Publicado em: 02/10/2018 às 08h26

Restauração endocrown: a evolução para dentes tratados endodonticamente

Renata Marques de Melo ressalta que a longevidade das restaurações endocrowns é afetada por múltiplos fatores que precisam de acompanhamentos mais longos.

Dentes tratados endodonticamente são um desafio restaurador, pois sua fragilidade pode ser exacerbada por técnicas que removem mais estrutura e os colocam em grande risco de fratura, sobretudo quando utilizam pinos e núcleos de materiais muito rígidos1. Isso gerou uma nova mentalidade em muitos cirurgiões-dentistas, que passaram a utilizar pinos pré-fabricados de fibra de vidro cimentados adesivamente2, os quais possuem módulo elástico semelhante ao da dentina e, por isso, diminuem a chance de fratura do dente.

Sem dúvida, a evolução dos sistemas de união e dos cimentos resinosos foi corresponsável por essa mudança de paradigma na utilização de sistemas pino/núcleo metálicos fundidos para aqueles confeccionados em resina contendo fibra de vidro. Ao mesmo tempo, tecnologias de manufatura subtrativa, como o CAD/CAM, desenvolveram-se e possibilitaram ao dentista fazer restaurações em curtíssimo prazo (sessão única) para seus pacientes. Essa tendência acabou incorporando os dentes tratados endodonticamente, com a possibilidade de fazer coroas monolíticas com ancoragem na câmara pulpar – as conhecidas endocrowns. Além da diminuição do número de passos clínicos, os benefícios dessa técnica restauradora são: menor remoção de estrutura dentária e pouca ou nenhuma necessidade de desobturação, o que diminui a fragilização e o risco de contaminação do canal tratado. Além disso, é indicada para pré-molares e molares, e pode ser feita com vários materiais, de polímeros a cerâmicas.

Os estudos clínicos sobre essas restaurações ainda não são de longo prazo, mas enfatizam que a técnica adesiva deve ser cuidadosamente controlada para obter sucesso. De fato, a maior parte dos estudos3-4 usou dentes com apenas 1 mm de remanescente coronário, confiando a longevidade dessas restaurações principalmente ao processo adesivo. Pouco remanescente coronário também indica a necessidade de camadas mais espessas do material restaurador. Assim, questões técnicas, como remanescente dentário e espessura da restauração, foram avaliadas no estudo Endocrown restorations: influence of dental remnant and restorative material on stress distribution, de Tribst e colaboradores5. Trata-se de um trabalho preliminar em que as tensões em regiões importantes, como restauração, linha de cimentação e dente, foram analisadas com modelos de elementos finitos. Os autores estudaram a espessura do dente (1,5 mm; 3 mm; e 4,5 mm), a espessura da restauração dependendo da espessura do dente (1,5 mm; 3 mm; e 4,5 mm, de forma que o conjunto dente/restauração sempre apresentasse 6 mm de altura) e o tipo de material restaurador (dissilicato de lítio ou leucita). Em suma, demonstrou-se que, ao utilizar o dissilicato de lítio, mais tensões se acumulam na linha de cimentação, o que é agravado com a diminuição do remanescente dental. A cerâmica de leucita apresentou-se como mais protetora para o elemento dental, pois as tensões se concentraram mais na própria restauração.

Esses resultados demonstram a importância de preservar o remanescente dental, mas também de considerar fatores como o tipo de material restaurador, que pode funcionar como protetor ou não do dente. Os autores ponderam ainda a importância das tensões de contração geradas pelo cimento resinoso, que amplificam as tensões na linha de cimentação. Outro estudo6 revelou que forças laterais diminuem consideravelmente a resistência dessas restaurações, tendendo a descolá-las.

Portanto, embora a qualidade clínica das restaurações endocrowns seja boa, sua longevidade é afetada por múltiplos fatores que precisam de acompanhamentos mais longos. Os estudos in vitro ainda são escassos e, apesar de limitados em suas contribuições, são importantes para mostrar os efeitos de múltiplas variáveis no comportamento de restaurações endocrown.

 

Referências
1. Goracci C, Ferrari M. Current perspectives on post systems: a literature review. Aust Dent J 2011;56(suppl.1):77-83.
2. Kishen A. Mechanisms and risk factors for fracture predilection in endodontically treated teeth. Endodontic Topics 2006;13(1):1601-538.
3. Bindl A, Mörmann WH. Clinical evaluation of adhesively placed Cerec endo-crowns after 2 years preliminary results. J Adhes Dent 1999;1(3):255-65.
4. Bindl A, Richter B, Mörmann WH. International Journal of Prosthodontics. 2005;18(issue3):219-24.
5. Tribst JPM, Dal Piva AMO, Madruga CFL, Valera MC, Borges ALS, Bresciani E et al. Endocrown restorations: influence of dental remnant and restorative material on stress distribution. Dent Mater 2018, Jun 20 (pii: S0109-5641(17)31303-9).
6. Gresnigt MM, Özcan M, van den Houten ML, Schipper L, Cune MS. Fracture strength, failure type and Weibull characteristics of lithium disilicate and multiphase resin composite endocrowns under axial and lateral forces. Dent Mater 2016;32(5):607-14.

 

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.