Publicado em: 24/08/2018 às 10h05

Um olhar atual sobre a manufatura aditiva em Odontologia

A tecnologia possibilita a criação de novos materiais com características diferentes em uma mesma estrutura, sem fazer mais do mesmo.

O CAD/CAM (computer aided design-computer aided manufacturing) em Odontologia se tornou um marco tecnológico que possibilitou diminuir o tempo de produção de restaurações que podem ser usinadas com precisão. O material usado para este fim é bastante homogêneo e pouco afetado pelas condições de operação4.

Dessa forma, esse método de processamento por remoção de material (subtrativo) consolidou-se em consultórios e laboratórios de prótese, embora ainda não seja considerado rotineiro na realidade brasileira.

De outro lado, a tecnologia conhecida como prototipagem rápida ou impressão 3D contrasta com a anterior, por ser um tipo de manufatura aditiva. Ela apresenta múltiplas possibilidades, como confecção de guias cirúrgicos para implantes, modelos de prótese, dispositivos ortodônticos, implantes ortopédicos e maxilofaciais, dentre outros2-4. Conceitualmente, a impressão 3D é a criação de objetos tridimensionais a partir de pós e aglutinantes que são depositados em camadas subsequentes. O objeto é virtualmente obtido por um software CAD ou por escaneamento. As principais técnicas de impressão são a sinterização seletiva por laser, estereolitografia, manufatura de objetos laminados e impressão com tinta. Em suma, camadas de material são depositadas gradativamente e adquirem sua máxima resistência com fontes de luz e/ou calor. Quanto aos materiais, polímeros, metais e cerâmicas, podem ser todos processados com esse tipo de tecnologia.

Com o tempo, a motivação para o uso da impressão 3D foi mudando da obtenção rápida de objetos com formas geométricas complexas (por isso o termo anterior para designá-la era prototipagem rápida) para a criação de objetos cujas propriedades físicas são atualmente a maior preocupação5. Assim, um dos materiais mais processados por essa técnica são os polímeros. E o que dizer dos cerâmicos obtidos com manufatura aditiva? Teriam o mesmo desempenho que aqueles obtidos por CAD/CAM?

Com CAD/CAM obtivemos tal refinamento das restaurações cerâmicas que pouco requer ajustes adicionais com técnicas manuais. O bloco para usinagem é bastante homogêneo (poucos defeitos) e propicia uma restauração de mesma qualidade. Já para imprimir cerâmicas monolíticas, é possível usar o jateamento de suspensão cerâmica com partículas submicrométricas (“tinta”); após a impressão, a restauração é sinterizada para alcançar o nível de densificação e propriedades mecânicas suficientes5. Autores3 apontam algumas limitações desse método, quando se processam estruturas de 3-YTZP: a composição e o preparo da solução devem ser melhorados para obter estruturas mais homogêneas; o desenvolvimento de métodos de remoção do aglutinante e sinterização devem ser mais eficientes e melhores, para que a restauração final seja a mais densa possível. Esses pontos demonstram que a manufatura aditiva não solucionou os problemas para obtenção de próteses cerâmicas satisfatórias, pois não conseguiu minimizar a quantidade de defeitos intrínsecos.

Assim, como bem pontuou alguns autores1, antes de sermos atraídos por qualquer tecnologia é preciso ter a certeza de que o equipamento e o método em questão desempenham sua função pelo menos tão bem quanto os métodos convencionais. É preciso também um novo olhar para essa tecnologia, isto é, a possibilidade de criar novos materiais com características (cores, propriedades mecânicas e texturas) diferentes em uma mesma estrutura. Esta é uma maneira nova de utilizá-la e de não somente fazer mais do mesmo.

 

Referências
1. Dawood A, Marti Marti B, Sauret-Jackson V, Darwood A. 3D printing in dentistry. Br Dent J 2015;219(11):521-9.
2. Diment LE, Thompson MS, Bergmann JHM. Clinical efficacy and effectiveness of 3D printing: a systematic review. BMJ Open 2017;7:e016891.
3. Hezhen L, Song L, Jialin S, Jing M, Shen Z. Dental ceramic prostheses by stereolithography-based additive manufacturing: potentials and challenges. Advances in Applied Ceramics 2018;1-7(10.1080/17436753.2018.1447834).
4. Zaharia C, Gabor A, Gavrilovici A, Stan A, Idorasi L, Sinescu C et al. Digital Dentistry – 3D printing applications. Journal of Interdisciplinary Medicine 2017;2(1):50-3.
5. Zocca A, Colombo P, Gomes CM, Günster J, Green DJ. Additive manufacturing of ceramics: issues, potentialities, and opportunities. J. Am. Ceram. Soc. 2015;98:1983-2001.

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.