Publicado em: 27/02/2018 às 09h28

Materiais de uso indireto: conhecer para melhor utilizar

Renata Marques de Melo aponta que muitos cirurgiões-dentistas deixam de explorar outros materiais, além dos sistemas de zircônia e dissilicato.

As tecnologias por manufatura aditiva (impressão 3D) ou subtrativa (CAD/CAM) tendem a tornar o profissional menos dependente de serviços terceirizados e o impelem a tornar-se ainda mais afeito à composição e à característica dos materiais. Assim, bombardeado por uma infinidade de novos materiais restauradores, o dentista não pode mais pautar a decisão de qual material usar pelo laboratório ou pela propaganda dos fabricantes.

Nesse sentido, após medir algumas propriedades e caracterizar os constituintes de cerâmicas para CAD/CAM, Belli e colaboradores concluíram que todos os materiais deveriam ser nomeados com base na composição estrutural e não em apelos de marketing. Dessa forma, termos como “cerâmica infiltrada por polímero” (Enamic), resina nanocerâmica (Lava Ultimate) ou silicato de lítio reforçado por zircônia (Suprinity e Celtra) não expressariam o que esses materiais realmente são, segundo os autores.

Com o objetivo de tornar mais elucidativa a composição dos materiais cerâmicos, a classificação proposta por Gracis e colaboradores dividiu-os, resumidamente, em cerâmicas vítreas, policristalinas e aquelas com matriz cerâmica-resina. Esta última categoria de materiais foi incluída porque, de acordo com os autores, são produtos com propriedades semelhantes às da cerâmica, e também a American Dental Association (ADA) já os reconhecem como tal. As cerâmicas vítreas, antes obtidas apenas a partir do feldspato, hoje também são produzidas a partir de componentes sintéticos, como é o caso das leucíticas, as de dissilicato de lítio e as aluminas infiltradas por vidro (In-ceram Alumina, In-ceram Zircônia e In-Ceram Spinell). As cerâmicas policristalinas são as mais resistentes e, entre elas, estão a alumina e a zircônia estabilizadas. Existem ainda a alumina reforçada por zircônia e as zircônias reforçadas por alumina, isto é, materiais compostos, cujas vantagens sobre a zircônia seriam a menor suscetibilidade à degradação e a maior resistência, inclusive à fadiga.

Outra categoria de policristalino não disponível comercialmente é a zircônia e a alumina graduadas. Compostas de um vidro menos rígido na superfície, que infiltra a estrutura produzindo camadas gradualmente mais rígidas em direção ao interior do material, elas são bastante resistentes. Por fim, estão as cerâmicas com matriz resinosa, classificação importante, porém ainda confusa, já que os materiais dessa categoria não são exatamente os mesmos. Isso fora pontuado anteriormente em outro estudo1, que descreve o material Lava Ultimate como uma resina composta contendo partículas de zircônia em dimensões nano, e Enamic como sendo um material essencialmente vítreo sem material inorgânico adicional.

Outro aspecto importante é que, embora propriedades como resistência e estética sejam usadas pelos fabricantes para sugerirem as indicações de uso dos seus materiais, discernir os materiais se tornou essencial, já que as zircônias, antes usadas como infraestruturas devido à sua alta resistência e opacidade, agora podem ser usadas monoliticamente e podem parecer tão esteticamente agradáveis como as vítreas, que, por sua vez, podem ser encontradas em blocos ou pastilhas bastante opacos2.

Quase todos os materiais citados anteriormente estão disponíveis em blocos para CAD/CAM. Apesar disso, com a popularidade dos sistemas de zircônia e dissilicato, muitos dentistas deixam de explorar outros materiais e suas potencialidades. Para uma orientação atual, sugiro a leitura do artigo mencionado nesta resenha (A New Classification System for All-Ceramic and Ceramic-like Restorative Materials, Gracis et al., 2015), a fim de que o dentista tenha as suas próprias impressões sobre cada material.
 

Referências

1. Belli R, Wendler M, de Ligny D, Cicconi MR, Petschelt A, Peterlik H et al. Chairside CAD/CAM materials. Part 1: measurement of elastic constants andmicrostructural characterization. Dent Mater 2017;33(1):84-98.

2. Gracis S, Thompson VP, Ferencz JL, Silva NR, Bonfante EA. A new classification system for all-ceramic and ceramic-like restorative materials. Int J Prosthodont 2015;28(3):227-35.


 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.