Publicado em: 02/10/2018 às 08h40

José Galhardo de Luca, um cirurgião-dentista com alma de artesão

Com trabalhos manuais precisos e amor pela profissão, José Galhardo De Luca fez história na Odontologia.

(Ilustração: Lézio Júnior)

 

Por Andressa Trindade

A história do cirurgião-dentista José Galhardo De Luca começa em 1890, quando sua família veio para o Brasil fugindo da crise na Itália – mesmo momento em que muitos outros imigrantes chegaram por aqui vindos da Europa. Foi nesse contexto que chegou em Além Paraíba, no distrito de Angustura, em Minas Gerais, seu avô Giovani De Luca. Por ser artesão, Giovani conseguiu emprego em uma fábrica de tecido e, alguns anos depois, seu filho José Humberto (pai de José Galhardo De Luca), seguiu a tradição artesã da família e se tornou ourives. “Com o tempo, meu avô percebeu a íntima relação entre este ofício e as restaurações metálicas realizadas pela Odontologia naquela época. Assim, em 1915, ele se formou na Faculdade de Odontologia e Pharmacia de Juiz de Fora e passou a ganhar a vida percorrendo as fazendas da região com um consultório portátil”, conta Silvio De Luca, um dos filhos de José Galhardo.

 

Microdentadura de 15 mm x 17 mm esculpida por José Galhardo De Luca, como presente de formatura ao filho José Umberto. (Fotos: acervo pessoal)


A veia artesã da família seguiu seu curso por mais uma geração, com José Galhardo De Luca. Nascido em 1923, aos 16 anos o mineiro já atuava na área odontológica no Rio de Janeiro – isso porque seu pai recebeu uma oferta para trabalhar na capital fluminense, no Hospital da Gamboa, localizado no bairro Santo Cristo, e toda a família se mudou para lá. Em terras cariocas, primeiro José Galhardo foi auxiliar de laboratório, desempenhando funções como limpar a bancada e varrer o local. Mais tarde, tornou-se técnico em prótese dentária. “Meu pai não fez curso de técnico de prótese. Ele era dotado de uma extraordinária habilidade manual. Além disso, os conhecimentos de ourives transmitidos pelo meu avô e a experiência mais tarde adquirida trabalhando como protético para renomados dentistas fizeram dele um grande destaque na área”, detalha Silvio De Luca.

José Galhardo teve a oportunidade de atuar ao lado de importantes profissionais do Rio de Janeiro, como Homero Coutinho e Geraldo Teles. Foi quando ele se aprofundou nos trabalhos removíveis com attachments, assunto no qual se tornou uma referência internacional.

Seu primeiro consultório com motor elétrico.


Em 1954, com 32 anos, José Galhardo De Luca se formou pela Faculdade de Farmácia e Odontologia do Estado do Rio de Janeiro, atual UFRJ. No mesmo ano da formatura, ele se casou com Cecilia Castello Branco De Luca, com quem teve três filhos: Ana Maria, José Umberto e Silvio. Mais tarde vieram os netos Antônio, Elisa, Marina, Pedro, Joana, Julia, Anna e Umberto. Durante a graduação, ele teve como mentor o professor Orlando Chevitarese, que o ajudou a aprimorar as confecções de troquéis metalizados em prata. Nesse mesmo período, suas restaurações fundidas em ouro começaram a chamar a atenção dos profissionais do meio. Após sua formatura, ele montou seu primeiro consultório e fechou o laboratório que mantinha há alguns anos. Porém, continuou fabricando suas próteses até se aposentar.

A Clínica De Luca foi criada apenas na década de 1980, mesma época da graduação dos filhos José Umberto e Silvio. Desde então, a empresa funciona no mesmo local, no bairro do Leblon. A profissão parece ter encantado mais alguns membros da família: além dos dois filhos, por lá também trabalham o neto Pedro e o sobrinho John De La Fontaine.

Aos 38 anos, em uma das inúmeras conferências das quais participou.

 

Dedicação à profissão

 

Durante boa parte da vida profissional, José Galhardo De Luca se dedicou exclusivamente à clínica. O grande sucesso de sua carreira se deu com o aparecimento das metalocerâmicas, em 1968, quando teve a oportunidade de refinar uma técnica que permitia a solda de attachments em coroas metalocerâmicas após sua confecção, sem danificar as cerâmicas. Outra paixão do protesista e TDP autodidata eram os trabalhos removíveis de alta precisão. “Meu pai não publicou livros e não participou da academia, pois, em meados dos anos 1950, não havia esta estrutura de ensino nas universidades”, afirma Silvio. Porém, ele foi atuante em várias entidades de classe, como o Instituto de Patologia Oral no Rio de Janeiro e, em 1969, tornou-se um dos fundadores do Instituto Odontológico Wladimir Pereira, uma referência no Rio de Janeiro.

De Luca, aos 82 anos, ao lado da esposa e dos três filhos.

 

José Galhardo se aposentou aos 65 anos, embora tenha continuado a fazer próteses para seus filhos na Clínica De Luca por mais alguns anos, porém, sem ter mais o compromisso diário com o ofício. Falecido em 5 de agosto de 2012, o protesista era dono de uma reconhecida habilidade e um apaixonado pela área de Prótese Dentária. Seu conhecimento e talento foram disseminados em incontáveis conferências e participações em congressos. “Ele deixou como legado a ética e o dever de primar pela excelência na Odontologia, não importando quem fosse o paciente”, afirma Silvio.
 

 

Em um dos momentos que ele mais gostava: cercado pelos netos.

 

Fora do consultório

 

José Galhardo De Luca sabia aproveitar os momentos de lazer – embora algumas atividades tinham relação com a carreira de TPD. “Como era ótimo com trabalhos manuais, fez uma microdentadura esculpida em um único bloco de resina e base de ouro, para dar de presente ao José Umberto quando ele se formou em Odontologia. A peça mede 15 mm x 17 mm, sendo um pouco maior que um dente usado nas escalas de cor atuais”, relembra Silvio. Ele gostava de comprar peças de arte em leilões e apreciava pintura acadêmica e esculturas. Outro hobby que nunca deixou de lado foi a culinária: ele gostava de cozinhar massas e carnes, e tinha como especialidade flambar pratos.
 

O legado de José Galhardo continua sendo disseminado pela família, que comanda a Clínica De Luca. Da esquerda para a direita, José Umberto, Silvio, John e Pedro.

 

Quem conheceu o protesista e TPD tem na lembrança um homem vaidoso, dono de uma voz forte, empostada e sedutora, que se vestia bem, tinha como perfume preferido o Azzaro e defendia seu ponto de vista com ardor. “Meu pai adorava uma polêmica, mas, acima de tudo, soube valorizar a Odontologia, despertando o respeito e a admiração, inclusive internacionalmente. Esta foi a sua grande contribuição à nossa profissão”, conclui Silvio.
 

 

Em sua inseparável bancada de prótese.