Publicado em: 12/02/2019 às 09h50

Francisco Amado Bastos Lacroix: em busca da perfeição

Biografia: a vontade de estar à frente das próprias expectativas foi o que impulsionou o mestre à excelência, tanto no consultório quanto na vida acadêmica.

Francisco Amado Bastos Lacroix colocou toda sua energia e conhecimento em tudo o que fez. (Ilustração: Lézio Júnior)

 

Estar entre os melhores sempre foi o objetivo e uma realidade na trajetória do protesista gaúcho Francisco Amado Bastos Lacroix. Mas, isso só foi possível porque ele coloca toda sua energia e conhecimento em tudo o que faz: a perfeição faz parte tanto da meta quanto da jornada. Durante a vida escolar, no vestibular, na faculdade e em todos os concursos que prestou, ele foi sempre o primeiro colocado.

Nascido em 4 de maio de 1937, em Porto Alegre (RS), cidade onde vive até hoje, Lacroix perdeu o pai com oito anos e morou durante muito tempo com a mãe e as tias. Em junho de 1958, enquanto cursava o segundo ano da Faculdade de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), casou-se com Yara Schwalm, com quem teve quatro filhos: Liége, Celso, Paulo e Rodrigo. Há mais de seis décadas, Yara é sua companheira incansável, parceira em todas as iniciativas e essencial para a formação de uma família unida e alegre.

Na rotina profissional, a disciplina era igualmente notável: atendia os pacientes em seu consultório de segunda a sexta-feira, das 7h às 21h, com exceção das quartas-feiras à tarde, período em que se dedicava à Faculdade de Odontologia da PUCRS. Atendia também aos sábados de manhã e, às vezes, até à tarde. Mesmo vivendo intensamente a Odontologia, nos finais de semana seu passatempo era administrar propriedades rurais. “Ele gostava de melhorar os campos e implementar pastagens. Estudava manejo e melhoramento genético dos animais. Teve propriedades em Campo Grande (MS), Tocantins, Camaquã (RS) e Rio Pardo (RS)”, detalha o filho Celso Lacroix. Porém, mesmo em meio a tantas atividades, não abria mão de tirar férias anuais, momento em que gostava de viajar com a família e ir à praia.

Se hoje a Odontologia está entre suas paixões, antes ela não tinha esse lugar cativo, pois surgiu por acaso em sua vida. “Na verdade, eu sonhava em ser piloto da Varig”, conta Francisco Lacroix. Com 19 anos, ele fez o concurso e foi aprovado, porém não pôde assumir porque não passou no exame de saúde por ser hipertenso – um problema com poucas soluções naquela época. “Nesse momento, optei pela Odontologia, pois achei que era um curso relativamente rápido: em quatro anos eu já poderia buscar minha independência financeira. Não foi uma escolha motivada pela tradição de família; não havia nenhum parente que tivesse seguido por esse caminho”, relata o protesista.

O sucesso profissional e a paixão de Lacroix abriram as portas para as gerações seguintes: Celso e Rodrigo seguiram os passos do pai, trabalham na área e são professores em tempo parcial na Faculdade de Odontologia da PUCRS. Liége casou-se com um dentista e Paulo se casou com a filha de um colega de profissão.

Hoje, aos 81 anos de idade, a rotina agitada e cheia de compromissos deu lugar a um cotidiano mais pacato: Lacroix aproveita a aposentadoria, pois se despediu da vida acadêmica em 2011 e da clínica em 2012.

Momento da sua graduação, em 1960. (Fotos: acervo pessoal) Em 1979, no dia da posse de seu segundo mandato
como diretor da Faculdade de Odontologia da PUCRS.

 

Trajetória: de aprendiz a mestre

A partir do segundo ano na Faculdade de Odontologia da PUCRS, Lacroix começou a trabalhar como protético para seu professor e mentor Palmizio Nocchi – esse foi o seu primeiro passo em direção à Prótese Dentária. Posteriormente, ao se formar, em 1960, recebeu uma bolsa para estudar um ano no exterior, como benefício por ter a primeira colocação no curso de graduação em Odontologia. “Ele poderia ter escolhido entre Estados Unidos ou Argentina, mas, com dinheiro curto, esposa e filha para sustentar, escolheu Buenos Aires, que na época era uma referência na área de Periodontia, principalmente pela atuação do Prof. Fermin Carranza e associados”, afirma  Celso Lacroix.

Após um ano de muito aprendizado em terras portenhas, ele voltou para Porto Alegre e fez um concurso público estadual para atuar como dentista. Passou em primeiro lugar e trabalhou por pouco tempo como servidor estadual, já que pediu exoneração para se dedicar ao próprio negócio. “Foi quando abri meu primeiro consultório no centro de Porto Alegre, juntamente com os colegas Luiz Fernando Velasco e Bruno Foernges, com as especialidades de Prótese Dentária e Periodontia”, conta. Nesse mesmo período, ele iniciou a atividade de professor na Faculdade de Odontologia da PUCRS, na disciplina de Prótese.

No início dos anos 1970, foi para São Paulo aprender a então revolucionária técnica da metalocerâmica. “Esse foi um ponto de virada na carreira dele. Após fazer diversos cursos, mudou-se para um novo consultório, onde montou um laboratório de prótese completo. Lá, ele ensinou e treinou uma equipe de cinco técnicos que executavam a totalidade de seus trabalhos de reabilitação. Um deles, Adelina Avrela, trabalhou comigo por 42 anos até se aposentar, a qual sou muito grato”, detalha Celso.

Todo esforço e foco foram recompensados: dotado de uma habilidade manual excepcional, grande capacidade de trabalho e estudo constante, logo tornou-se referência em sua área de atuação. Assim, começaram os convites para ministrar cursos em todo o estado do Rio Grande do Sul. Sua paixão por ensinar e o desejo de partilhar seus conhecimentos foram aplicados também em congressos e na Faculdade de Odontologia da PUCRS. Segundo Celso, juntamente com colegas mais velhos e mais jovens, ele transformou a instituição em uma referência na área da Prótese Dentária.

À esquerda, Lacroix durante uma mesa demonstrativa sobre prótese parcial removível, juntamente com o Prof. Palmizio Nocchi.

 

Visionário

Uma das marcas de Lacroix foi divulgar a importância de realizar uma Odontologia de alto nível, baseada na excelência profissional, com a utilização dos melhores materiais disponíveis e procurando sempre superar as expectativas dos pacientes.

O lugar onde tudo começou também foi o lugar de onde a excelência de seu trabalho se espalhou. Toda a vida acadêmica dele esteve vinculada à PUCRS, onde se formou, foi professor titular e diretor durante dois mandatos (1976-1978 e 1979-1981). Ao longo de quase 50 anos de atividades, ele foi peça fundamental na estruturação curricular do curso, na organização do departamento de Prótese e no desenvolvimento das clínicas de prótese que atendem à comunidade, onde os alunos de graduação e pós-graduação executam trabalhos de alto nível a preço de custo. Paralelamente à academia, ele também foi presidente do Conselho Regional de Odontologia entre 1974 e 1975.

Lacroix e seu filho Rodrigo ao lado do Prof. P-I Brånemark, em 2003.

 

Além de se manter atualizado profissionalmente, é preciso entender e captar as movimentações do mercado. E essa também era uma característica de Francisco Lacroix: estar constantemente antenado às novas tendências. “No início dos anos 1990, percebi que a Implantodontia seria a nova revolução na profissão, semelhante ao que aconteceu com a metalocerâmica. Fui para Santos (SP) aprender a técnica cirúrgica de implantes com Laércio Vasconcelos. Aproveitando-me da presença dos professores Fernando Cauduro e Gilson Beltrão, pioneiros na especialidade no Rio Grande do Sul, implantei um curso de extensão universitária para difundir o conhecimento nessa área, que ainda era vista com desconfiança”, afirma. Essa iniciativa permitiu que hoje os cursos de especialização em Implantodontia, Cirurgia Bucomaxilofacial e Periodontia possam instalar centenas de implantes a cada ano.

Celso destaca o quanto o pai trabalhou para que o currículo da graduação ganhasse a disciplina de Prótese Sobre Implantes e ainda fosse acrescido de um ano de duração, totalizando cinco anos. Além da preocupação com a divulgação das técnicas e difusão dos conhecimentos para alunos e professores, o protesista sempre valorizou o trabalho dos TPDs. “Ele teve a iniciativa de orientar a PUCRS a utilizar bons laboratórios e pagar o preço de mercado pelo serviço deles. Desta forma, os laboratórios cresceram e se aperfeiçoaram na área da Prótese Dentária e Prótese Sobre Implantes”, acrescenta o filho. Disso nasceu uma relação de amizade e respeito por Carlos Maranghello e Cedenir Albani.

 

Em 2007, na clínica de prótese, junto com o filho Celso e os Profs. Gallina e Fedumenti.

 

Um detalhista

Determinado, muito ativo e incansável no trabalho, enquanto estava à frente do consultório, Francisco Lacroix primou pela qualidade – buscava sempre a perfeição. “Algumas vezes, ele repetia trabalhos prontos por ter encontrado um pequeno defeito que o paciente nem enxergaria, pois tinha o compromisso pessoal de entregar sempre o melhor”, conta Celso.

Outra característica do protesista é a consideração e o respeito com todos a quem atendia, tratando-os com igualdade, independentemente da condição financeira. “Por tudo isso, ele foi exemplo e inspiração para centenas de alunos. Lacroix é lembrado por ex-alunos como uma pessoa simples, um professor acessível, sempre disposto a ensinar, apaixonado pelo ensino e pela profissão, sem esquecer a importância da família”, conclui.

 

Dedicado à família, Lacroix aprecia reunir os quatro filhos e os netos nos finais de semanas e em viagens.