Publicado em: 24/08/2018 às 10h30

Enceramento diagnóstico na era digital

O enceramento diagnóstico apresenta soluções personalizadas para o planejamento do caso e oferece, por meio de estudo prévio, uma resolução clínica ao paciente.

De repente, a tecnologia evolui rapidamente, muda tudo e o que fazíamos de forma analógica passa a ser realizado digitalmente. A busca incansável pela perfeição e pela naturalidade sempre foi o objetivo de todos os dentistas e técnicos. A enorme complexidade em replicar um dente, com todas as suas características, é um desafio que precisa ser sempre superado.

As novas técnicas associadas a materiais restauradores modernos podem ser inúteis se o resultado final não atingir as expectativas estéticas do paciente. Por esse motivo, a equipe interdisciplinar deve se munir de todas as ferramentas possíveis para melhorar a visualização dos problemas estéticos, criar soluções e apresentá-las de forma eficaz para o paciente, e guiar com precisão os procedimentos clínicos e laboratoriais para atingir resultados previsíveis. A utilização de ferramentas digitais para aprimorar e facilitar o trabalho em equipe e a comunicação com o paciente passa a ser fundamental nos dias de hoje – aliás, essa é a chave do sucesso, pois, como sabemos, a comunicação visual é a mais impactante.

São inúmeros os benefícios em adicionar a tecnologia aos processos laboratoriais, em particular os planejamentos diagnósticos e os provisórios, o que tem levado à diminuição do tempo de execução e, consequentemente, ao menor prazo de entrega. Além da redução dos custos, que é um dos melhores resultados nos processos digitais, existe um claro aumento da precisão, pois os planejamentos digitais e os provisórios digitais conseguem atingir detalhes realistas que auxiliam ainda mais o dentista e o laboratório (por depender de menos etapas de confecção). Os planejamentos e os provisórios são confeccionados a partir de arquivos enviados de scanners intraorais, modelos de gesso escaneados em scanner de bancada ou até mesmo escaneando as moldagens convencionais.

O objetivo de todo enceramento diagnóstico dental deve ser criar um design que se integre com as necessidades funcionais, estéticas e emocionais do paciente. O enceramento diagnóstico pode ser definido como um procedimento no qual as restaurações ou reabilitações são planejadas e desenvolvidas em cera para determinar e guiar procedimentos clínicos e laboratoriais.

O enceramento diagnóstico analógico ou convencional pode ser feito a partir do modelo de gesso, em que as porções desgastadas dos dentes e/ou de dentes ausentes são reconstruídos em cera ou modificados para determinar os contatos dentários simultâneos e o plano oclusal desejados ao término da reabilitação total.

O enceramento diagnóstico digital é uma alternativa moderna e usa scanners intraorais ou de bancada para ler a anatomia bucal do paciente ou seu modelo de gesso, depois gera uma imagem 3D. Aquilo que o cirurgião-dentista ou o técnico em prótese dentária faria manualmente ou de forma analógica, agora é trabalhado no computador, com imagens digitais e biblioteca de formas dentais – dentro de um ambiente que favorece o trabalho altamente estético e detalhista.

A partir do trabalho digital em 3D, a impressão 3D em alta resolução foi um passo natural. Os sistemas de impressão 3D podem ser instalados nos consultórios e nos laboratórios, no entanto, o mais importante não é onde a impressora está, mas sim o benefício que ela proporciona.

Com o modelo tridimensional utilizado para o planejamento em mãos – seja para diagnósticos, guias ou moldes para gerar alinhadores –, todos ganham: o dentista e o técnico em prótese aumentarão a produtividade, a rentabilidade e o resultado, enquanto o paciente terá menor tempo de tratamento, maior conforto e maior qualidade.

Figuras 1 – Planejamento digital realizado através de modelo adquirido por scanner intraoral. Mock-up realizado em boca depois de criar uma muralha de silicone sobre um modelo impresso em impressora 3D. Caso cedido por Robertas Barankas, da Lituânia.

 

Figura 2 – Modelos de scanner de mesa e intraoral (Dentsply Sirona Ineos X5 e Dentsply Sirona Cerec Omnicam).

 

Figura 3 – Enceramento diagnóstico manual realizado em modelo de gesso. Caso cedido por Nelson Silva.

 

Figuras 4 a 7 – Enceramento digital em um caso de reabilitação oral com o uso de facetas monolíticas maquiadas e freadas em CAD/CAM (software Inlab SW 16.0, Dentsply Sirona).

 

No Brasil, cada vez mais empresas do setor odontológico estão usando a tecnologia disponível de forma criativa e com grande impacto sobre seus negócios, criando sistemas de workflow (fluxo de trabalho) que incluem todas as etapas do trabalho no mundo digital, da entrada do paciente na clínica ao momento em que ele sai com seu tratamento encaminhado.

Naturalmente, algumas etapas deste workflow incluem a geração de imagem em CAD 3D e produção na impressora 3D. O objetivo é sempre o mesmo: gerar modelos que permitam que próteses, cirurgias ou restaurações sejam planejadas especificamente para cada paciente, além de reduzir de forma dramática o tempo e o custo do tratamento dentário.

Existem diversas técnicas de enceramento diagnóstico descritas na literatura. Cabe ao cirurgião-dentista e ao técnico em prótese dentária avaliarem qual a melhor a ser utilizada em cada caso, pois todas oferecem as características estéticas e funcionais desejáveis ao término da reabilitação protética.

Certa vez, assistindo à aula de um famoso técnico em prótese dentária, escutei a seguinte frase: “Vocês não são artistas, vocês são artesãos”. Em um primeiro momento, fiquei indignado, mas depois comecei a refletir e percebi que eu havia interpretado a frase de modo errado. Isso porque artista é, geralmente, quem cria algo (obra de arte, quadro, música, peças cênicas, teatros etc.) e artesão é o profissional que fabrica produtos através de um processo manual ou com o auxílio de ferramentas – ou seja, aquele que tem a habilidade manual de copiar, detalhar e restaurar as obras criadas pelo artista.

Assim, o mundo digital está abrindo um novo caminho na Odontologia. A profissão de técnico em prótese dentária não irá acabar, mas sofrerá mudanças na forma de agir e executar, então, adaptar-se é uma necessidade básica.

Além disso, o senso estético continua sendo algo pessoal, no entanto, o caminho para alcançar a melhor estética possível passa a ser muito mais rápido e eficiente. Também, com a digitalização, existe a possibilidade de aprender muito sobre morfologia e arranjos dentais.

 

DIGITAL VERSUS ANALÓGICO

“Estou fazendo um teste (nada científico), apenas para dar mais sentido ao que venho falando sobre treinamento virtual de escultura. Tenho dois colaboradores recentes que são gêmeos – apelidados carinhosamente de Tico e Teco – e que nunca viram prótese na vida. Coloquei um para seguir de forma analógica e o outro de forma 100% digital.

Fiz um primeiro teste com os dois após cinco meses de convivência com a profissão, pedindo para que eles fizessem uma escultura manual de um restauro molar em cera em um modelo igual. O resultado foi mais satisfatório do colaborador digital, pois ele percebeu melhor a anatomia do dente que o outro, apenas perdendo de fato em velocidade”, conta Telmo dos Santos.


 

Figuras 8 a 13 – Modelos impressos em impressora 3D com facetas monolíticas maquiadas. Em seguida, levados à boca com um antes e depois. Caso cedido por Renato Ferreira (fotografias) e Felipe Moura (preparos e cimentação).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O enceramento diagnóstico apresenta soluções personalizadas para o planejamento do caso e oferece, por meio de estudo prévio, uma resolução clínica ao paciente. Tem importância fundamental para reabilitações extensas, casos complexos, comunicação com pacientes ansiosos pelo resultado e integração entre profissionais da área, resultando em uma perfeita função e estética da prótese dental, independentemente de ser no modo analógico ou digital.

A Odontologia Digital proporcionou a redução de preços e de prazos de entrega mantendo o padrão de alta qualidade. Consultórios e laboratórios podem desfrutar dos benefícios de utilizar a tecnologia para produzir planejamentos e peças odontológicas diretamente em arquivos digitais, gerados por softwares de CAD/CAM ou por exames de diagnóstico por imagem.

 

Coordenação:

Guilherme Saavedra

Professor assistente do Depto. de Materiais Odontológicos e Prótese, e professor da especialidade de Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – ICT Unesp.

 

 

 

 

 

 

 

Autor convidado:

Telmo Rodrigues dos Santos

Técnico em prótese dental; Dental designer – CAD/CAM oral designer; Diretor técnico da Coterc Prótese Odontológica; Diretor científico do Reference Learning Center; Autor do livro Clinical cases – restaurações adesivas cerâmicas; Coautor dos livros A arte na Prótese Dentária: um universo em harmonia, CAD/CAM no laboratório e na clínica: a Odontologia digital e Visão clínica: casos e soluções.