico – tanto para o estudo da oclusão (mapa oclusal) do paciente quanto para o planejamento de uma eventual reabilitação. O registro oclusal convencional e a montagem em articulador serão substituídos pelo registro oclusal virtual e pelo articulador virtual6 (Figura 2).

Na Dentística Restauradora, por exemplo, o procedimento de moldagem oferece a reprodução da situação intraoral em um modelo de trabalho. Sua precisão influencia diretamente a adaptação e a longevidade da restauração final, sendo crucial para o sucesso terapêutico7. Na prática ortodôntica, os modelos digitais obtidos a partir de scanners intraorais são confiáveis e podem ser considerados uma alternativa aos modelos para a realização de medições e análises8.

Chalmers, em 2016, avaliou a utilização do scanner intraoral em pacientes com fissura labiopalatina. Os participantes apresentaram maior índice de conforto com o procedimento de escaneamento (84,8%), quando comparado à técnica de moldagem convencional9. A fidelidade da relação entre os arcos dentais e entre reparos anatômicos foi superior no procedimento por escaneamento. Os pacientes com fissura labiopalatina optaram pelo escaneamento intraoral, e não pela moldagem convencional.

O scanner intraoral pode ser dividido em duas unidades primárias: a unidade computacional, responsável pelo processamento dos dados adquiridos, e uma unidade operacional, composta pelo leitor ótico e por um monitor de controle de processamento que guia o profissional durante a obtenção das imagens (Figuras 3).

Durante o procedimento de escaneamento, o profissional, por meio do leitor ótico, incide uma luz nas superfícies intraorais do paciente, que é refletida e capturada por um sensor que possui uma distância fixa e calcula o ângulo de reflexão do feixe luminoso incidente por um processo chamado de triangulação. Assim, digitalmente, são calculadas as distâncias entre as superfícies bucais analisadas, permitindo o registro tridimensional virtual da condição clínica do paciente. Esta técnica de moldagem ótica resulta em um modelo virtual direto com precisão média de 0,287 micrômetros10.

Estudos recentes compararam o escaneamento digital com a moldagem convencional, avaliando a distorção dos modelos digitais, dificuldades intrínsecas dos pacientes e sua acurácia11-12. Portanto, há necessidade de mais estudos sobre essa promissora tecnologia, embora seja indicada a utilização desta metodologia por conta de sua elevada precisão, reprodutibilidade e velocidade na aquisição de resultados.


Sugestões de leitura

1. Christensen GJ. Will digital impressions eliminate the current problems with conventional impressions? J Am Dent Assoc 2008;139:761-3.

2. Beuer F, Schweiger J, Edelhoff D. Digital dentistry: an overview of recent develop ments for CAD/CAM generated restorations. Br Dent J 2008;204:505-11.

3. Fasbinder D. Digital dentistry: innovation for restorative treatment. Compend Contin Educ Dent 2010;31(4):2-11 (quiz 12).

4. Wiranto MG et al. Validity, reliability, and reproducibility of linear measurements on digital models obtained from intraoral and cone-beam computed tomography scans of alginate impressions. American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics 2013;143(1):140-7.

5. Nedelcu RG, Persson ASK. Scanning accuracy and precision in 4 intraoral scanners: an in vitro comparison based on 3-dimensional analysis. Journal of Prosthetic Dentistry 2014;112(6):1461-71.

6. Solaberrieta E, Garmendia A, Brizuela A, Otegi JR, Pradies G, Szentpétery A. Intraoral digital impressions for virtual occlusal records: section quantity and dimensions. BioMed Research International 2016;2016:7173824.

7. Perakis N, Belser U, Magne P. Final impressions: a review of material properties and description of a current technique. Int J Periodontics Restorative Dent 2004;24:109-17.

8. Lemos LS et al. Reliability of measurements made on scanned cast models using the 3 Shape R 700 scanner. Dento maxillo facial radiology 2015;44(6):20140337.

9. Chalmers EV et al. Intraoral 3D scanning or dental impressions for the assessment of dental arch relationships in cleft care: which is superior? Cleft Palate-Craniofacial Journal 2016;53(5):568-77.

10. van der Meer WJ, Andriessen FS, Wismeijer D, Ren Y. Application of intra-oral dental scanners in the digital workflow of implantology. Glogauer M, editor. PLoS One 2012;7(8):e43312-8.

11. Mehl A, Ender A, Mormann W, Attin T. Accuracy testing of a new intraoral 3D camera. Int J Comput Dent 2009;12:11-28.

12. Ender A, Mehl A. Accuracy of complete-arch dental impressions: a new method of measuring trueness and precision. Journal of Prosthetic Dentistry 2013;109:121-8.

 

Autores:

Israel Chilvarquer
Mestre, doutor, livre-docente e professor associado da disciplina de Radiologia – Fousp; Diretor clínico do Indor Radiologia.


Eduardo Felippe Duailibi Neto
Especialista em Radiologia e Imaginologia – APCD Jardim Paulista; Mestre e doutor em Diagnóstico Bucal – Fousp.


Renan Lúcio Berbel da Silva
Mestrando em Diagnóstico Bucal – Fousp.


Michel Lipiec
Especialista em Radiologia – FOB/USP; Diretor clínico do Indor Radiologia.


Jorge Elie Hayek
Especialista em Radiologia e Imaginologia – FFO Fundecto/USP; Mestre e doutor em Diagnóstico Bucal – Fousp; Diretor clínico do Indor Radiologia.

 

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