Publicado em: 11/04/2019 às 16h21

Relação entre a usinagem e o comportamento das restaurações cerâmicas

Renata Marques de Melo detalha trabalho que avaliou o efeito da sequência de usinagem até seis, 13 e 18 vezes no comportamento em fadiga do material.

A confecção manual de restaurações cerâmicas diminuiu com o advento da tecnologia CAD/CAM. A razão para esse decréscimo não foi apenas porque a usinagem é um método mais rápido e prático, mas também porque os blocos para CAD/CAM são mais homogêneos, pois são controlados industrialmente – ao passo que a aplicação manual da cerâmica consiste em várias etapas e depende muito da habilidade do técnico. Mesmo assim, apesar de menos suscetível ao erro humano, o processo de manufatura em CAD/CAM também poderia comprometer a performance das restaurações, uma vez que a vida útil das brocas afetaria a eficiência do seu corte.

Para testar esta conjectura, um trabalho1 avaliou o efeito da sequência de usinagem até seis, 13 e 18 vezes no comportamento em fadiga do material. Os resultados demonstraram que não houve diferença no comportamento do material usinado quando a broca era considerada nova (até seis vezes) ou bastante utilizada (18 vezes), apesar do deterioramento das peças através da enucleação de diamante de sua superfície. Os autores comentam que apenas 18 usinagens foram possíveis a cada par de brocas, pois pelo menos uma delas fraturou por volta da 18a usinagem.

Naturalmente, os resultados do estudo são limitados às condições e aos equipamentos usados, e o desfecho poderia ter sido outro, dependendo do equipamento e das brocas. Além disso, a ponderação feita pelos autores do artigo – de que as amostras usinadas no estudo eram de dissilicato de lítio (IPS e.max CAD), um material bastante duro – é necessária para se compreender a razão da deterioração da broca ter ocorrido de forma mais rápida. Portanto, a vida útil das brocas também está associada ao tipo de material que está sendo usinado.

Em outro estudo, os pesquisadores observaram que o material recém-usinado apresenta resistência mecânica inferior, em comparação à superfície que recebeu polimento2, confirmando a hipótese de que danos na superfície do material podem limitar a resistência. Entretanto, no primeiro estudo1, os autores recorreram à fadiga como forma de simular o que ocorre em boca com a função mastigatória. O aumento da rugosidade devido ao uso progressivo das brocas CAD/CAM também foi relatado em outra investigação após a usinagem de no mínimo 24 peças3.

Como conclusão, a literatura sobre esse tema ainda precisa ser mais explorada, pois quais seriam os efeitos de outras variáveis (manipulação pós-usinagem, condicionamento ácido, cimentação etc.) sobre o material usinado? O leitor é, então, convidado a pesquisar a literatura científica para embasar suas opiniões.
 

Referências
1. Madruga CFL, Bueno MG, Dal Piva AMO, Prochnow C, Pereira GKR, Bottino MA et al. Sequential usage of diamond bur for CAD/CAM milling: effect on the roughness, topography and fatigue strength of lithium disilicate glass ceramic. J Mech Behav Biomed Mater 2019;91:326-34.
2. Fraga S, Amaral M, Bottino MA, Valandro LF, Kleverlaan CJ, May LG. Impact of machining on the flexural fatigue strength of glass and polycrystalline CAD/CAM ceramics. Dent Mater 2017;33(11):1286-97.
3. Corazza PH, de Castro HL, Feitosa SA, Kimpara ET, Della Bona A. Influence of CAD-CAM diamond bur deterioration on surface roughness and maximum failure load of Y-TZP-based restorations. Am J Dent 2015;28(2):95-9.

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.