Publicado em: 24/08/2018 às 10h21

Daniel Harnist: um francês de alma brasileira

Atualmente com 75 anos, Harnist contabiliza muitas conquistas profissionais e uma rica trajetória acadêmica.

Daniel Harnist acompanhou as transformações da Odontologia nas últimas cinco décadas. (Ilustração: Lézio Júnior)


Por Andressa Trindade


Em 1947, com apenas cinco anos de idade, Daniel Jacques Rolland Harnist veio de Paris (França) para o Brasil – mais exatamente para o Rio de Janeiro (RJ), onde construiu sua vida. Atualmente com 75 anos, contabiliza muitas conquistas profissionais, uma rica trajetória acadêmica e uma memorável história de quem acompanhou as principais transformações da Odontologia nas últimas cinco décadas.

Casado com Maria Luiza, pai de três filhos e avô de quatro netos, Harnist continua na ativa em seu consultório, porém, ele faz questão de reservar um tempo para se dedicar às partidas de tênis, assistir jogos de futebol, basquete e vôlei, viajar com a família e ouvir música – de preferência blues e jazz.

Formado em 1967 pela Faculdade de Odontologia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), logo após a graduação partiu para uma vivência internacional. Entre 1968 e 1970 conquistou o master of science in Restorative Dentistry pela Universidade de Michigan (Estados Unidos), onde posteriormente foi professor assistente do Depto. de Coroas e Pontes, entre 1972 e 1973. “O estopim para esse período no exterior foi um curso de seis meses que fiz na Universidade de Michigan, quando tive a oportunidade de identificar minhas lacunas educacionais e minhas deficiências técnico-científicas. Com o apoio do meu conselheiro, o Dr. Frank Comstock, fui incentivado a aplicar para o mestrado no Depto. De Prótese Fixa, em tempo integral por dois anos. Os estudos que desenvolvi nessa época me levaram a importantes pesquisas e ao convite para lecionar nessa universidade sob a orientação do Dr. Joseph A. Clayton”, acrescenta.
 

Aos 75 anos, Daniel Harnist ainda atende no consultório. (Fotos: acervo pessoal)

 

Esse período nos Estados Unidos deu a Harnist o impulso para deslanchar na carreira e  intensificar o interesse pela Odontologia, resultando em centenas de cursos e palestras assistidas e ministradas no Brasil e no exterior. “Sempre quis divulgar a Ciência, sem jamais ter tido vínculo com qualquer empresa”, afirma.

Depois que retornou ao Brasil, foi professor assistente da disciplina de Prótese e Oclusão, e professor adjunto da disciplina de Prótese, ambos os cargos ocupados na Faculdade de Odontologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no período de 1983 a 1993. As funções acadêmicas foram conciliadas com o consultório inaugurado em 1971, no bairro de Copacabana, mesmo endereço que funciona até hoje, mas que há 21 anos conta com o reforço do filho, o endodontista Alexandre Harnist – o único a seguir os passos profissionais do pai. Para Harnist, além de ser motivo de orgulho, a presença de Alexandre levou renovação e novos pontos de vista à clínica, o que inspira a equipe a progredir constantemente. Com mais de 50 anos de profissão, ele também se envolveu e apoiou entidades de classe. É membro vitalício da Academia Americana de Prótese Fixa, faz parte do International College of Dentists e da The Francis Vedder Society of Crown and Bridge Prosthodontics, é membro fundador e ex-presidente do Instituto Odontológico Wladimir Pereira e membro honorário da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética.

Ao lado de Alexandre Harnist,
único filho que seguiu
a mesma carreira do pai.
Atuante em diversas entidades de classe,
o protesista tem na lapela o distintivo da
American Crown and Bridge Prosthodontic Society.

 

CIÊNCIA E ENSINO: DUAS PAIXÕES

Harnist faz parte do seleto grupo da Odontologia brasileira que valoriza o ensino. “Infelizmente, os centros formadores estão oprimidos pelo desinteresse na educação e pela falta de verbas. Vemos como exemplo a Coreia do Sul, Finlândia, Dinamarca e Suécia, que investiram na educação e em seus professores, e hoje mostram alto nível de desenvolvimento. Precisamos de um plano educacional sério, de longo prazo, para vermos florescer ainda mais as nossas instituições”, comenta ao enfatizar o quanto o incentivo à pesquisa é primordial e precisa ser estimulado. “Não posso deixar de reconhecer grandes nomes nacionais que ajudaram e continuam ajudando na disseminação do conhecimento, como Marco Antonio Bottino, Sebastião Simões Gomes, Edy Sá Carneiro, Waldyr Janson, Antonio Bacelar de Resende, Wilson Sendyk, Reinaldo Todescan e Carlos Alberto Dotto, dentre muitos outros”, menciona.

Assumidamente um defensor da Ciência e da Educação, o protesista acrescenta em sua trajetória acadêmica a melhor forma de compartilhar conhecimento: produziu muitos trabalhos científicos que foram de enorme contribuição para as gerações de cirurgiões-dentistas. Suas publicações se concentraram principalmente entre os anos 1970 e final dos anos 1980. Dentre os trabalhos, ganham destaque: Avaliação do gel acrilamida como material de impressão, elaborado quando ainda estava na Universidade de Michigan; Estabilidade dimensional e precisão de materiais de impressão de borracha, publicado no periódico Australian Dental Journal; Registrosgráficos de movimentos mandibulares, publicado no Michigan Dental Association; Brasil: o país da Estética, aceito pelo francês Technologie Dentaire; e Pantografia computadorizada – avaliação in vitro, sua tese de livre docência na Uerj.

Corpo docente
do Depto. de Coroas e Pontes
da Universidade de Michigan, em 1972.
Junto com os professores Rich ard McPhee, William Kotowicz, Max Kornfeld, Joel Zahler e Joseph A. Clayton durante um encontro científico da Vedder Crown and Bridge Society, em 1969, em Gailord, Michigan.

 

Apaixonado por tênis, ele esteve no torneio de Roland Garros, Paris, em 2015 e em 2017.

 

CONSTANTE EVOLUÇÃO

O protesista vivenciou o desenvolvimento e a repercussão dos principais avanços tecnológicos na Odontologia e soube agregar as inovações à prática clínica, sempre visando a otimização dos resultados dos tratamentos. Um deles é o estereomicroscópio, um equipamento ótico que permite a visualização ampliada e tridimensional, o qual foi apresentado a ele pelo Dr. Sam Ursu, em 1970. “Foi uma transformação e, desde então, temos usado este instrumento tanto no laboratório quanto na clínica”, explica.

Segundo Harnist, para entender o progresso e o desenvolvimento da Prótese Dentária, é preciso considerar também os profissionais que se dedicaram às áreas de Dentística, Materiais Dentários, Oclusão, Endodontia, Cirurgia, Periodontia e Implantodontia, pois trouxeram novas informações em relação à saúde bucal dos pacientes. Em conjunto com os esforços deles, a evolução da computação, da automação, dos materiais, dos conhecimentos biológicos e da união das diversas especialidades proporcionou uma grande transformação na Odontologia e, consequentemente, na Reabilitação Oral por meio de próteses.

Para ele, a era digital está interconectando e acelerando a troca de conhecimento, por isso é tão importante trabalhar para familiarizar os jovens às novas ferramentas, rever os currículos de cursos e faculdades, e estar preparado para a revolução em andamento. Em sua opinião, a semente foi plantada e está se desenvolvendo, já que o Brasil é referência internacional em Odontologia. “Isso é fruto do trabalho da nova geração de profissionais, como Marcelo Calamita, Christian Coachman, Victor Clavijo, Dickson Fonseca, José Roberto Moura, Claudio Pinho, Mario Groisman, Guaracilei Maciel Vidigal Jr., Glécio Vaz de Campos, entre tantos outros”, finaliza.

No registro de 1969, Maria Luiza (esposa de Harnist) aparece ao lado dos sogros.