Publicado em: 19/11/2018 às 10h35

Reconstrução de guia canino com fragmento cerâmico

Caso clínico descreve a situação de uma paciente que apresentava somente um canino, o superior direito, aquém da posição ideal.

A ausência da guia de desoclusão em caninos, seja causada por mau posicionamento dental ou por hábitos parafuncionais, dentre tantas outras possibilidades, é descrita como sendo maléfica ao sistema estomatognático. Além do fato de ser muito importante para a oclusão, poderíamos acrescentar o fator estético, pois o canino ajuda a compor o sorriso. Desta forma, o restabelecimento de um guia de desoclusão funcional e estético é um procedimento clínico que deve ser sempre muito bem planejado e executado. O problema está em como fazê-lo, principalmente quando se trata de dentes hígidos. Embora o tratamento restaurador não seja a única opção, sua precisão e rapidez de resultado o torna a modalidade mais aplicada.

O relato a seguir descreve a situação clínica de uma paciente que apresentava somente um canino, o superior direito, aquém da posição ideal. Seu posicionamento mais apical, comparado ao lado contralateral, não promovia uma desoclusão aceitável dos dentes posteriores e, somada a isso, havia uma leve desarmonia do sorriso em visão frontal (Figuras 1 a 3).

Figura 1 – Visão extraoral que salienta o canino superior esquerdo mais evidente do que o canino superior direito.

 

Figura 2 – Visão intraoral comprova discrepância de altura entre caninos.

 

Figura 3 – Com modelos de estudo montados em articulador semiajustável, é possível mensurar o quanto falta em comprimento para que o canino superior direito possa realizar o movimento de desoclusão.

 

Através de enceramento diagnóstico realizado em modelos de estudo montados em articulador semiajustável, foi possível determinar o quanto de acréscimo seria necessário para restabelecer a função e estética (Figura 4). A partir daí, todo o procedimento segue um fluxo digital: foi realizado escaneamento intraoral do canino superior direito (Cerec AC OmniCam, Dentsply Sirona – Bensheim, Alemanha) e, com as imagens já no software (Cerec Premium SW 4.4.4, Dentsply Sirona – Bensheim, Alemanha), o enceramento virtual foi feito tendo como referência as medidas anteriormente determinadas. Basicamente, foi realizado o espelhamento do canino contralateral e este teve sua desoclusão testada através de articulador virtual (Figuras 5 e 6).

 

Figura 4 – Avaliação do enceramento diagnóstico em modelos de estudo montados em articulador semiajustável.

 

Figura 5 – Imagem virtual frontal do canino.

 

Figura 6 – Imagem virtual de canino a canino mostrando o novo nivelamento entre 13 e 23. O fragmento cerâmico é fresado com espessura mínima de 0,3 mm para evitar possíveis lascamentos marginais durante o processo e, posteriormente, recebe acabamento e polimento.

 

O material restaurador selecionado foi o dissilicato de lítio (Rosetta SM, Hass Corp – Coreia) que, após fresagem (inLab MCXL Premium, Dentsply Sirona – Bensheim, Alemanha), foi cristalizado seguindo o programa recomendado pelo fabricante. Ainda monocromático, o fragmento foi polido com borrachas para polimento de dissilicato de lítio (Diapol, EVE – Pforzheim, Alemanha) para posterior reprodução das características óticas percebidas nos dentes adjacentes, através da técnica de maquiagem (IPS Empress Universal Shade/Stains, Ivoclar Vivadent – Schann, Liechenstein).

Pronto, o fragmento cerâmico (Figura 7) foi testado no elemento dental a que se destinava, sem que este tenha recebido qualquer preparo protético (Figura 8), e colado com cimento resinoso fotopolimerizável (Variolink Esthetic, Ivoclar Vivadent – Schann, Liechenstein), devolvendo a função com naturalidade (Figuras 9 a 11).

Figura 7 – Fragmento cerâmico confeccionado em dissilicato de lítio (Rosetta SM HT B1, Hass Corp – Coreia) polido e maquiado, já pronto para colagem.

 

Figura 8 – Visão intraoral do canino superior direito a ser restaurado, sem que qualquer desgaste tenha sido realizado.

 

Figura 9 – Amplitude de desoclusão via canino restabelecida, com a confecção de fragmento cerâmico.

 

Figura 10 – Além de restabelecer o guia de desoclusão, que era a proposta inicial, foi possível criar uma melhor harmonia de posicionamento de caninos em visão frontal.

 

Figura 11 – Visão extraoral do sorriso com harmonia de posicionamento da arcada superior em relação à face.

 

A placa oclusal (Durasoft, Scheu-Dental – Iserlohn, Alemanha) foi instalada na arcada superior para evitar que um eventual hábito parafuncional pudesse gerar desgaste em dentes antagonistas, ou até mesmo fraturar o fragmento cerâmico (Figura 12). A Figura 13 mostra a integridade do fragmento após dois anos em função.

 

Figura 12 – Placa oclusal em posição.

 

Figura 13 – Acompanhamento de dois anos. A função oclusal foi restabelecida com caracterizações estéticas realizadas através da técnica de maquiagem, similares às observadas nos dentes naturais adjacentes, sem perda de estrutura dental.

 

José Geraldo Malaguti
Doutor em Biologia Oral – Universidade do Sagrado Coração (USC); Especialista em Implantodontia – PUC/Campinas; Especialista em Periodontia – APCD/Ribeirão Preto; Especialista em Prótese Dentária – APCD/Araraquara.
 

Franco Ignáccio Mallaguti
Especialista em Periodontia em Dentística – ABO/Goiás; Especialista em Implantodontia – Instituto Brånemark, Bauru.