Publicado em: 12/02/2019 às 09h36

Métodos de limpeza para garantir boa adesão às cerâmicas

Em um estudo, foram testados diferentes protocolos de limpeza do dissilicato de lítio após contaminação com saliva, previamente à cimentação adesiva.

A adesão a qualquer substrato exige, primordialmente, uma superfície limpa, isto é, livre de contaminantes, como filmes de água ou saliva, debris orgânicos e/ou biofilme, que interfiram no molhamento do substrato e espalhamento do material adesivo1. Clinicamente, a contaminação pode ocorrer no momento da prova ou do reparo da restauração fraturada, e estas situações devem ser contornadas com especial atenção ao tipo de material que será cimentado ou reparado. Aqui, trataremos da descontaminação das restaurações cerâmicas, com vistas à boa adesão.

Em um estudo2, foram testados diferentes protocolos de limpeza do dissilicato de lítio (e-max CAD, Ivoclar Vivadent), após contaminação com saliva, previamente à cimentação adesiva. Apesar do protocolo de adesão ser bem estabelecido para cerâmicas vítreas – condicionamento com ácido hidrofluorídrico (HF) e silanização –, a contaminação não é totalmente removida apenas com o condicionamento por HF3. Dessa forma, os autores testaram diferentes técnicas de limpeza, como lavagem com água, condicionamento com ácido fosfórico, álcool (isopropanol) e pasta de limpeza (Ivoclean, Ivoclar Vivadent). Os resultados de união ao cimento resinoso demonstraram que, em curto prazo (24 horas), o ácido fosfórico foi tão eficiente quanto a pasta, porém, esta foi mais eficiente na manutenção da adesão após o envelhecimento da amostra (cinco mil ciclos hidrotérmicos). Tratando-se da zircônia, os resultados não foram diferentes: as superfícies contaminadas com saliva foram limpas de maneira mais efetiva após o uso do Ivoclean.

Resumidamente, o mecanismo de ação da pasta Ivoclean consiste na adsorção das proteínas da superfície cerâmica pelas partículas de dióxido de zircônia e outros componentes, que são posteriormente removidas por lavagem com água. Dessa maneira, a superfície é descontaminada e a resistência de união ao material torna-se semelhante àquela de amostras não contaminadas. Como desvantagem, a pasta é exclusiva de um fabricante (Ivoclar Vivadent) e não é o método mais econômico.

Outro protocolo possível para renovação da superfície da zircônia é o jateamento com partículas de óxido de alumínio, mas, além de danificar a superfície do material, não é tão eficiente em longo prazo4-5. O ácido fosfórico 37% também limpa a superfície ao provocar um pequeno condicionamento da cerâmica abaixo da contaminação, portanto, é mais efetivo em cerâmicas vítreas do que na zircônia3.

Em situações em que o uso do HF é contraindicado (por exemplo, no reparo de lascamento da restauração diretamente na boca), o desafio para a boa união é maior porque o material pode ter ficado muito tempo em contato com a saliva e na presença de biofilme. Neste caso, para renovar a superfície da cerâmica contaminada, são recomendados o ácido fosfórico ou o Ivoclean, além dos métodos adicionais de tratamento (como silicatização) para união mais efetiva à resina de reparo. Contudo, para este tipo de associação (métodos de limpeza e tratamento de superfície), são necessários mais estudos sobre os efeitos na resistência de união.

 

Referências
1. Marshall SJ, Bayne SC, Baier R, Tomsia AP, Marshall GW. A review of adhesion science. Dent Mater 2010;26(2):e11-6.
2. Borges ALS, Posritong S, Özcan M, Campos F, Melo R, Bottino MC. Can cleansing regimens effectively eliminate saliva contamination from lithium disilicate ceramic surface?. Eur J Prosthodont Restor Dent 2017;25(1):9-14.
3. Alfaro MJ, Meyers EJ, Ashcraft-Olmscheid D, Vandewalle KS. Eff ect of a new salivary contaminant removal method on bond strength. Gen Dent 2016;64(3):51-4.
4. Feitosa SA, Patel D, Borges AL, Alshehri EZ, Bottino MA, Özcan M et al. Effect of cleansing methods on saliva-contaminated zirconia – an evaluation of resin bond durability. Oper Dent 2015;40(2):163-71.
5. Angkasith P, Burgess JO, Bottino MC, Lawson NC. Cleaning methods for zirconia following salivary contamination. J Prosthodont 2016;25(5):375-9.

 

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.