Publicado em: 20/05/2019 às 13h15

Quais cimentos resinosos posso utilizar para cimentação de próteses cerâmicas?

Na coluna Pergunte ao especialista, Eduardo Miyashita e colaboradores respondem aos leitores da revista PróteseNews.

“Quais cimentos resinosos posso utilizar para cimentação de próteses cerâmicas?”

Rodrigo Othávio de Assunção e Souza – Atualmente, existe uma grande variedade de cimentos resinosos disponíveis para cimentação de restaurações cerâmicas, com diferentes composições químicas, propriedades, modos de ativação e modos de interação com o dente e com as cerâmicas. Os cimentos resinosos também podem ser classificados em convencionais, autocondicionantes ou autoadesivos. Os resinosos convencionais ou não adesivos necessitam de um sistema adesivo geralmente associado ao condicionamento ácido do preparo previamente à cimentação – por exemplo, o RelyX ARC/3M Espe e AllCem/FGM. Já os autocondicionantes são duais e apresentam um sistema adesivo autocondicionante ou universal específico, o qual é capaz de condicionar o substrato em um único passo para ser utilizado com o respectivo cimento – por exemplo, o RelyX Ultimate/3M Espe, Panavia V5/Kuraray e Multilink N/Ivoclar. Já os cimentos resinosos autoadesivos são cimentos de polimerização dual que não necessitam de condicionamento ácido prévio ao preparo e nem do uso de sistema adesivo. Esses cimentos apresentam monômeros de metacrilato contendo grupos de ácido fosfórico em sua composição, os quais proporcionam condicionamento da dentina e componentes que favorecem a adesão, embora baixa, às cerâmicas cristalinas. Como exemplo, temos: RelyX U200 3M Espe, Multilink Speed Ivoclar e Set PP SDI. Dessa forma, diversas opções de cimentos resinosos podem ser utilizadas, no entanto o modo de ativação do cimento (fotopolimerizável, dual ou químico) e os aspectos clínicos, como condição do substrato, características do preparo, tipo e espessura das restaurações cerâmicas, podem influenciar na escolha do agente cimentante para cada situação clínica.

 

“Os cimentos resinosos autoadesivos são sempre a melhor indicação para cimentação de coroas totais?”

Taciana Emília Leite Vila-Nova – Os cimentos resinosos autoadesivos duais têm sido cada vez mais utilizados na Odontologia para cimentação de restaurações cerâmicas, por apresentarem um protocolo de cimentação simplificado, reduzindo o número de passos clínicos. Esses materiais apresentam em sua composição, além do cimento resinoso, componentes que promovem o condicionamento e favorecem a adesão a diversos substratos. No entanto, apesar da praticidade, não podem ser utilizados em todas as situações clínicas. Alguns fatores, como o tipo de substrato, as características do preparo e o tipo de cerâmica, podem interferir no desempenho da adesão desses cimentos. Comparados aos cimentos convencionais e aos autocondicionantes, os cimentos autoadesivos apresentam uma adesão significativamente inferior à dentina. Em casos de dentinas escleróticas ou radiculares, o cenário tona-se ainda pior, pois há redução no diâmetro dos túbulos dentinários e menor quantidade de fibras colágenas, dificultando a interação do cimento com a dentina e, consequentemente, diminuindo ainda mais a adesão. Já em situações em que o material restaurador é uma cerâmica cristalina ou acidorresistente, quando nenhum tratamento de superfície específico é realizado, a retenção da restauração protética está associada principalmente à retenção friccional ao preparo, já que os cimentos autoadesivos possuem baixa adesão a esse grupo de materiais cerâmicos.

Outra característica que deve ser observada é a conicidade dos preparos, pois quando apresentam angulações maiores que 10º podem promover menor retenção friccional e, assim, contribuir para o deslocamento da prótese. Nesses casos, alguns princípios biomecânicos dos preparos totais são fundamentais para que a retenção da restauração não se torne totalmente dependente da capacidade de união/adesão do cimento. Dentre os princípios mecânicos, a altura do preparo deve ter no mínimo 5 mm, uma vez que quando é excessivamente curto facilita o descolamento da peça protética. Sendo assim, é importante avaliar previamente as características do preparo (tipo: parcial ou total; princípios mecânicos: altura e expulsividade), condição da dentina remanescente e tipo de material restaurador, a fim de determinar o agente cimentante ideal em cada caso clínico.

 

“Qual a estratégia de cimentação indicada para casos de coroas totais com preparos curtos e/ou mais expulsivos?”

Dayanne Monielle Duarte Moura – Apesar dos cimentos resinosos autoadesivos se mostrarem práticos e com procedimentos simplificados, em situações clínicas em que o preparo apresenta menor retenção (altura abaixo de 5 mm e/ou muito expulsivo), pode-se lançar mão de cimentos resinosos autocondicionantes, ou seja, cimentos resinosos duais associados a sistemas adesivos autocondicionantes/universais específicos do próprio cimento. Esse sistema promove o tratamento da superfície do preparo antes da cimentação. Esta etapa favorece a hibridização e, consequentemente, a maior retenção da coroa ao preparo.

Outra vantagem dos cimentos resinosos autocondicionantes é a interação química com o seu respectivo sistema adesivo, o que permite a polimerização simultânea desses componentes durante a cimentação. Essa etapa reduz a possiblidade de desadaptação da coroa e promove uma polimerização mais completa do cimento resinoso, proporcionando maior retenção e resistência à fratura da coroa. Dessa forma, os cimentos resinosos autocondicionantes, apesar de apresentarem um passo clínico a mais, possuem grande versatilidade e melhor desempenho, sendo mais indicados para casos de coroas totais com preparos curtos ou expulsivos.


 

Figuras 1 – A e B. Aspecto clínico inicial de coroa cerâmica Vita Enamic/Vita (cerâmica feldspática infiltrada por polímero) do elemento 36, cimentada com cimento resinoso autoadesivo (RelyX U200/3M Espe). C e D. Vista interna da coroa descolada após 15 dias da cimentação. Observar a presença de remanescentes de cimento resinoso aderidos à superfície interna da coroa.

 

Figuras 2 – A. Vista oclusal do preparo do elemento 36 após o descolamento da coroa. Coroa clínica curta (3,5 mm de altura) sendo mensurada com sonda milimetrada periodontal. B e C. Observar preparo curto e expulsivo por lingual e por vestibular.

 

Figura 3 – Remoção de remanescentes de cimento resinoso da superfície interna da coroa com jateamento de partículas de óxido de alumínio (Al2O3) durante 20 segundos. Em seguida, a superfície foi limpa com álcool absoluto e seca com ar.

 

Figuras 4 – Nova estratégia de cimentação, desta vez realizada com cimento resinoso dual autocondicionante (RelyX Ultimate/3M), o qual já possui um sistema adesivo universal (Single Bond Universal/3M) específico para o cimento. Na peça cerâmica, o tratamento de superfície foi: a) condicionamento com ácido fluorídrico 10% durante 60 segundos; b) lavagem e secagem da superfície; c) aplicação de uma camada de silano durante um minuto; e d) manipulação do cimento resinoso dual e inserção no interior da coroa.

 

Figuras 5 – A. O tratamento da superfície do dente foi a limpeza com pedra-pomes e água durante um minuto, seguida de lavagem e secagem. Depois, foi aplicado com fricção ativa o sistema adesivo universal (Single Bond Universal/3M) durante 20 segundos na superfície do preparo, seguido de leves jatos de ar (não fotoativar o adesivo). B. Após a manipulação do cimento resinoso, a coroa foi adaptada ao preparo e os excessos de cimentos foram removidos com o auxílio de um pincel. C. Na sequência, foi feita fotopolimerização durante 40 segundos em cada face.

 

Figuras 6 – Aspecto clínico da coroa após três meses da cimentação com a nova estratégia. A. Vista oclusal. B. Vista vestibular.

 

 

 

Coordenação:

Eduardo Miyashita

Professor titular do Depto. de Odontologia, disciplina de Prótese Dental – Unip/SP; Doutor em Odontologia Restauradora – Unesp/SJC.

 

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Rodrigo Othávio de Assunção e Souza

Mestre e doutor em Prótese Dentária – Unesp/SJC; Professor adjunto da disciplina de Prótese Dentária – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

 

 

 

 

 

 


Taciana Emília Leite Vila-Nova

 

Mestra e doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

 

 

 

 

 

 


Dayanne Monielle Duarte Moura

Mestra e doutoranda em Ciências Odontológicas, área de concentração em Clínicas Odontológicas – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).