Publicado em: 11/06/2018 às 10h30

Restaurações ultrafinas de zircônia em zona estética

Renata Marques de Melo comenta a escassa evidência científica sobre a efetividade do tratamento e baixa capacidade de união da zircônia às resinas.

No artigo Ultrathin Monolithic Zirconia Veneers: Reality or Future? Report of a Clinical Case and One-year Follow-up, Souza e colaboradores nos desafiam a pensar que as zircônias translúcidas são materiais possíveis de serem utilizados em restaurações ultrafinas no setor anterior. Após uma breve introdução sobre a evolução das zircônias, sobretudo de suas características óticas quando adquiriram maior translucidez, os autores comentam os potenciais entraves ao uso desse material em restaurações ultrafinas: escassa evidência científica sobre a efetividade do tratamento e baixa capacidade de união da zircônia às resinas.

Também destacam que a pouquíssima retenção mecânica proveniente das características do preparo dental torna ainda mais desafiadora a manutenção da cimentação adesiva em longo prazo. Para demonstrarem as fases do tratamento, foi apresentado o relato do caso clínico de uma jovem paciente insatisfeita com seu sorriso, com acompanhamento de um ano. Após um cuidadoso planejamento virtual, o sorriso desarmônico com diastemas e contorno gengival inadequado foi modificado com cirurgia de aumento de coroa e clareamento. Em seguida, foram obtidos os modelos e, a partir deles, o mock-up. Após verificação dos contatos oclusais com mock-up, preparos uniformes de 0,3 mm dos seis dentes anteriores foram realizados e escaneados. Então, as restaurações ultrafinas de zircônia translúcida (Prettau anterior – Zirkonzahn – Gais, Suíça) foram usinadas em CAD/CAM, caracterizadas e provadas com pasta try-in. Antes da cimentação adesiva, os autores escolheram a silicatização (Cojet, 3M Espe) seguida da aplicação de silano com MDP (Monobond Plus, Ivoclar Vivadent) e sistema adesivo (Excite F, Ivoclar Vivadent) como tratamento da superfície da zircônia. Não foram necessários ajustes após a colagem com cimento resinoso fotopolimerizável e remoção dos excessos.  

Depois da cimentação, alguns aspectos clínicos foram relevantes na opinião dos autores1. Em primeiro lugar, apesar das cerâmicas vítreas serem reconhecidamente mais translúcidas do que as zircônias, a restauração ultrafina com 0,3 mm de espessura produziu translucidez, demonstrada pela mudança da cor em função do tipo de pasta try-in. Além disso, a resistência superior da zircônia em comparação à fragilidade dos materiais vítreos facilitou a manipulação da restauração de zircônia durante a prova. O procedimento de silicatização associado a um material contendo 10-MDP foi escolhido porque a literatura já demonstrara maior longevidade das restaurações feitas com esse protocolo. Segundo informações dos autores1, a restauração já durara mais de dois anos. Com isso, o trabalho fornece importantes dados para o clínico que deseja planejar e cimentar adequadamente restaurações ultrafinas em zircônia translúcida, e evidências de um bom desempenho em curto prazo. Naturalmente, trata-se apenas do relato de um caso clínico e, por isso, os procedimentos não podem ser generalizados. Por exemplo, ao contrário do relato1, pode haver a necessidade de ajuste oclusal e de utilização de placa oclusal no caso de bruxismo ou parafunção2-3. Os resultados estéticos também dependem do material e de caracterização adequada, pois os pacientes às vezes não se mostram totalmente satisfeitos3.

Portanto, os autores1 enfatizam a necessidade de ensaios clínicos randomizados controlados para que se possa atestar a eficácia e longevidade da terapia com zircônias de alta translucidez. 

 

Referências

1. Souza R, Barbosa F, Araújo G, Miyashita E, Bottino MA, Melo R et al. Ultrathin monolithic zirconia veneers: reality or future? Report of a clinical case and one-year follow-up. Oper Dent 2018;43(1):3-11.

2. Resende TH, Reis KR, Schlichting LH, Magne P. Ultrathin CAD-CAM ceramic occlusal veneers and anterior bilaminar veneers for the treatment of moderate dental biocorrosion: a 1.5-year follow-up. Oper Dent 2018.

3. Hansen TL, Schriwer C, Oilo M, Gjengedal H. Monolithic zirconia crowns in the aesthetic zone in heavy grinders with severe tooth wear – an observational case-series. Journal of Dentistry 2018;72.

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.