Publicado em: 02/10/2018 às 08h55

Reynaldo Todescan Júnior, um desbravador com sotaque brasileiro

Em entrevista para a revista PróteseNews, o professor falou sobre a oportunidade de coordenar um departamento destinado ao estudo do sono no Canadá.

Reynaldo Todescan Júnior coordena a Divisão de Doenças da ATM e da Odontologia do Sono, da Universidade de Manitoba, em Winnipeg.


Proveniente de uma família tradicional na Odontologia brasileira, Reynaldo Todescan Júnior se formou cirurgião-dentista em 1980 e, um após receber o diploma, foi para o Canadá, onde fez especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Odontologia Restauradora, na Universidade de Toronto.

Por uma necessidade acadêmica, Todescan Júnior acabou se envolvendo com a área de Dor Orofacial, o que o levou a um novo capítulo de sua trajetória profissional: há oito anos ele recebeu um convite para coordenar a Divisão de Doenças da ATM e da Odontologia do Sono, da Universidade de Manitoba, em Winnipeg. Desde então, esse tem sido seu desafio diário.

Recentemente, Todescan Júnior esteve no Brasil para visitar a família. Na ocasião, concedeu uma entrevista para a PróteseNews e falou sobre sua trajetória, o trabalho desenvolvido no Canadá e a oportunidade de coordenar um departamento destinado ao estudo do sono. Acompanhe.

 

PróteseNews – Como foi a sua migração para a área de Dor Orofacial e Odontologia do Sono?
Reynaldo Todescan Júnior – Quem quer ser acadêmico precisa estudar sempre. Tive que assistir a alguns cursos, li muito e ainda estou aprendendo. Com o financiamento da faculdade, também fiz uma minirresidência de cinco meses na Califórnia (Estados Unidos) na área de Apneia do Sono e agora estou me preparando para a especialização em Odontologia do Sono, nos Estados Unidos.

Essa é uma área muito desenvolvida nos Estados Unidos, com profissionais produzindo bastante em consultório. O Canadá está dando os primeiros passos e ainda é reduzido o número de profissionais que pesquisam e atuam nesse segmento.


PrNews – Como o distúrbio respiratório do sono afeta a vida do paciente?
Reynaldo Todescan Júnior – Em geral, quando se tem a apneia do sono, que é uma interrupção da respiração durante a noite, a saturação de oxigênio no sangue cai e pode ocasionar problemas cardiovasculares, como ataques cardíacos e pressão alta. Além disso, a baixa de oxigênio pode deixar o paciente sonolento durante o dia, prejudicando o trabalho e até causando riscos à vida (pela iminência de acidentes). Nos casos mais severos, a respiração é interrompida mais de 30 vezes por hora durante o sono.


PrNews – Quais são os protocolos de tratamento?
Reynaldo Todescan Júnior – É importante primeiro fazer um estudo do sono para identificar o problema do paciente. Esse exame é realizado pelo médico do sono, que é responsável pelo diagnóstico feito através de uma polissonografia. As apneias do sono são causadas por obstruções transitórias da passagem de ar pela garganta por pelo menos dez segundos. Deve-se salientar que o tratamento da apneia do sono deve ser multidisciplinar e outras especialidades, como a Cirurgia Oral (cirurgias ortognáticas), Otorrinolaringologia e Medicina do Sono, têm um fator importante na decisão do tratamento. Como cirurgiões-dentistas, podemos indicar o aparelho oral para melhorar as condições de respiração para o paciente, enquanto a Medicina fornece o aparelho respiratório de pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP). Mas, nem todo mundo aceita ou se adapta ao CPAP, por considerá-lo inconveniente, por isso o aparelho oral está conseguindo um pouco mais de popularidade. Em Winnepeg (Canadá), o governo provincial, até poucos meses atrás, financiava o sistema recomendado pelos médicos, mas agora está suspendendo uma parte desse subsídio. Assim, o aparelho oral está se tornando uma alternativa. Além disso, existem muitos estudos relacionando várias doenças sistêmicas com a apneia. Além dos problemas cardiovasculares, há os inflamatórios, periodontais, entre outros. Por isso, é interessante que o dentista comece a atuar nessa área e a colaborar com as demais especialidades da Saúde.


PrNews – Fazendo um comparativo entre o CPAP e os aparelhos intraorais, qual apresenta os melhores resultados?
Reynaldo Todescan Júnior – Costumam os falar que o CPAP é o padrão-ouro de tratamento. Ele consiste em um pequeno compressor de ar relativamente silencioso que se conecta a uma máscara ajustada ao nariz (algumas cobrem a boca também) do paciente. Alguns problemas podem ser causados pela máscara estar um pouca solta ou muito apertada, ou ainda pacientes que tenham obstrução nasal. Além disso, há pessoas que têm claustrofobia e não conseguem usá-la. Já o aparelho intraoral traz a mandíbula para frente e o paciente pode desenvolver problemas de articulação e dores musculares. É necessário examinar o paciente a cada seis meses, avaliar se a mordida não mudou e verificar se não apareceram outros problemas. No entanto, tanto no caso dos aparelhos intraorais quanto do CPAP, quando o profissional consegue oferecer um tratamento na direção certa, a diferença entre o antes e o depois é muito grande.


PrNews – Qual a correlação entre os problemas do sono e os distúrbios temporomandibulares, o bruxismo e a má-oclusão?
Reynaldo Todescan Júnior – Existe uma correlação entre a má-oclusão, os distúrbios mandibulares e os distúrbios respiratórios durante o sono. A relação entre distúrbios mandibulares e a apneia do sono é um pouco vaga, ninguém sabe como isso ocorre, mas é possível que tem a ver com músculos do pescoço e da cabeça, que controlam a parte da passagem de ar. Às vezes, são usadas terapias para relaxá-los, o que auxilia na respiração durante a noite.


PrNews – Já é possível identificar se existe um biotipo que está mais propenso a ter esses distúrbios?
Reynaldo Todescan Júnior – Não há um biotipo, mas sabemos que, por exemplo, o excesso de peso e o acúmulo de tecido mole na garganta dificulta mantê-la aberta. Ou quando os músculos da garganta e da língua relaxam mais do que o normal, e isso tende a se agravar com a idade. Amídalas e adenoides grandes são causas comuns de apneia do sono na criança. É frequente o paciente procurar ajuda médica por sugestão do companheiro de quarto que observou parada ou dificuldade na respiração. Porém, tudo o que contribui para uma boa saúde, como exercício físico, boa dieta e nutrição, pode ajudar no controle da apneia do sono.

Ponto turístico de Winnipeg, no Canadá. (Imagem: Shutterstock)


PrNews – Quanto tempo é necessário para o tratamento?
Reynaldo Todescan Júnior – Uma vez que o paciente começa a usar o aparelho e a posição ideal de trabalho é estabelecida, por exemplo, a dimensão vertical e protrusiva que permite desobstrução das vias respiratórias, ele relata uma melhora na qualidade do sono. Isso é individual e pode levar algumas semanas. Essa melhora deve, então, ser checada com uma nova polissonografi a.


PrNews – Qual tem sido a contribuição da tecnologia CAD/CAM para essa área?
Reynaldo Todescan Júnior – A tecnologia CAD/CAM melhorou muito por causa da acuidade. Podemos fazer a moldagem digital da boca e mandar confeccionar o aparelho. Ainda é um pouco caro, tanto para o laboratório quanto para o paciente, mas com o tempo esperamos que melhore.


PrNews – Quais são seus planos para o futuro na área de Odontologia do Sono?
Reynaldo Todescan Júnior – O trabalho na Universidade de Manitoba me proporcionou uma certa independência. A cada ano, vou melhorando e estou sendo reconhecido pelo que tenho desenvolvido. Comecei a lecionar na graduação e tenho a chance de mostrar aos alunos que esse problema existe e que o cirurgião-dentista tem a oportunidade de identificá-lo e participar no tratamento. Manitoba é uma das poucas universidades na América do Norte onde temos um curso dentro da graduação sobre isso. Infelizmente, muitos profissionais realizam o tratamento sendo liderados pelo laboratório que confecciona o aparelho. É muito importante fazer o estudo do sono e conhecer adequadamente o problema do paciente.

 

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