Publicado em: 24/08/2018 às 10h36

Guillermo Cagnone: vestindo a camisa da Prótese Dentária

Entrevistado por Paulo Rossetti, o professor argentino debate temas importantes para a especialidade, como Odontologia digital e a estabilidade do componente protético.

Puerto Madero, uma área portuária de Buenos Aires. (Imagem: Shutterstock)

 

A Odontologia chegou à vida do argentino Guillermo Cagnone por meio de um irmão, que é técnico em prótese dentária. Os dois seguem trabalhando juntos até hoje, porém, além da atividade na clínica, Cagnone também se dedica à vida acadêmica. Ele é professor adjunto no Depto. de Clínica II de Cirurgia e Prótese, e professor coordenador do curso de especialização em Prótese Dentobucomaxilar, ambos na Faculdade de Odontologia da Universidade de Buenos Aires, na capital argentina – mesma instituição onde se graduou e obteve o título de especialista em Prótese Dentobucomaxilar.

Em entrevista intermediada pelo brasileiro Paulo Henrique Orlato Rossetti, que é doutor em Implantodontia, Cagnone fala sobre as mudanças proporcionadas pela Odontologia digital, a estabilidade do componente protético e a casuística com conexões internas e externas na Argentina.
 

Guillermo Cagnone
 

Paulo Henrique
Orlato Rossetti

 

Paulo Rossetti – Qual a sua opinião sobre os tipos de conexões para prótese? Existe alguma preferência?
Guillermo Cagnone – É uma área crítica porque a conexão externa idealizada pelo Prof. Brånemark, inicialmente, tinha uma probabilidade de instalação cirúrgica. Não foi concebida como um conceito de conexão protética, como acontece hoje. Todo mecanismo de conexão vem melhorando e, com diferentes componentes, gerou uma mudança incrível – tudo isso está relacionado ao conhecimento sobre remodelação do espaço biológico.

Há vários anos eu utilizo diferentes tipos de conexões internas, e vários trabalhos demonstraram que há probabilidade de afrouxamento. Como as forças são transmitidas para um complexo abaixo do implante, elas são distribuídas de forma muito mais uniforme ao tecido ósseo e à sua elasticidade. Além disso, o mercado oferece hoje uma gama de possibilidades – seja conexão do tipo morse, hexagonal interna ou octogonal – e, adicionado a isso, também está o fato de que hoje temos diversas opções para posicionar a conexão em relação à crista óssea (em diferentes níveis).

No curso de especialização tentamos há mais de dez anos trabalhar com conexão interna. Em alguns casos podemos usar a conexão hexagonal externa, mas é basicamente para protocolos clássicos, com um tipo de prótese híbrida total parafusada. Mesmo ao corrigir muita divergência dos eixos, às vezes, com a conexão externa pode ser mais fácil de resolver do que com alguns protocolos de conexão interna. De qualquer forma, a melhor opção, sem dúvida, é a conexão do tipo interna.


Rossetti – Na sua universidade ainda existe uma casuística muito grande de conexões externas?
Cagnone – Não só na minha universidade, mas em toda prática odontológica e implantológica na Argentina, e acho que na maioria dos países da América do Sul também. Recentemente, estive com um distribuidor muito importante, que atua há quase 30 anos no mercado de implantes na Argentina, e perguntei qual era o percentual de venda de conexão externa e conexão interna. Ele me disse que está em quase 60% de conexão interna, mas ainda há 40% a 45% que utilizam conexão hexagonal externa. Isso é algo que mudará gradualmente.


Rossetti – Quando há complicações, é mais fácil trabalhar a conexão externa ou a interna?
Cagnone – Quando há complicações, são multifatoriais, podendo ser de ordem biológica, biomecânica etc. A verdade é que quando uma dessas situações inesperadas acontece, a resolução nunca é uma tarefa simples. Sempre dizemos aos alunos que a reconstrução de um acidente é muito mais difícil do que começar do zero com um bom planejamento, tentando fazer com que a taxa de falhas seja a mais baixa possível. Entretanto, pela curva de aprendizado de tantos anos, temos mais complicações com conexão externa do que com conexão interna.


Rossetti – Como estamos em relação à Odontologia digital? O que ainda não está consolidado e o que podemos esperar no futuro?
Cagnone – Sem dúvida, o avanço tecnológico vivenciado nos últimos 20 anos é incrível. Os processos digitais, principalmente com o CAD/CAM, têm proporcionado melhorias incríveis. Mas, devemos ser bastante cautelosos e cuidadosos porque, muitas vezes, a comunidade odontológica acredita que toda essa tecnologia disponível será capaz de resolver problemas. É fundamental lembrar que o diagnóstico correto e o plano de tratamento específico para cada caso são as bases precisas para aplicar bem os novos recursos tecnológicos.

Com relação ao projeto de componentes protéticos, é maravilhoso ter possibilidades, seja de impressões digitalizadas ou impressões convencionais, fazer escaneamento, digitalização ou um desenho específico de mesoestruturas ou superestruturas. O CAD/CAM nos permite realizar ajustes muito precisos, com exatidão e passividade das estruturas – algo que é muito importante em implantes e próteses. No entanto, não devemos nos esquecer de que os projetos devem ser muito específicos e pensados com base nessa resolução protética. Estamos falando de espessura, resistência de biomateriais, cálculo de espessuras para revestimento cerâmico sobre estruturas usinadas em titânio, metal nobre ou zircônia. Há muitos pontos que devemos ter cuidado, mas, sem dúvida, essa tecnologia está aqui para ficar. Estamos em uma constante curva de aprendizagem.

Ilustração do Caminito, no bairro La Boca, em Buenos Aires.


Rossetti – Qual a sua opinião e sua experiência com as estruturas monolíticas?
Cagnone – A introdução de próteses de zircônia ou de óxido de zircônio, também chamado de metal branco, trouxe uma revolução para a Odontologia. Ela atende a alta demanda estética dos pacientes, muitas vezes, influenciados pela mídia. E essa introdução, como todos sabemos, reflete-se na literatura. Tivemos problemas no passado, principalmente com a união do revestimento de cerâmica sobre as estruturas de zircônia. Hoje, as estruturas monolíticas estão muito mais desenvolvidas mecanicamente e funcionam muito melhor.

Em alguns casos, pode acontecer limitação financeira, pois, pelo menos na Argentina, esse material tem um custo muito maior do que uma prótese convencional – metalocerâmica, por exemplo. Em meu país, o custo de uma prótese de zircônia monolítica maquiada e depois caracterizada parcial ou totalmente é aproximadamente o dobro do custo de uma prótese convencional de metal nobre ou metalocerâmica.

Mas, lembremos que há 30 anos os computadores eram muito caros, no entanto, hoje todos podem adquiri-los. Então, confiamos que essa tecnologia, que veio para facilitar o dia a dia, em breve seja um produto final mais acessível para nossos pacientes e que possamos oferecer um serviço melhor.


Rossetti – Como você interpreta o papel do ajuste oclusal e dos guias para próteses implantossuportadas?
Cagnone – Nesse ponto, somos bastante conservadores. Na Argentina, a escola da Oclusão depende basicamente da anatomia, sendo muito forte e possuindo grande base científica. Então, não pensamos em tratar um paciente no setor anterior. Acreditamos que a oclusão é fundamental para qualquer tratamento de reabilitação implanto e dentossuportada, e ela deve ser mutuamente compartilhada: as peças posteriores precisam proteger as anteriores no fechamento, nas forças axiais e, especialmente, em eventos parafuncionais. Já as peças anteriores protegem os posteriores nos movimentos bordejantes de desoclusão e lateralidade. Nós seguimos esse plano mesmo quando sabemos que os implantes são capazes de suportar forças muito superiores aos dentes naturais. Pensamos que a oclusão deve ser um objetivo final único, seja para dentes naturais ou implantes. Resumindo, um bom ajuste oclusal é fundamental para que o sistema tenha seus mecanismos de proteção – que possivelmente tenham sido perdidos – e que as reabilitações durem o maior tempo possível.

 

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