Publicado em: 10/08/2018 às 12h31

Dr. Bumbum: o que a Odontologia precisa aprender

Morte trágica de bancária amplia debate sobre os perigos de procedimentos feitos de maneira inadequada.

Durante o último mês de julho, nós fomos bombardeados com o caso de um médico que fazia procedimentos cirúrgicos estéticos em sua residência particular, um apartamento de cobertura localizado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Denis Cesar Barros Furtado, de 45 anos, que se apresentava como Dr. Bumbum, e a mãe dele, Maria de Fátima, de 66 anos, também médica, foram indiciados pela morte de Lilian Quezia Calixto, bancária de 46 anos que se submeteu a um procedimento estético com o médico no dia 14 de julho. Ela teve complicações graves horas depois e faleceu na madrugada do dia 15.

Segundo o boletim médico divulgado pelo hospital Barra D'or, onde Lilian foi socorrida, a hipótese inicial era de que ela sofreu uma embolia pulmonar devido à aplicação do silicone. O documento informa que Lilian chegou lúcida ao hospital e contou que tinha sido submetida a um implante de cerca de 300 mililitros de silicone em ambos os glúteos.

André Maranhão, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, alerta que o uso do PMMA (polimetilmetacrilato) é perigoso, especialmente caso penetre em alguma veia. Vale lembrar que a região do bumbum é bastante vascularizada. "O risco da utilização do polimetilmetacrilato em largo volume é pegar algum vaso sanguíneo e produzir alguma situação de interrupção do fluxo, o que a gente chama de embolia, ou ter uma obstrução que possa gerar alguma necrose", afirmou.

O Dr. Bumbum e sua mãe possuíam uma extensa ficha criminal. O médico é réu em mais de dez processos no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, dentre eles: homicídio (1997), porte de arma (2003), crime contra a ordem pública (2003) e resistência à prisão (2006 e 2007).

Maria de Fátima, a mãe do Dr. Bumbum, teve o registro médico cassado em janeiro de 2015, segundo o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio (Cremerj). Isso aconteceu por causa de uma série de infrações, como propaganda enganosa, permissão para que o nome circule em qualquer mídia em matérias desprovidas de rigor científico, realização de propaganda de método ou técnica que não são aceitos pela comunidade científica e promessa de bons resultados a qualquer tipo de tratamento.

As redes sociais ficaram infestadas de comentários a respeito deste episódio. A maioria deles, como não poderia ser diferente, criticando o médico, que era uma pessoa com complicações na Justiça e exercia a Medicina de forma criminosa. Contudo, alguns comentários dirigiram-se à responsabilidade dos pacientes ao escolherem um profissional de Saúde para serem atendidos. Como alguém pode se submeter a procedimentos cirúrgicos estéticos em um apartamento residencial? Como não procurar informações oficiais do profissional que irá lhe atender?

Muitos clientes elegem o preço como o principal critério para a escolha de um profissional. (Imagem: Shutterstock)

 

Acredito que na Odontologia – e em outras áreas da Saúde – sofremos deste mesmo problema. Muitos clientes elegem o preço como o principal critério para a escolha de um profissional. Os valores atrativos oferecidos por muitos colegas levam os pacientes a “esquecerem” os outros detalhes que envolvem uma boa prática da Medicina e da Odontologia. Quando o assunto é a estética, então, isto piora muito. Os pacientes que procuram este tipo de atendimento parecem estar dominados por uma comoção incontrolável de ter seus dentes mais brancos ou seu bumbum mais empinado.

Não se trata de eximir a responsabilidade do profissional, seja ele médico, dentista, fisioterapeuta ou fonoaudiólogo, mas sim de lançar um olhar para a falta de critério com que as pessoas realizam a escolha do seu profissional de saúde. No caso da Odontologia, é gritante a maneira errada com que muitos pacientes optam por este ou aquele profissional. Com a desculpa – muitas vezes infundada – de não possuírem recursos, deixam-se levar por preços tentadores, submetendo-se a procedimentos em locais espúrios, muitas vezes realizados por profissionais desabilitados.

É inegável o esforço dos órgãos competentes (Conselhos Federais e Regionais) em orientar os pacientes sobre os riscos que estão correndo ao realizar determinados tipos de procedimentos em locais inadequados, conduzidos por profissionais despreparados. Porém, isto ainda não é suficiente, já que o ser humano se recusa a aceitar as orientações e prefere seguir o seu instinto ou a opinião de um amigo. Obviamente, os profissionais são os primeiros nesta escala a ter responsabilidade sobre os seus pacientes. Mas, enquanto os clientes também não se conscientizarem minimamente dos valores morais e éticos que devem ser levados em consideração no momento da escolha de um profissional de Saúde, casos como o do Dr. Bumbum continuarão a existir.

(Com informações do site G1)
 

“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.” (Galatas 5,24-26)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br