Publicado em: 12/02/2019 às 09h46

Rolf Ankli: a mistura entre Suíça e Brasil

Além de talento e vocação, o TPD tem um repertório que agrega olhar universal à profissão.

Com passagem pela Europa, África e Brasil, Rolf Ankli mostra que não há fronteiras para buscar conhecimento. (Imagens: divulgação)

 

Por Andressa Trindade


O rigor e o compromisso com a profissão talvez tenham origem na formação básica do TPD Rolf Ankli. Nascido na Suíça em 1950, na cidade de Zug, foi lá que ele encontrou seu caminho profissional. Depois da educação básica, boa parte dos estudantes era orientada a procurar cursos técnicos profissionalizantes que tinham duração de quatro anos, trabalhando quatro dias na profissão e um dia de teoria. Ele optou pelo curso que concedeu o certificado de técnico em prótese dentária, em 1969. Mas, essa escolha foi meramente ocasional. “Alguns empresários visitavam as turmas do último ano escolar para palestrar sobre variadas profissões. Eu gostei do nome técnico em prótese dentária e me candidatei”, relembra. O que começou como incerteza acabou culminando em uma trajetória profissional de sucesso enraizada aqui no Brasil.
 

Atravessando continentes

Ankli sabe bem o que significa uma grande família. Seus pais tiveram seis filhos: a primogênita é uma menina, seguida por cinco meninos. “Eu e o Othmar somos gêmeos univitelinos e somos o quarto e o quinto na sucessão de filhos. Nossa ligação sempre foi muito forte, um era a sombra do outro. Aos nove anos, o Othmar perdeu a visão do olho esquerdo em um acidente de patinete. Os óculos que ele recebeu da seguradora eram muito feios, por isso pediu ao nosso pai um novo par, mas não tínhamos dinheiro para isso. Assim, eu e ele resolvemos juntar dinheiro para comprar novos óculos”, comenta, ao relatar apenas umas das histórias vividas ao lado do irmão. A última aventura dos dois foi uma caminhada de 700 km durante 21 dias até Santiago de Compostela, em 2017.

Enquanto Rolf escolhia ser protético, Othmar optou pela profissão de técnico em máquinas de escritório, principalmente máquinas de escrever. “Sempre falavam que ele teria futuro, mas eu, como TPD, não – já que as pessoas não estavam mais perdendo os dentes. No entanto, hoje, quase 50 anos depois de ter recebido meu diploma, ainda estou confeccionando sorrisos”, orgulha-se. Já que para a confecção de uma prótese total ainda se usa a mesma técnica laboratorial de 54 anos atrás.

A relação entre os gêmeos era tão profunda que, em 1972, quando Othmar se casou, Ankli quis fugir da solidão e aceitou uma oportunidade de trabalho na Cidade do Cabo, na África do Sul, onde em 1973 ganhou o título de técnico em prótese dentária pelo The Dental Technicians Board. “O convite foi feito pelo alemão Franz Schubert. No início eu fazia de tudo, inclusive trabalhos pequenos em cerâmica. Depois, nos últimos nove meses antes de deixar África do Sul, me dediquei apenas a estruturas em cromo-cobalto, já com fundição por indução”, revela.

Enquanto estava na África, o TPD assistiu à largada de uma regata à vela rumo ao Rio de Janeiro e naquele momento começou a sonhar em também atravessar o Oceano Atlântico à vela. Não foi exatamente esse o meio de transporte, mas seu sonho estava virando realidade: em julho de 1974, ele desembarcou em terras fluminenses para substituir uma TPD suíça que estava trabalhando para o Dr. Olympio Faissol Pinto, no Rio de Janeiro. “Meu primeiro trabalho foi um uma reabilitação oral superior e inferior. Todos os dentes preparados e eu sem saber por onde começar. Após um longo dia pingando cera e tirando de novo, peguei o livro do Peter Karl Thomas para estudar mais Anatomia. Estava difícil, queria largar tudo, mas eu não tinha coragem de voltar para a Suíça e admitir que era incompetente”, relembra.

Passados os momentos de sufoco, Ankli se estabeleceu profissionalmente e conheceu o também suíço Claude Sieber. “Um talento nato e um fotógrafo autodidata. Após o lançamento do seu primeiro livro fotográfico, o Voyage, em 1994, a Odontologia começou a enxergar a estrutura dentinária e o esmalte de forma diferente. A partir daquele momento, os materiais cerâmicos foram melhorando”, afirma o TPD.

Após um bom período trabalhando juntos, Sieber retornou definitivamente para a Suíça e se tornou colaborador técnico da Vita Zahnfabrik. Em uma oportunidade, quando Sieber foi convidado para esculpir formas novas de dentes artificiais para próteses, chamou Ankli para passar uma semana no laboratório dele na Basileia (Suíça) e esculpir os caninos. “Ele achava que eu era ‘caninólogo’. Que honra”, diverte-se.

A essa altura, Rolf já estava casado com Zuleica de Oliveira Ankli, “uma carioca muito bonita e sempre alegre”, com quem teve três filhos: a dentista Diana, o engenheiro mecânico Rolf Ankli Júnior e a dentista e TPD Viviane.

Em agosto de 1979, Rolf foi convidado para coordenar todo o serviço de reabilitação da clínica do Dr. Hamilton Mourão, em Belo Horizonte (MG). Sendo assim, a família se mudou para a capital mineira, onde reside até hoje.

Ao longo de todo esse período no Brasil, Ankli teve dificuldade em se registrar no Conselho Regional de Odontologia. Então, para ele, um marco importante foi o recebimento do certificado de técnico em prótese dentária, concedido em 1982 pela Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, com 23.040 horas de experiência profissional. “Depois de tantas idas e vindas, eu tinha certeza de que precisava do tal diploma”, alega.

Em 1986, no mesmo ano em que entrava em vigor o Plano Cruzado (também chamado de Plano Sarney), ele decidiu abrir o próprio laboratório. “Em meio ao turbilhão econômico, consegui comprar um laboratório montado em uma sala pequena, com alguns equipamentos e uma linha de telefone”, explica. Assim, ele criou a marca Dental Atelier, pois queria fugir dos nomes usuais. “Quem trabalha em laboratório está elaborando, experimentando, testando. Eu sou artista do sorriso, então optei pelo termo atelier”, justifica.

 

Novos cenários, novos horizontes

Ao longo dos anos, o negócio foi mudando e o TPD começou a ministrar um curso sobre morfologia dos dentes, esculpindo em pedra-sabão. Depois, passou a ensinar sobre aplicação em novas linhas cerâmicas e mudou a sede da empresa para um local próprio e maior.

No início de 2008, porém, o ateliê se transformou: os cursos foram fechados e a nova estrutura contava apenas com três colaboradores, dentre eles, sua esposa Zuleica e seu genro Juan Leonardo López. “Passei a viajar e fazer trabalhos em laboratórios de clínicas em Natal, Recife, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba. Conheci muitos profissionais competentes e frequentei muitos congressos também como palestrante”, explica. Foi nesse mesmo ano que ele ganhou o título de membro honorário da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética. Associado a todas as suas titularidades, atualmente também é colaborador e instrutor técnico da Vita Zahnfabrik, na Alemanha.

Hoje, Ankli considera que seu laboratório está em fase de transição. “Tenho na minha equipe o Juan Leonardo, um aprendiz muito talentoso e braço direito. Eu confecciono os trabalhos complexos e ele já faz todos os serviços em cerâmica de maquiação. Meu plano é passar o negócio para ele”, afirma. Sobre o uso das novas tecnologias e técnicas mais avançadas, o caminho escolhido tem sido firmar parcerias confiáveis. Do outro lado do corredor do seu ateliê, por exemplo, funciona o Dental Labor, que pertence a um ex-aluno de Ankli e onde são realizadas todas as demandas relacionadas a CAD/CAM.

 

Mestres e pioneirismo

Como referências profissionais, Rolf cita John Frush, que o fez enxergar a importância da estética vermelha e o despertou para procurar cerâmicas vermelhas para criar papilas. Isso aconteceu durante uma aula inesquecível sobre montagem de dentes artificiais femininos e masculinos, já que existe uma diferença entre eles.

Outro nome importante para ele é Franz Schaub: “Foi meu mestre. Ele insistia muito na escultura natural das gengivas artificiais nas próteses”, destaca. Nessa área, aliás, Ankli foi pioneiro: “Fiz a primeira epítese em 1980 para uma artista que se queixava que estava passando muito ar entre os dentes e atrapalhava sua fonética”, afirma. Nessa mesma época, o suíço começou a experimentar trabalhos com gengivas fixas em cerâmica. Outro marco na carreira do TPD foi a criação e a publicação do uso de aparelhos ortodônticos na mudança estética severa em prótese total.

 

Pelas ondas do mar

Quando não está tocando o laboratório junto com sua esposa Zuleica, que cuida da parte administrativa, é nas águas e nos ventos que ele pensa. Outra grande paixão de Ankli é a vida no oceano: ele já supera a marca de mais de 200 dias em alto mar. Em 1977, participou da regata entre Rio de Janeiro e Inglaterra, que durou 45 dias seguidos; em 1979, foi de Salvador a Barbados em 29 dias; e em 1985 foi de San Martin a Barbados em 28 dias. “Ele já programou o próximo desafio: será no mar Mediterrâneo, de Valência (na Espanha) até o Marrocos”, conta Zuleica. Que os ventos continuem soprando a seu favor.