Publicado em: 27/02/2018 às 09h49

Reconstrução intrarradicular adesiva com sistema de fibra de vidro

O profissional deve ter atenção para que nenhuma confusão durante a execução clínica reduza a longevidade clínica.

O sucesso da restauração dos dentes tratados endodonticamente depende de muitos fatores, como: contatos oclusais1-2, presença de contatos proximais3, localização do dente no arco4-5, instalação de coroa protética6-7, condições apical8 e periodontal13-14, e, principalmente, a qualidade e a quantidade do remanescente coronário e radicular disponível9-12. Frequentemente, os dentes tratados endodonticamente possuem estrutura coronária insuficiente, e a instalação de um núcleo/pino intrarradicular se torna necessária para a adequada retenção da restauração final, visando alcançar propriedades estéticas e biomecânicas comparáveis às de um dente intacto e vital, além de prevenir a recolonização bacteriana no conduto radicular13-14. Nesses casos, a quantidade de remanescente dental15-17, o tipo de material restaurador utilizado para o núcleo e para o preenchimento coronário10,18, o tipo de cimento resinoso19-20, a extensão do preparo21-22 e a oclusão precisam ser considerados. Este artigo teve por objetivo discutir os conceitos atuais sobre cimentação de pinos de fibra de vidro e reconstrução coronária.

Entender os fatores biomecânicos que afetam a condição do pino ou núcleo para reter a prótese e proteger a estrutura dental remanescente é fundamental para seu sucesso em longo prazo23. Quando um pino ou núcleo é cimentado no conduto  radicular, acontece uma considerável mudança na condição biomecânica do dente24. Portanto, o material do pino (fibra de vidro, quartzo, zircônia, ouro, metal ou titânio) determina a distribuição do estresse e tem um efeito significativo na concentração de forças durante a função mastigatória (Figura 1)24.

Figura 1 – O material do pino (fibra de vidro, quartzo, zircônia, ouro, metal ou titânio) determina a distribuição do estresse e tem um efeito significativo na concentração de forças durante a função mastigatória23.


 

Relato de caso clínico

O caso clínico a seguir descreve a utilização de um novo tipo de material para a reconstrução adesiva intracanal de dentes tratados endodonticamente, utilizando fibras de vidro independentes. Uma paciente do sexo feminino, com 23 anos de idade, sofreu um trauma prévio no elemento dental 11 e procurou tratamento odontológico para solucionar o desconforto estético (Figuras 2 e 3). Após a avaliação clínica e radiográfica do elemento dental em questão, optou-se por manter a endodontia previamente realizada e substituir o pino metálico por uma reconstrução intrarradicular com fibras de vidro independentes (Figuras 4 a 7).

Figuras 2 e 3 – Após trauma prévio, tratamento endodôntico e subsequente escurecimento do elemento dental 11, a paciente procurou por tratamento odontológico por estar insatisfeita com a estética do seu sorriso.

 

 

Figuras 4 a 7 – Embora a endodontia tenha sido considerada clinicamente adequada, com selamento periodontal e ausência de lesão periapical, havia um pino metálico que foi removido juntamente com a antiga restauração de resina composta.

 

O sistema escolhido foi o Rebilda GT (Voco – Cuxhaven, Alemanha), que se apresenta na forma de fibras de vidro isoladas, com quatro opções de quantidade de fibras (Figuras 8 a 10). Nesse sistema, pode-se inserir a quantidade de fibras necessárias, dependendo da situação clínica, dispensando o reembasamento dos pinos convencionais, como em casos de condutos alargados. Após a remoção do núcleo metálico, as fibras foram cimentadas com cimento resinoso, reconstrutor coronário dual Rebilda (Voco – Cuxhaven, Alemanha) e adesivo universal dual Futurabond Universal (Voco – Cuxhaven, Alemanha), Figuras 8 a 10. O preparo coronário foi guiado pelo enceramento diagnóstico, e o substrato permitiu a visualização da diferença entre dentina, resina e fibra de vidro (Figuras 11 a 13). O caso clínico foi finalizado após a cimentação de uma coroa com coping de zircônia (Zirkonzahn CAD/CAM) e cerâmica de cobertura CZR (Kuraray Noritake – Japão), confeccionada pelo TPD Cristiano Soares. Embora tenha sido um caso complexo e desafiador, o resultado alcançado foi bastante satisfatório (Figuras 14 a 17).

 

Figuras 8 a 10 – A escolha do pino de fibra GT depende do diâmetro do canal. Portanto, o sistema oferece tamanhos variados, conforme a necessidade de utilização. Após a cimentação do pino, ocorre a remoção do dispositivo que agrupa os feixes de fibra de vidro, para que se dissipem no interior do canal.

 

Figuras 11 a 13 – Aspecto do dente após o preparo guiado pelo enceramento, demonstrando as diferenças entre dentina, cimento resinoso e feixes de fibra de vidro.

 

Figuras 14 a 16 – Aspecto do elemento cerâmico após a cimentação e a diferença existente entre o início do tratamento até a sua conclusāo, transformando o caso complexo de um central unitário em um resultado satisfatório.

 

Figura 17 – Aspecto final do tratamento.


 

Considerações finais

O uso dos pinos de fibra de vidro convencionais cimentados com materiais resinosos continua sendo uma opção viável e vantajosa, quando comparada aos núcleos metálicos e cerâmicos. Mas, ao mesmo tempo, devido à grande quantidade de passos operatórios da técnica e diferentes materiais para cimentação disponíveis no mercado, o profissional pode se confundir na execução clínica desse tipo de restauração, resultando em redução da longevidade clínica.

Dentre as vantagens, está o selamento do conduto radicular logo após o término do tratamento endodôntico e a reconstrução coronária, o que diminui a possibilidade de contaminação do tratamento endodôntico e a fratura de cúspides sem suporte. O conhecimento dos materiais e suas indicações/limitações são de suma importância em quaisquer procedimentos nos dias de hoje.
 

Referências

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10. Fernandes AS, Dessai GS. Factors aff ecting the fracture resistance of post-core reconstructed teeth: a review. Int J Prosthodont 2001;14:355-63.

11. Strub JR, Pontius O, Koutayas S. Survival rate and fracture strength of incisors restored with diff erent post and core systems after exposure in the artificial mouth. J Oral Rehabil 2001;28:120-4.

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16. Nyman S, Lindhe J. A longitudinal study of combined periodontal and prosthetic treatment of patients with advanced periodontal disease. J Periodontol 1979;50:163-9.

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20. Cheung W. A review of the management of endodontically treated teeth: post, core and the final restoration. J Am Dent Assoc 2005;136:611-9.

21. Sterzenbach G, Karajouli G, Naumann M, Peroz I, Bitter K. Fiber post placement with core build-up materials or resin cements – an evaluation of diff erent adhesive approaches. Acta Odontol Scand 2011.

22. Monticelli F, Ferrari M, Toledano M. Cement system and surface treatment selection for fiber post luting. Med Oral Patol Oral Cir Bucal 2008;13:E214-21.

23. Phark JH, Sartori N, Oliveira L, Duarte Jr. S. Comprehensive guide for post and core restorations. QDT 2012;45-66.

24. Stern S. Restoring teeth following root canal retreatment. Endodontic Topics 2011;19:125-52.

 

Luiz Fernando Ortega

Especialista em Prótese, pós-graduado em Odontologia Estética e mestre em Dentística – UNG; Coordenador do curso de especialização em Dentística – F1 Cursos, São José do Rio Preto; Professor assistente do curso avançado em Odontologia Estética Multidisciplinar – EAP, APCD/Santo André.

 

 

 

 

 


 

Giuliano Zampieri Bof

Especialista em Ortodontia; Graduado em Odontologia; Membro do corpo clínico da Orttoc - Ortodontia e Oclusão.

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Eduardo Pena

Especialista em Periodontia; Especialista, mestre e doutor em Dentística; Professor dos cursos de especialização em Implantodontia e pós-graduação em Odontologia Estética – Centro Universitário Senac/SP; Coordenador do curso avançado em Odontologia Estética Multidisciplinar – EAP, APCD/Santo André; Coordenador do curso de especialização em Dentística – F1 Cursos, São José do Rio Preto.

 

 

 

 



 

Maristela Lobo

Especialista em Periodontia; Mestra em Cariologia; Doutora em Dentística; Professora dos cursos de especialização em Implantodontia e pós-graduação em Odontologia Estética – Centro Universitário Senac/SP.