Publicado em: 27/02/2018 às 09h26

Seleção de cerâmica para CAD/CAM

O material restaurador deve preencher as necessidades estéticas e oferecer flexibilidade de uso.

Durante a escolha de um material restaurador ideal para proteger o remanescente dental e repor o tecido natural perdido, deve-se recorrer aos materiais biocompatíveis e com características mecânicas e óticas adequadas. Tão importante quanto esses aspectos, é que sejam produzidos por empresas que ofereçam produtos e sistemas que suportem todas as fases do tratamento restaurador.

Nos últimos 25 anos, o desenvolvimento de materiais restauradores estéticos cresceu consideravelmente, impulsionado pela demanda estética associada à necessidade de produtos mais resistentes, o que levou os fabricantes a oferecerem novas opções cerâmicas.

Há muitos anos, a cerâmica feldspática é considerada uma opção para a obtenção de estética na Odontologia. Sua microestrutura possui matriz vítrea (amorfa), cujos principais constituintes são Al2O3 (alumina), Na2O (sódio), K2O (potássio) e 60% de SiO2 (sílica), podendo apresentar partí culas cristalinas dispersas, como leucita, alumina ou fluorapatita. A leucita é a principal fase cristalina utilizada nesses materiais, e seu conteúdo em volume pode variar de 5% a 30%.

A soma de propriedades – como translucidez, opalescência e fluorescência – garante à cerâmica feldspática a capacidade de mimetizar os tecidos dentários com excelentes resultados estéticos. 

Entretanto, sua reduzida resistência à fratura, lascamento e o processo de crescimento lento de trincas pode acarretar problemas clínicos em pacientes com alterações parafuncionais ou mesmo em áreas de maior exigência de cargas mastigatórias.

Atualmente, tem sido muito discutida a seleção de material para tratamentos restauradores, surgindo questionamentos sobre a transmissão de cargas para o remanescente dental. A dúvida está entre o uso de materiais mais rígidos e fortes ou aqueles que reproduzem o comportamento biomecânico da estrutura dental intacta.

Acredita-se que a utilização de blocos de cerâmicas feldspáticas reforçadas por leucita pode ser uma alternativa interessante para reproduzir a performance fisiológica dos dentes intactos, de forma rápida e simples. Esses blocos possuem excelentes propriedades óticas e, devido à resistência flexural de 185 MPa, são indicados para restaurações unitárias totalmente cerâmicas com alto grau de previsibilidade. A aparência natural advém do efeito camaleão, pois possuem gradação de cor e fluorescência da dentina até a borda incisal, sendo usados em restaurações do tipo inlay, onlay, coroas e laminados (Figuras 1 a 8).

A ênfase em sobrevida dos materiais pode tirar o foco de uma importante questão, que é a preservação da estrutura dental. O material pode ser mais resistente e ter uma taxa de sobrevivência elevada, mas exigir um preparo mais invasivo, aumentando as chances de complicações biológicas. Por outro lado, se o material apresenta longevidade muito baixa, com falhas que exigem a remoção da restauração, submete-se o dente a novas e repetidas agressões.

Mas, quando a prótese sofre fratura, é sinal de insucesso? Não, existe a possibilidade de reparo. Porém, o uso de sistemas CAD/CAM agiliza esse fluxo de trabalho com precisão e versatilidade, limpeza nos procedimentos e reprodutibilidade, uma vez que as restaurações realizadas e arquivadas no sistema CAD/CAM podem ser rapidamente usinadas para substituir a fraturada. Independentemente disso, o mais importante é que, diante da falha do material restaurador, a estrutura biológica remanescente permaneça preservada.

Figuras 1 e 2 – Imagem virtual das restaurações dos elementos 11 e 21 planejadas, seguidas de um exemplo de fresagem de restaurações nos blocos IPS Empress CAD Multi.

 

Figuras 3 e 4 – Restaurações dos elementos 11 e 21 finalizadas no modelo de trabalho e restauração antes do tratamento de superfície para a cimentação.

 

Figuras 5 a 8 – Fotografias em close-up anterior e quadrante anterior, respectivamente antes e após o término do tratamento.

 

A partir de esforços combinados de empresas e pesquisadores,o mercado odontológico recebeu a cerâmica à base de dissilicato de lítio (LiS2). Dentro desse sistema, surgiu uma vitrocerâmica homogênea à base de LiS2 em forma de bloco para a tecnologia CAD/CAM. É única e combina uma excelente aparência estética com alta facilidade de utilização, além disso, possui quatro níveis de translucidez (MO, LT, MT e HT), blocos opalescentes (Impulse) e cores e tamanhos de blocos diferentes, que garantem versatilidade. Apresenta-se inicialmente no estágio cristalino intermediário (fase azul: a cor é criada pela microestrutura e composição da cerâmica vítrea). A resistência do material nesta fase intermediária é de 130-150 MPa. Após a fresagem, os blocos de IPS e.max CAD são cristalizados em aproximadamente 25 minutos (840ºC) e não contraem de modo significativo. A cristalização produz a alteração da microestrutura, que é o resultado de um crescimento controlado dos cristais de dissilicato de lítio. A transformação da microestrutura possibilita todas as propriedades físicas finais, com 360 MPa de resistência e as respectivas propriedades óticas.

Essa cerâmica pode ser utilizada para reconstruções unitárias ou múltiplas na forma monolítica, ou seja, em camada única, permitindo sua aplicação em áreas interoclusais reduzidas e garantindo preparos minimamente invasivos (Figuras 9 a 21). Além da vantagem mecânica, o dissilicato de lítio pode ser maquiado e origina em restaurações de excelente resultado estético.Estudos clínicos apontam uma taxa de sucesso de 94,8% a 100%, em períodos de sete a oito anos de acompanhamento.

Uma grande vantagem que pode ser atribuída a esse material é o fato de não apresentar alteração dimensional durante a cristalização. Na fase pré-cristalizada, a presença de cerca de 40% de cristais de metassilicato de lítio permite que sejam realizados ajustes oclusais e interproximais com maior facilidade.

Pode-se ressaltar que nem sempre o material mais resistente deve ser escolhido e que a falha de restaurações não deve ser considerada um insucesso, desde que haja a preservação do remanescente dentário. A argumentação pode variar, já que mudanças nos paradigmas podem ser muito bem-vindas quando há diferença conceitual em limitação e contraindicação.

Figuras 9 e 10 – Restaurações dos elementos 24 ao 27 em e.max CAD, após fresagem e cristalização seguida da pigmentação extrínseca.

 

Figuras 11 e 12 – Restaurações em e.max CAD antes e após a cristalização.

 

Figuras 13 e 14 – Vista oclusal das restaurações dos elementos 24 ao 27 em e.max CAD, após fresagem e cristalização, seguidas da pigmentação extrínseca.

 

Figuras 15 e 16 – Restauração no elemento 36 em e.max CAD após cristalização.

 

Figuras 17 a 20 – Confecção de troquel com a simulação da cor do substrato dental com IPS Natural Die Material, seguida da pigmentação extrínseca e imagens finais da restauração em diferentes vistas.

 

Figura 21 – Resultado final da coroa monolítica
em dissilicato de lítio IPS e.max CAD no elemento 36.

 

 

Guilherme Saavedra

Professor assistente do Depto. de Materiais Odontológicos e Prótese, e professor da especialidade de Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – ICT Unesp.