Publicado em: 20/02/2019 às 09h21

Distalizador de Carrière ganha destaque no tratamento da má-oclusão classe II de Angle

Movimentos precisos: conheça mais detalhes deste bem-sucedido recurso ortodôntico.

Em meio a tantos métodos de tratamento da má-oclusão classe II de Angle, os resultados obtidos com o distalizador de Carrière têm se destacado. Conheça a seguir mais detalhes deste bem-sucedido recurso ortodôntico.


Por meio da distalização em bloco do segmento posterior superior, com controle tridimensional do movimento dentário, o uso do distalizador de Carrière tem se apresentado como uma excelente alternativa para a correção da má-oclusão classe II de Angle.

Baseados na literatura e em experiências clínicas, os ortodontistas José Artur Cunha Pupo e Eduardo Prado falam sobre as particularidades desse recurso, fazendo uma abordagem que envolve desde as indicações, vantagens e desvantagens, até o funcionamento, instalação, tempo médio de tratamento e associação com outros aparelhos ortodônticos.

 

José Artur Cunha Pupo

Especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial – Unicastelo; Especialista e mestre em DTM/DOF – Faculdade São Leopoldo Mandic; Membro fundador da SBDOF.


De maneira resumida, o Carrière Motion, ou mais comumente conhecido como distalizador de Carrière, é um acessório ortodôntico criado pelo ortodontista e pesquisador espanhol Luis Carrière. Usado principalmente para transformar casos classe II de Angle em classe I, já no início do tratamento ortodôntico, de fato simplifica muito o curso terapêutico e a mecânica ortodôntica, além de diminuir bastante o tempo e, consequentemente, os efeitos colaterais do tratamento. Esse acessório, composto por um único elemento, tem instalação simples: basta fazer a colagem apenas no primeiro molar e no canino superior – ou algumas vezes no primeiro molar e no primeiro pré-molar superior (Figura 1).

Figura 1 – Distalizador de Carrière e seus elementos.

 

Basicamente, esse recurso pode ser indicado para correção de todos os casos de classe II dentária de Angle, tanto na dentição permanente como na mista. Particularmente, gosto muito de utilizá-lo na correção da classe II unilateral, situação em que a simplificação da mecânica e a diminuição do tempo de tratamento se mostram incontestáveis.

Dentre as vantagens do distalizador de Carrière, destacam-se:

• Forças leves (entre 6 e 8 oz, que equivalem a 160 e 220 g, para mover o segmento inteiro);

• Tempo de tratamento mais curto;

• Instalação simples e rápida;

• Ativações no molar já estão incorporadas ao aparelho;

• É confortável para o paciente;

• Não tem efeito colateral caso o paciente não use o elástico corretamente (nesse caso, apenas não irá ocorrer movimentação);

• Há melhor aceitação dos pacientes;

• Correção dos dentes em bloco – ou seja, todo o segmento posterior se movimenta ao mesmo tempo;

• A estabilidade da classe I é consideravelmente aumentada devido à correção do giro no molar.


Porém, assim como todos os aparelhos que utilizam elásticos intermaxilares – e a movimentação dentária depende diretamente da força que esse elástico produz –, a grande desvantagem desse recurso é a necessidade de cooperação do paciente, já que é ele quem coloca e remove os elásticos. Caso a ancoragem não seja satisfatória, poderá ocorrer vestibularização dos incisivos inferiores. No arco inferior, pode-se fazer a ancoragem com placa de acetato (1 mm), aparelho fixo, arco lingual, mini-implante, miniplacas de ancoragem e até mesmo implantes já instalados com finalidade reabilitadora (Figuras 2).

Figuras 2 – A. Placa de acetato de 1 mm. B. Aparelho fixo.

 

A escolha do aparelho é realizada com o auxílio de uma régua-gabarito, que deve ser posicionada no sulco vestibular dos primeiros molares e no centro da face vestibular dos caninos superiores – como se fosse colar um braquete no canino, dessa forma, já estará marcado na régua o tamanho do aparelho (Figura 3).

 

 

Figuras 3 – A. Régua-gabarito. B. Posicionando a régua, o número que está marcado no centro da face vestibular do canino será o número do Carrière Motion a ser utilizado. C. Carrière Motion, tubo no dente 46, placa de acetato 1 mm inferior e elástico intermaxilar.

No momento da instalação, o processo é similar à colagem do braquete: fazendo limpeza da área, condicionamento ácido e aplicação de adesivo na superfície dental. No aparelho, é necessário aplicar a resina na base de colagem. Para a arcada inferior, deve-se colar um acessório (tubo ou botão) na face vestibular do dente, que servirá de apoio ao elástico (primeiro ou segundo molares). Se a escolha da ancoragem for pela placa de acetato, é preciso realizar a moldagem da arcada inferior e confeccionar a placa de acetato de 1 mm, recortá-la, dar acabamento e, então, instalá-la.

A ação do distalizador de Carrière pode ser detalhada da seguinte forma:

• Promove rotação do primeiro molar superior graças ao encaixe do braço rígido com o tubo no molar. Esse fato se deve à forma como o encaixe foi concebido;

• Distaliza o segmento canino-molar como bloco único, já que o braço rígido não se altera durante a movimentação, travando os dentes como uma unidade;

• Começa a correção da classe II de Angle já no início da rotação do molar, antes mesmo de haver distalização;

• Movimenta os dentes de “corpo” sem que ocorra inclinação mesiodistal;

• Não trava os dentes anteriores, possibilitando até mesmo que a linha média comece a ser corrigida durante seu uso, criando diastemas na região anterior da arcada superior (Figuras 4 e 5).

 

Figuras 4 – Após a correção obtida com o Carrière Motion, observa-se a rotação do dente 16, distalização em bloco do segmento canino-molar e presença de diastemas na região anterior.

 

Figuras 5 – A. Radiografia panorâmica inicial. B. Radiografia panorâmica após distalização com o uso do Carrière Motion, em que observamos distalização do bloco posterior. C. Vista frontal, mostrando a presença de diastema anterior e grande melhora no desvio da linha média apenas com a distalização do segmento superior posterior direito. D. Correção da classe II de Angle unilateral direita.

 

Em Ortodontia, a duração do tratamento depende da gravidade e da complexidade do caso, além da cooperação do paciente. Mas, em média, a correção da classe II leva de dois a sete meses – e esse tempo é para transformar o caso de classe II para classe I de Angle, para somente depois iniciar a mecânica ortodôntica para finalizar o caso, que poderá ser com Ortodontia fixa ou alinhadores (Figuras 6 e 7).

 

Figuras 6 – A e B. Imagens após sete meses de tratamento. C e D. Imagens após três meses de tratamento.

 

Figuras 7 – A. Elástico triângulo aplicado. B. Carrière Motion como contenção, enquanto é realizada a correção com arco base.


A contenção promovida pelo distalizador de Carrière começa naturalmente com a oclusão obtida. Porém, ao utilizar aparelho fixo na finalização do caso, pode-se lançar mão de elásticos em formato triangular nos caninos superiores e inferiores e ainda nos primeiros pré-molares inferiores – também é viável manter o próprio Carrière Motion com força diminuída e uso do elástico apenas para dormir. Quando a mecânica escolhida são os alinhadores, eles mesmos servem como contenção.

Quando o ortodontista optar pelo distalizador de Carrière, é fundamental observar o tamanho do aparelho, a força utilizada e a ancoragem do arco inferior. Para escolher o aparelho, a régua-gabarito deve ser usada com exatidão e, para a escolha do elástico intermaxilar, é imprescindível o uso do dinamômetro, que mostra a força exercida pelo elástico. Se a placa de acetato for a escolha para a ancoragem inferior, ela deverá estar bem ajustada, sem bordas cortantes e estável. Além disso, é imprescindível que  o paciente esteja empenhado e motivado a usar os elásticos.

 

Eduardo Prado

Especialista, mestre e doutor em Ortodontia e Ortopedia Facial – FOB/USP; Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia – Instituto Eduardo Prado, em Lisboa (Portugal); Professor do curso de especialização – Ceao/SP e Ceao/Rio; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia – Sobresp/Santa Maria; Professor do curso de especialização do IOA-Paraguai.

O tratamento da classe II em Ortodontia é sempre constante na prática clínica, sendo que a má-oclusão classe II subdivisão representa praticamente 50% deste tipo de incidência. Os pacientes que apresentam esta relação molar unilateral costumam ter um desvio entre as linhas médias dentárias superior e inferior – ou destas com o plano sagital mediano.

No caso clínico mostrado, observa-se no ângulo frontal que a paciente não possuía desvio esquelético, tendo uma excelente simetria frontal, selamento labial passivo e pequena assimetria labial (Figuras 1 e 2). Entretanto, na foto do sorriso verifica-se um pequeno desvio da linha média superior para a esquerda, com a presença de apinhamento suave (Figura 3). Ao avaliar clinicamente a paciente – que curiosamente também é ortodontista –, foi possível observar pela análise oclusal que ela apresenta classe II divisão 2, subdivisão, com ¾ de classe II do lado direito e do lado esquerdo, com uma relação molar de classe I (Figuras 4). A análise da simetria das arcadas dentárias avaliada pelas fotos oclusais detectou assimetria nas arcadas superior e inferior (Figuras 5). Este tipo de má-oclusão pode receber diferentes tratamentos, tais como: extrações assimétricas (opção que foi recusada de imediato pela paciente), AEB assimétrico, elásticos assimétricos, mecânica assimétrica apoiada em mini-implantes ou miniplacas, pendex e sliding jig, além de inúmeros outros aparelhos.

Figuras 1 – Selamento labial passivo e desvio dentário superior para a esquerda.

 

Figura 2 – Apresenta bom perfil facial
e sem assimetria esquelética.
Figura 3 – Apinhamento superior.
Perfil desfavorável às extrações.

 

Figuras 4 – Conjunto de imagens mostra ¾ de classe II do lado direito e classe I do lado esquerdo.

 

Figuras 5 – Suave assimetria oclusal.


Contudo, o que torna relevante neste relato de caso clínico é descrever a ação específica unilateral do distalizador de Carrière estético e sua eficiência antes da instalação completa dos aparelhos fixos superior e inferior. Geralmente, a mecânica ortodôntica convencional, mais comumente usada em nossa rotina clínica, pode produzir efeitos colaterais indesejáveis na região dos incisivos: ou pela ação dos fios durante o alinhamento e nivelamento ou pela falta de controle de torque durante o uso de elásticos.

A intenção do Carrière Motion, conhecido também como distalizador de Carrière, é corrigir a classe II antes da instalação da aparatologia fixa, fazendo com que o paciente colabore com a utilização de elásticos já no início do tratamento.

O distalizador de Carrière estético utilizado nessa paciente está disponível em seis tamanhos (16 mm, 18 mm, 20 mm, 23 mm, 25 mm e 27 mm). Para selecionar o comprimento adequado, deve-se medir a distância entre a ponta da cúspide do canino superior e o sulco vestibular do primeiro molar superior. Esse dispositivo, colado no canino superior e no molar superior, produz um movimento rotacional distal dos primeiros molares superiores, movimentando para a distal todo o segmento posterior como se fosse uma unidade. Este efeito é resultante da ação dos elásticos de classe II usados 24 horas desde o início, apoiado e ancorado na arcada inferior por meio do arco lingual de Nance ou placa de acetato, com o objetivo de diminuir o efeito colateral de extrusão do molar inferior e protrusão dos incisivos.

Nessa paciente adulta de 29 anos, utilizou-se elástico de classe II unilateral com diâmetro 3/16” com força de 3,5 oz, com o objetivo de corrigir a relação anteroposterior deste lado (Figuras 6). A evidência clínica de que esses objetivos foram atingidos é a relação de classe I de molar e caninos obtida em três meses, além do aparecimento de diastemas na região anterior, devido à abertura de espaço na mesial do canino superior (Figuras 7). Portanto, os objetivos propostos pelo distalizador, que foi o posicionamento em classe I de canino e do molar, foram atingidos e, a partir dessa fase, pôde-se fazer a colagem completa dos acessórios. Não se pode esquecer de conjugar desde o canino até o molar no lado da correção da classe II para o início da segunda fase do tratamento ortodôntico (Figuras 8). Foi realizada a evolução até o fio retangular de aço 0,017 x 0,025 para fazer a retração da bateria anterior.

 

 

Figuras 6 – Elástico 3⁄16 médio usado 24 horas por dia.

 

Figuras 7 – A. Classe I de canino e classe I molar após três meses de uso de elásticos. B. Abertura de espaços, evidenciando clinicamente a eficiência do distalizador.

 

Figuras 8 – Conjugação do 13 ao 16 e início da segunda fase do tratamento.

 

A correção sagital da má-oclusão logo no início pode, em algumas situações, diminuir a duração do tratamento ortodôntico, assim como ocorreu neste caso, no qual o tempo total foi de 14 meses.

Nas fotos oclusais finais, observa-se uma boa intercuspidação, trespasse horizontal corrigido e coincidência das linhas médias dentárias com o plano sagital mediano (Figuras 9), evitando as exodontias assimétricas que haviam sido planejadas inicialmente como primeira opção de tratamento. Mas, os objetivos estéticos foram alcançados (Figuras 10 e 11).

Figuras 9 – Linhas médias superior e inferior coincidentes e classe I bilateral.

 

Figuras 10 –
Suave assimetria labial
e perfil facial inalterado.
Figura 11 – Plano sagital
mediano coincidente com
a linha dentária superior.


Pôde-se concluir que o distalizador de Carrière é um dispositivo de fácil instalação para o paciente e promove a distalização de um bloco de dentes (de canino a molar), facilitando primariamente a correção sagital. Entretanto, ainda vale ressaltar que a colaboração com o uso de elásticos se faz necessária para o sucesso do tratamento.

 

 

 
   


Coordenador de conteúdo:

Alexander Macedo

Especialista e mestre em Ortodontia e Ortopedia Facial; Pós-graduação na Universidade Johannes Gutenberg de Maiz (Alemanha); Professor de Ortodontia no Instituto Vellini.