Publicado em: 05/10/2018 às 15h26

Acúmulo de placa e falta de manutenções periódicas

Marco Bianchini destaca uma oportunidade de ouro para que o dentista sugira um programa de manutenção ao paciente.

Como já foi demonstrado exaustivamente em estudos clássicos sobre doenças periodontais, a falta de manutenção periódica está associada à perda precoce de dentes naturais e também à perda de inserção clínica. Esses achados destacaram a importância das medidas de controle de biofilme realizadas tanto pelos pacientes como pelos cirurgiões-dentistas, administradas na prevenção de doenças periodontais. Seguindo esta linha de raciocínio, os implantes necessariamente acabam caindo na mesma vala dos dentes naturais.

Desde os primeiros estudos que tratavam de mucosite e peri-implantite, esta associação entre placa bacteriana e complicações nos tecidos de suporte dos implantes também vem se mostrando verdadeira. Porém, parece que a agressividade da perda óssea peri-implantar é maior e mais rápida nos implantes do que nos dentes naturais, especialmente entre os pacientes que não conseguem realizar um controle de placa adequado e também não participam de programas de manutenções periódicas realizadas pelos dentistas.

Alguns estudos mais recentes, que avaliaram e acompanharam pacientes durante mais de cinco anos, demonstraram que em ambos os períodos de avaliação os pacientes que não aderiram à terapia de manutenção recomendada necessitaram substancialmente de mais tratamento para peri-implantite. Isso confirma que a incidência de peri-implantite foi menor nos pacientes que receberam terapia adequada de manutenção.

E, assim, ao longo das últimas décadas, mais e mais estudos vêm sendo publicados e confirmando que o controle inadequado da placa, feito pelos próprios pacientes (má higiene oral peri-implantar), tem forte associação com o aparecimento da peri-implantite. Esses estudos vêm demonstrando que o controle deficiente de placa é o mais forte preditor estatístico da peri-implantite. Esses estudos foram devidamente citados no último consenso de doenças periodontais e peri-implantares, publicados agora em 2018, pela Academia Americana de Periodontia.

Esta coluna foi publicada na no dia 5 de outubro, quando o Abross 2018 estava a todo vapor. Abordei este tema nas minhas apresentações do congresso. Contudo, as perguntas que eu sempre me faço, quando falo sobre controle de biofilme, são: por que, mesmo depois de mais de 100 anos que a Odontologia vem falando da necessidade de controle de biofilme, muitos dentistas ainda relegam esse tema a um segundo plano? Por que alguns profissionais ainda não estabeleceram em suas clínicas particulares programas de manutenções periódicas nos seus pacientes que já colocaram implantes?

Se levarmos em conta, ainda que em algumas situações (para não dizermos muitas) os nossos implantes acabam sendo colocados em posições que não são tão favoráveis a uma prótese que seja fácil de higienizar, chegaremos à dramática conclusão de que os pacientes com implantes precisam de intervalos mais curtos de manutenções periódicas, haja vista que o biofilme se acumulará muito mais facilmente e a sua remoção por parte dos pacientes será bem mais difícil.

A pergunta que mais escutamos dos nossos pacientes é se o implante irá durar para sempre. Talvez esta seja a maior oportunidade que os pacientes nos dão para impormos a eles um programa de manutenção. Esse programa já deveria fazer parte do orçamento para a colocação dos implantes e das próteses sobre implantes. Desta forma, já incutiríamos na cabeça – e no bolso – dos nossos pacientes que os implantes precisam de manutenções bem mais frequentes do que os dentes naturais e que a responsabilidade desta terapia de suporte é tanto do profissional que executou o tratamento como do paciente que o recebeu.

 

“Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse”. (Colossenses 1, 16-19)

 

Referências:
1. Roccuzzo M, Bonino F, Aglietta M, Dalmasso P. Ten‐year results of a three arms prospective cohort study on implants in periodontally compromised patients. Part 2: clinical results. Clin Oral Implants Res 2012;23:389-95.
2. Dalago HR, Schuldt Filho G, Rodrigues MA, Renvert S, Bianchini MA. Risk indicators for peri‐implantitis. A cross‐sectional study with 916 implants. Clin Oral Implants Res 2017;28:144-50.
3. Ferreira SD, Silva GL, Cortelli JR, Costa JE, Costa FO. Prevalence and risk variables for peri‐implant disease in Brazilian subjects. J Clin Periodontol 2006;33:929-35.

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br