Publicado em: 24/08/2018 às 09h26

Tomo cuidado em usar a técnica de cimentação, mas continuo tendo fraturas em restaurações cerâmicas. O que pode levar a estas fraturas?

Na coluna Pergunte ao especialista, Eduardo Miyashita responde aos leitores da revista PróteseNews.

Tomo cuidado em usar a técnica de cimentação indicada pelos fabricantes e mudei de laboratório, mas continuo tendo fraturas em restaurações cerâmicas. Também pergunto ao paciente e ele não relata que sentia a mordida alta. O que pode levar a estas fraturas?

Pergunta enviada por Gustavo Almeida, de São Paulo (SP).

 

Eduardo Miyashita - Vários são os fatores ou associação de fatores de risco que podem promover fraturas nas restaurações cerâmicas. As cerâmicas usadas em Odontologia podem ser de microestrutura vítrea, como as porcelanas feldspáticas e a fluorapatita, que são usadas geralmente como material de cobertura estética para copings, e infraestruturas de dissilicato de lítio (por exemplo, e.max Press/CAD) ou zircônia. Estas cerâmicas são mais friáveis e necessitam de um desenho da infraestrutura que proporcione suporte de 1 mm à cerâmica ao redor, principalmente nos casos de pacientes com bruxismo. Ou seja, o que varia é a espessura da infraestrutura personalizada a cada caso, mantendo uma espessura uniforme da cerâmica de cobertura.

As cerâmicas de dissilicato de lítio e a zircônia, além de infraestrutura, podem ser usadas na forma monolítica, sem a necessidade de cobertura cerâmica com maquiagem ou pintura superficial, o que proporciona maior resistência da restauração com menor espessura. São recomendadas espessuras mínimas de 0,8 mm a 1 mm nos casos de pacientes com bruxismo que apresentam maior risco à fratura de dentes e restaurações.

Nos pacientes com bruxismo, o risco de fratura de dentes e restaurações aumenta consideravelmente. A frequência e a intensidade do bruxismo podem variar ao longo da vida, sendo evidenciadas em situações de estresse, alterações metabólicas e com o uso de drogas e medicações. A estratégia restauradora é proporcionar contatos bilaterais e simultâneos em todos os dentes posteriores, com um guia de desoclusão efetivo pelos caninos nos movimentos excursivos. Quando isso não é possível, uma alternativa é adotar dispositivos intraorais que proporcionem este padrão oclusal para os pacientes com bruxismo do sono, entretanto seu uso nem sempre é realizado pelo paciente que não apresenta dor.

A fratura pode ocorrer nos pacientes que apresentam o bruxismo em vigília, neste caso, o autocontrole ou o ensino de técnicas de controle cognitivo-comportamentais para evitar apertar os dentes é importante, como utilizar adesivos e lembretes no monitor de computador, smartphones e relógio, ou ainda utilizar aplicativos com esta finalidade (por exemplo, “desencoste seus dentes”).

Após o ajuste da cerâmica com pontas diamantadas, é importante usar borrachas específicas para o polimento cerâmico. Isso porque os materiais monolíticos, por serem mais “duros”, necessitam de borrachas específicas para o seu polimento.

Nem sempre o uso de materiais de maior resistência mecânica é a melhor solução, pois a carga aplicada será dissipada ao periodonto ou ao implante, o que leva a outras sequelas além da fratura da restauração.

 

Figura 1 – Fratura de cerâmica vítrea com pouco espaço interoclusal, com colagem em dentina e margens em esmalte.

 

Figura 2 – Fratura de cerâmica vítrea de cobertura aplicada sobre coping de zircônia, com pouca espessura oclusal e com desenho de coping sem suporte para a cerâmica na área proximal.

 

Figura 3 – Fratura da cerâmica de cobertura nos dentes 45 e 47 decorrente de bruxismo de apertamento dentário. No dente 45, o coping não apresenta suporte para a cerâmica na área proximal. No dente 47 não há espaço para a cerâmica de cobertura e o desenho do coping não proporciona suporte para a cerâmica.

 

Figura 4 – Fratura das cúspides linguais em dente vitalizado com ampla restauração ocluso-proximal de amálgama de prata, com perfuração da superfície oclusal da restauração e decorrente do bruxismo de apertamento dentário. Nesta situação, o risco de fratura de uma restauração cerâmica é aumentada, devido ao bruxismo de apertamento dentário e ao pouco espaço interoclusal para a restauração.

 

Figura 5 – Fratura de restaurações múltiplas promovida pela propagação de trincas decorrentes do bruxismo de apertamento dentário, que favorece a microinfi ltração da interface adesiva e a ocorrência de cáries. Observe que os dentes 13 e 14 não apresentam faceta de desgaste dentário.

 

Figura 6 – Além da fratura das restaurações, as trincas promovidas pelo apertamento dentário levam ao comprometimento endodôntico e dentário. Observe no dente 17 a trinca no sentido disto-oclusal em direção ao assoalho da cavidade.

 

Figura 7 – A placa intraoral é uma opção para o controle dos efeitos do bruxismo e usada como um protetor dentário durante o sono.

 

Figura 8 – A placa intraoral deve promover contatos bilaterais e simultâneos.

 

Figura 9 – A placa intraoral deve apresentar preferencialmente guias que promovam desoclusão dos dentes posteriores nos movimentos excursivos da mandíbula.

 

Figura 10 – A placa intraoral deve apresentar preferencialmente guias que promovam desoclusão dos dentes posteriores nos movimentos excursivos da mandíbula.

 

 

 

Eduardo Miyashita
 

Professor titular do Depto. de Odontologia, disciplina de Prótese Dental – Unip/SP; Doutor em Odontologia Restauradora – Unesp/SJC.