Publicado em: 02/10/2018 às 08h46

Personalização de preparo para receber faceta em porcelana

David Morita apresenta caso onde foi confeccionada uma coroa personalizada no elemento 11 reproduzindo a cor e a forma de preparo.

A personalização de preparo já foi muito discutida e sabemos o quanto esta técnica beneficia o resultado final. Porém, ainda me deparo com discussões sobre alguns casos que, para mim, só têm uma solução: coroa facetada. Isso porque, quando há preparos conservadores para confecção de facetas em porcelana conjugadas com preparo de coroa, o trabalho do técnico pode se tornar um desafio – com idas e vindas do consultório para o laboratório para retoques na cor, visita técnica, ida do paciente no laboratório, repetições frustradas, além do desgaste emocional de todos os envolvidos paciente, dentista, técnico e secretária).

A seguir, compartilharei um caso realizado há 12 meses em parceria com Adriano Sapata e Claudio Sato. Foi confeccionada uma coroa personalizada no elemento 11 reproduzindo a cor e a forma de preparo. Sobre este e sobre os preparos dos elementos 12, 21 e 22 foram feitas facetas estratificadas sobre dissilicato de lítio (I PS e.max, Ivoclar Vivadent).
 

Desenvolvimento do caso

O trabalho protético começa somente depois da confecção e aprovação do enceramento diagnóstico pelo cirurgião-dentista e pelo paciente (Figura 1). O enceramento diagnóstico é importante para o paciente ter uma perspectiva do tratamento sob o ponto de vista estético, já o dentista consegue verificar os anseios estéticos do paciente e as questões funcionais, que jamais podem ser esquecidas.

 

Figura 1 – Enceramento diagnóstico, que deve ser respeitado por conter informações sobre função e estética.

 

Em um modelo devidamente troquelizado, confecciona-se uma estrutura adequada para o tipo de substrato. Neste caso, foi feito um coping em dissilicato de lítio HO1 (IPS e.max, Ivoclar Vivadent) porque o preparo é um núcleo metálico. A estrutura foi devidamente preparada para receber cobertura de porcelana, personalizando adequadamente a cor do dente de acordo com o elemento homólogo (Figura 2).

 

Figura 2 – Coping em e.max HO1 devidamente preparado com sua respectiva fundação, de acordo com as recomendações do fabricante.

 

Para a aplicação de cerâmica, um modelo rígido (sem troquel) foi utilizado com a intenção de manter o contorno gengival íntegro para o correto contorno da coroa e o posicionamento dos términos do preparo da coroa em cerâmica (Figura 3). A coroa foi confeccionada em duas etapas, sendo a primeira de dentina e efeitos da camada na dentina, e a segunda de cerâmica, finalizando as características do dente do paciente (Figuras 4). A coroa deve receber o acabamento ideal, obedecendo às regras de preparo de faceta. O término da faceta será idealizado pelo técnico, que deverá respeitar os requisitos para o preparo. Uma dica é sempre copiar o preparo do dente homólogo, principalmente a cor. Ao iniciar o enceramento da faceta sobre a coroa de porcelana, é preciso usar um guia de silicone para nortear o TPD durante a confecção da faceta (Figuras 5).

 

 

Figura 3 – Coping posicionado em modelo rígido por conter todas as informações dos contornos gengivais removidos na preparação do modelo troquelado.

 

Figuras 4 – A. Uma camada primária é aplicada reproduzindo o volume de dentina e seus efeitos, seguindo as informações das cores através do compartilhamento de fotos. B. Uma última camada fina é aplicada para finalizar a forma do preparo da coroa, para receber uma faceta em porcelana.

 

Figuras 5 – A. Coroa em formato de preparo finalizada e posicionada em modelo rígido. B. O guia de silicone é usado como norte para a confecção das peças, posicionando devidamente a borda incisal.


Uma faceta anatômica é confeccionada para, posteriormente, dar origem à peça em dissilicato de lítio (Figuras 6). Por processo de injeção, as peças em cera dão lugar a estruturas em dissilicato de lítio, que são desgastadas logo após a usinagem inicial. Esta usinagem inicial acontece por meio de desgaste superficial, com o uso de rodas ou pontas de carbeto de silício impregnadas com partículas de diamante. Também pode-se realizar o cut back nas peças antes do processo de injeção – o que fica a critério do TPD porque em sistemas CAD/CAM é possível fazer isso de forma rápida e fácil. Neste caso, foi realizada a confecção das facetas em formato anatômico para desgaste após o processo de injeção (Figuras 7). Depois da redução das peças, é importante o jateamento com óxido de alumínio usando baixa pressão (aproximadamente 1,5 bar), com distância de 2 cm e inclinação de 45º. A granulometria deve ser fina, entre 40 e 60 micras.

 

Figuras 6 – A. Verificando o encaixe das peças antes de seguir para a próxima etapa. B. O polimento em cera deve ser feito para verificar a forma antes da injeção.

 

Figuras 7 – A. Peças injetadas, sendo aferidos a forma e o contorno. B. Peças já desgastadas após o cut back.


Seguindo as recomendações do fabricante, é feita uma fundação inicial nas peças para condicionar a superfície que receberá em seguida um volume expressivo de cerâmica por toda a face vestibular da faceta. Se essa fundação não for feita, há o risco de ocorrer levantamento das bordas da cerâmica aplicada, prejudicando a cor e a resistência da peça.

Existem muitas formas de preparo da superfície, como a aplicação de uma fina camada e coccionando-a separadamente; pintura com shades e corantes; polvilhamento com pó de cerâmica sob superfície úmida com líquido de glaze ou similar; entre outras maneiras. Por isso, reforça-se a necessidade desta etapa nas aplicações de cerâmica sobre estruturas livres de metal.

Finalizada a aplicação de cerâmica, é hora de evidenciar a anatomia dos dentes de cerâmica, realçando com pó metálico comercializado em casas de artesanato ou pintura artística. Isso neutraliza o efeito de absorção de luz das peças cerâmicas, devido à translucidez superficial. Este efeito causa perda real do contorno das peças e, muitas vezes, os detalhes do emparelhamento da forma não são percebidos pelo técnico, sendo verificado apenas em boca após a prova (Figuras 8).
 

Figuras 8 – A e B. Vista lateral das peças, verificando os contornos antes do polimento final. C. Pó metálico usado para evidenciar a forma dos elementos.


Com as peças devidamente polidas com borrachas apropriadas para cerâmica, pôde-se realizar o polimento térmico final, com pasta de glaze ou apenas mecânico, com pontas de borrachas e escovas de pelo com pasta apropriada para polimento de cerâmica. Neste caso, foi utilizada pasta para polimento de cerâmica Renfert All Ceramic após o acabamento com ponta de borracha impregnada com partículas de diamante (Figura 9). Agora, as peças são enviadas ao consultório para o cirurgião-dentista fazer as provas. Se tudo estiver em conformidade com o objetivo proposto, elas são imediatamente instaladas seguindo o protocolo adequado de cimentação. Neste caso, o cirurgião-dentista deve fazer uma prova seca e outra úmida (try in), e selecionar a cor apropriada.

 

Figura 9 – O brilho das peças é obtido por meio de polimento mecânico usando borrachas, escovas e pasta de brilho para cerâmica.


Há aplicativos disponíveis para aparelhos iOS e Android que podem ajudar bastante na seleção inicial da cor do cimento, mas não descartam a prova com try in. Assim como também há aplicativos para o TPD inserir informações que vão direcioná-lo para uma ou mais opções de pastilhas. Quando não há uma opção adequada para o trabalho, o aplicativo deixará o TPD livre para realizar alguma tentativa, sem que haja modificação nos dados propostos para o manuseio. Isso porque o técnico deve inserir o tipo de serviço (faceta, coroa etc.), espessura da peça, cor do substrato e objetivo da cor final. Inserindo estes dados, o TPD poderá ter alguma opção do aplicativo e elevar seus resultados em boca. Esse também é um grande instrumento de aprendizado para a seleção correta de pastilha e técnica, seja estratificada ou maquiada (Figura 10).
 

Figura 10 – Peças instaladas com 12 meses de acompanhamento clínico.

 

 

 

David Morita

Técnico em prótese dentária; Autor adjunto do livro Odontologia de Alta Performance - Laminados Cerâmicos Ultraconservadores; Coautor dos livros de atualização de Prótese Dentária APDESPbr 2007, 2009 e 2013; Proprietário do Laboratório David Morita e Instituto David Morita.