Publicado em: 27/02/2018 às 09h54

Escaneamento digital: os desafios da Odontologia moderna

O sistema de escaneamento é a primeira etapa para a confecção de um trabalho em CAD/CAM, sendo a principal ferramenta para obter a imagem tridimensional das estruturas.

A precisão na cópia de detalhes para a obtenção dos modelos de trabalho é uma necessidade importante na clínica odontológica, pois é nessa fase que as informações que estão na boca do paciente resultarão na restauração final. A precisão nessa fase resultará em uma restauração bem adaptada, que somada ao correto plano de tratamento, garantirá o sucesso e a longevidade dos trabalhos protéticos. A utilização de materiais de moldagem fiéis e de fácil manuseio para reproduzir os preparos dentais, que estão cada vez mais minuciosos e conservadores, é imprescindível, independentemente do tipo de trabalho. Essa etapa é fundamental para o sucesso da reabilitação, portanto deve ser cuidadosamente planejada e executada.

Apesar da grande melhora na manipulação e precisão dos atuais materiais de moldagem1-2, um problema ainda recorrente é a qualidade na obtenção de moldagens e modelos para a confecção de próteses dentárias. Em um recente estudo realizado nos Estados Unidos, foi verificado que cerca de 50% das moldagens que chegam ao laboratório de prótese resultam em modelos inadequados ou imprecisos, sendo que 50% dos defeitos foram relacionados à técnica incorreta e 10% atribuídos à manipulação incorreta dos materiais3.

O sistema computacional CAD/CAM trouxe novas perspectivas para a Odontologia e permite atualmente, a partir do escaneamento do preparo, desenhar digitalmente a prótese desejada no software CAD e, em seguida, fresar o elemento na fresadora CAM a partir do material selecionado – que é adquirido em blocos pré-fabricados4-6. Com isso, o clínico reduz etapas críticas na confecção das próteses dentárias, sejam elas sobre dentes ou implantes. Isso porque as etapas laboratoriais – como confecção dos troquéis, delimitação dos preparos, enceramento, aplicação da cerâmica, entre outras – são eliminadas do processo, o que reduz a sensibilidade e a incorporação de erros durante o processamento. Além disso, os desenhos das restaurações ficam armazenados no sistema, possibilitando a reprodução (caso necessário). Por exemplo, a reprodução do desenho do provisório na restauração final ou eventuais necessidades de uma nova confecção da mesma restauração.

O sistema de escaneamento é a primeira etapa para a confecção de um trabalho em CAD/CAM, sendo a principal ferramenta para obter a imagem tridimensional das estruturas, seja sobre dente ou sobre implante. O escaneamento pode ocorrer de duas maneiras (Figura 1):

Figura 1 – Fluxograma de trabalho com a tecnologia CAD/CAM, utilizando escaneamento intraoral e de bancada.

 

1) Scanner intraoral: a captura da imagem é realizada diretamente em meio bucal (moldagem digital). É uma técnica que proporciona maior conforto ao paciente e praticidade ao dentista, dispensando a utilização de moldeiras, materiais de moldagem, confecção de modelos de gesso e, além disso, evita o desconforto do paciente. O sistema de fresagem da restauração pode ocorrer de duas maneiras: chairside (Figura 2), em que o escaneamento intraoral e a fresagem da prótese são realizados em consultório, ou inlab, no qual é realizado o escaneamento intraoral e o arquivo (em .STL) é enviado ao laboratório para a fresagem da peça7. O escaneamento intraoral, além de eliminar etapas clínicas, evita erros devido às distorções dos materiais de moldagens e dos materiais para a confecção de modelos, garantindo maior previsibilidade e agilidade ao processo8.

A precisão para obter modelos digitais por meio do escaneamento intraoral requer habilidade e será alcançada ao longo da curva de aprendizado do operador. Quando a impressão é realizada, o objeto a ser escaneado (preparo) permanece estático, enquanto o aparelho é movimentado sobre ele. Nesse momento, a alteração da distância entre o aparelho e o objeto pode afetar a precisão da imagem. Também é importante ressaltar que o afastamento dos tecidos moles não deve ser negligenciado pelo uso da tecnologia3, mantendo-se como uma fase fundamental no processo de obtenção dos modelos virtuais ou físicos/convencionais.

O mesmo aparelho pode também ser utilizado para a digitalização de modelos de gesso, podendo então ser usado como scanner de bancada. Outra vantagem é a possibilidade de avaliar a qualidade do preparo antes de enviar para a fresagem da peça, evitando gasto de tempo com ajustes ou repreparo.

 

Figura 2 – Sistema chairside Cerec AC com scanner intraoral Omnicam, ambos da empresa Sirona Dental Systems (Bensheim, Alemanha).

 

2) Scanner de bancada: a captura da imagem também pode ser realizada por meio da digitalização do molde ou do modelo de gesso. Esse método não elimina as etapas críticas da obtenção do molde e/ou modelo, o que gera um tempo maior para a confecção do trabalho, porém é uma técnica de grande praticidade para laboratórios, pois elimina as fases de confecção dos trabalhos, uma vez que irão ser desenvolvidos via CAD/CAM (Figura 3). Esse método apresenta maior precisão na digitalização do que os aparelhos intraorais, pois o feixe de luz (captação da imagem) permanece estático, enquanto o modelo é movimentado em uma distância fixa, evitando a distorção da imagem (Figuras 3 a 5).

 

Figura 3 – Confecção de uma prótese sobre implante a partir do modelo virtual obtido a partir do escaneamento de bancada (InEos X5, Sirona Dental Systems, Bensheim, Alemanha).

 

TABELA 1 – PRINCIPAIS EQUIPAMENTOS DE ESCANEAMENTO DIGITAL (PESQUISA REALIZADA EM 1/9/2017)

 

A digitalização da imagem é obtida por uma impressão ótica particular a cada empresa8-10 (Tabela 1), que utiliza tecnologia para a digitalização das imagens em três dimensões e possui um software compatível com essa imagem para realizar o desenho digital. Deve-se ter atenção à qualidade da imagem gerada, que precisa estar de acordo com a tecnologia do software e também da fresadora, para que ambos possam oferecer a tecnologia integral do equipamento.

 

Atualmente, esses sistemas possibilitam a confecção da estrutura a partir da visualização em 3D da margem do preparo, perfil de emergência, oclusão do paciente, montagem em articulador digital e seleção da cor dos dentes com escaneamento em cores naturais (Figuras 2, 6 e 7) – e permite ainda trabalhar com softwares de tomografia para a confecção de guias cirúrgicos. Há ainda a possibilidade de confeccionar peças unitárias ou múltiplas extensas em diversos materiais, desde polímeros, compósitos, cerâmicas, até metais6-7.

Figura 4 – Escaneamento de um modelo de gesso realizado com o sistema de bancada inEos X5 (Sirona Dental Systems, Bensheim, Alemanha).

 

Figura 5 – Sistema de escaneamento de bancada (E3, 3Shape A/S, Copenhague, Dinamarca).

 

Figura 6 – Sistema de escaneamento intraoral (3Shape Trios, 3Shape A/S, Copenhague, Dinamarca) com projeção de imagem em cores naturais.

 

Figura 7 – Sistema de escaneamento intraoral Cerec Omnicam (Sirona Dental Systems, Bensheim, Alemanha) com projeção de imagem em cores naturais.

 

As principais limitações desse sistema estão relacionadas ao custo de aquisição e ao treinamento para manuseio adequado (que por vezes pode apresentar uma curva de aprendizado lenta). Com relação ao custo, pode-se dizer que seria uma limitação em curto prazo, porém, se a escala for em médio e longo prazo, o sistema CAD/CAM se torna autossustentável, além de proporcionar inúmeras vantagens, como: a introdução de novos materiais, mais seguros e estéticos, e promover maior eficiência, agilidade e versatilidade no processamento das estruturas, com alto índice de qualidade das restaurações e melhor ajuste e durabilidade mecânica.

 

Referências

1. Rubel BS. Impression materials: a comparative review of impression materials most commonly used in restorative dentistry. Dental Clinics of North America 2007;51(3):629-42.

2. Donovan TE, Chee WW. A review of contemporary impression materials and techniques. Dent Clin North Am 2004;48(2):445-70.

3. Rau CT , Olafsson VG, Delgado AJ, Ritter AV, Donovan TE. The quality of fixed prosthodontic impressions: an assessment of crown and bridge impressions received at commercial laboratories. J Am Dent Assoc 2017;148(9):654-60.

4. Miyazaki T, Nakamura T, Matsumura H, Ban S, Kobayashi T. Current status of zirconia restoration. J Prosthodont Res 2013;57(4):236-61.

5. Bernardes SR, Tiossi R, Sarton IAM, Thomé G. Tecnologia CAD/CAM aplicada à prótese dentária e sobre implantes. Jornal Ilapeo 2012;6(1):8-13.

6. Kayatt FE, das Neves FD. Aplicação dos sistemas CAD/CAM na Odontologia Restauradora. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

7. Mesquita AMM et al. A tecnologia CAD/CAM e a zircônia a serviço da prótese sobre implante. PróteseNews 2015;2(3a):51-70.

8. Birnbaum NS, HB Aaronson. Dental impressions using 3D digital scanners: virtual becomes reality. Compend Contin Educ Dent 2008;29(8):494-505.

9. Renne W, Ludlow M, Fryml J, Schurch Z, Mennito A, Kessler R et al. Evaluation of the accuracy of 7 digital scanners: an in vitro analysis based on 3-dimensional comparisons. J Prosthet Dent 2017;118(1):36-42.

10. Hack GD, Patzelt SB. Evaluation of the accuracy of six intraoral scanning devices: an in-vitro investigation. ADA Professional Product Review 2015;10(4):1-5.

 


 

Coordenação:

Guilherme Saavedra

Professor assistente do Depto. de Materiais Odontológicos e Prótese, e professor da especialidade de Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – ICT Unesp.

 

 

 

 

 

 

 

 

Nayara Barchetta

Mestre e doutoranda em Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos/SP, Unesp.

 

 

 

 

 

 

 


Guilherme Andrade

Mestrando em Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos/SP, Unesp.