Publicado em: 27/02/2018 às 09h53

Tons de cinza: compreendendo o “valor” da cor

Em sua coluna de estreia, Diego Klee debate o sistema de organização de cores, composto por três dimensões, representadas por matiz, croma e valor.

A partir dessa edição, a PróteseNews passa a contar com a participação do renomado professor Diego Klee, que prestigiará este espaço com dicas e informações clínicas para atingir a alta performance nos trabalhos executados.


A determinação e a interpretação da cor na Odontologia se baseiam no sistema de organização de cores desenvolvido por Albert Henry Munsell, composto por três dimensões, representadas por matiz, croma e valor.

• Matiz: é a cor base do dente, que deriva do corpo dentinário. Segundo a escala de cores Vita Classical, existem quatro matizes em Odontologia: A (predomínio de marrom-avermelhado), B (predomínio de amarelo-avermelhado), C (predomínio de cinza) e D (predomínio de cinza-avermelhado).

• Croma: é a intensidade do matiz e define o seu grau de saturação ou pureza.

• Valor: define o grau de luminosidade da cor, distinguindo as claras das escuras. Quando o dente é mais claro, quer dizer que possui um alto valor, já quando o dente é mais escuro, tem um baixo valor. O “valor” é a dimensão mais importante em uma restauração cerâmica. A correta compreensão e aplicação dessa dimensão tornarão a restauração mais natural.

Não existem cores “reais” na natureza; o que existe são os vários comprimentos de onda que compõem a luz, os quais são absorvidos e refletidos por todos os objetos à nossa volta. Os comprimentos de ondas refletidos penetram nos olhos, que enviam os sinais ao cérebro e vemos a cor. As restaurações e próteses que criamos, independentemente do material empregado, buscam, portanto, refletir comprimentos de onda da luz de maneira semelhante aos dentes naturais.

A retina é a parte do olho dos humanos responsável pela formação de imagens dos objetos visualizados. Nela, existem as células fotorreceptoras denominadas cones e bastonetes, que transmitem ao centro visual do cérebro os estímulos de luz e cor, através do nervo ótico e por meios químicos e elétricos.

Cones são as células que têm a capacidade de reconhecer as cores. Os três tipos de cones são sensíveis aos comprimentos de ondas do vermelho, do azul e do verde e parecem responsáveis pela visão de cor à luz do dia. Existem aproximadamente seis milhões de cones em cada olho humano.

Figura 1 – Situação inicial do caso. O elemento 12 apresentava uma faceta em resina composta e o elemento 22 apresentava uma coroa metalocerâmica sobre implante de hexágono externo.

 

Figura 2 – Após o clareamento dental, verifique como as restaurações dos dentes 12 e 22 passaram a se destacar negativamente em função da diferença evidente de valor (mais escuras) em relação aos dentes naturais.

 

Figura 3 – Remoção da faceta de resina composta e preparo para faceta cerâmica no elemento 12. Remoção da coroa do implante no elemento 22.

 

Já os bastonetes têm a capacidade de reconhecer a luminosidade (valor), ou seja, o quanto a cor é clara ou escura. Acredita-se que a retina humana possua aproximadamente 120 milhões de bastonetes concentrados mais externamente. São mais sensíveis à luz que os cones, entretanto, detectam apenas tons de cinza.

Essa discrepância quantitativa entre bastonetes e cones confere ao ser humano uma capacidade muito maior de perceber variações de valor das cores do que variações de matiz (cor propriamente dita) ou croma (pureza ou intensidade da cor). A correta seleção do valor, por essa razão, é a dimensão mais importante para o resultado final dos trabalhos estéticos em Odontologia Restauradora.

Fotografias coloridas de dentes naturais usadas como referência para a seleção de cor são excelentes métodos para comunicação com o laboratório. Para serem mais eficientes, a escala que mais se aproxima da cor desejada deve ser colocada ao lado do dente em questão – preferencialmente no mesmo plano – e fotografada. A fotografia dá uma descrição nítida da cor que está se buscando, além de evidenciar detalhes característicos dos dentes do paciente, bem como auxiliar na definição da translucidez incisal.

A foto digital é uma ferramenta particularmente interessante para a análise de alguns efeitos importantes para a reflexão da luz. Empregando-se programas de edição de imagens, a foto com a escala posicionada ao lado do dente poderá ser digitalmente convertida para o formato preto e branco (escalas de cinza). Como o valor é a qualidade (não a quantidade) do acinzentado da cor, uma fotografia em preto e branco de um objeto colorido é a imagem de seu valor. Assim, é possível comparar o valor da escala e do dente natural, confirmando ou não a correta seleção em relação a essa dimensão específica.

Figura 4 – Fotografia usada para a comunicação de cor ao ceramista. É importante que nessa foto apareça nitidamente: dentes naturais adjacentes ao(s) preparo(s); a escala com seu número correspondente, posicionada próxima aos dentes naturais, preferencialmente no mesmo plano, para neutralizar a ação do flash (em caso de dúvidas, posicione mais de uma escala na mesma tomada fotográfica); e substrato do dente preparado (em casos de dentes naturais preparados ou núcleos estéticos).

 

Figura 5 – Empregando-se programas de edição de imagens, a foto com a escala posicionada ao lado do dente poderá ser digitalmente convertida para o formato preto e branco, o que passa a ser a imagem de seus valores. Dessa maneira, é possível comparar o “valor” da escala e do dente natural, confirmando ou não a correta seleção dessa dimensão específica.

 

Figura 6 – Pilar protético fabricado por tecnologia CAD/CAM em zircônia tetragonal estabilizada por ítria (Y-TZP), com revestimento vestibular em cerâmica feldspática. Perceba o acesso ao parafuso em sua porção vestibular, devido à inclinação vestibular do implante.

 

Figura 7 – Facetas cerâmicas confeccionadas para os dentes 11 e 21 pelo ceramista Carlos Augusto Maranghello.

 

Figura 8 – Pilar cerâmico em posição. A cerâmica feldspática de recobrimento vestibular, além de estabelecer as características cromáticas semelhantes ao dente natural homólogo, possibilitará o condicionamento ácido (ácido fluorídrico) e silanização desse preparo para a cimentação adesiva da faceta cerâmica. O parafuso foi mascarado com cimento resinoso fotopolimerizável branco opaco (RelyX Veneer, 3M Espe, Estados Unidos) previamente à cimentação das facetas.

 

Figura 9 – Caso concluído após a cimentação das facetas (RelyX Veneer, 3M Espe, Estados Unidos).

 

Figura 10 – Foto final digitalmente convertida para o formato preto e branco, sendo possível comparar o “valor” das novas restaurações cerâmicas com os dentes naturais, confirmando a correta seleção dessa dimensão.

 

 

Diego Klee

Professor associado da disciplina de Prótese Parcial – UFSC; Doutor em Odontologia Restauradora e Prótese Dentária – Unesp/SJC.