Publicado em: 20/05/2019 às 13h30

A importância da resina cimentante no sucesso da restauração cerâmica

Renata Marques de Melo ressalta que o cimento resinoso tem um papel determinante na resistência do conjunto à fratura sob cargas oclusais.

Aqueles que sempre preferem cerâmicas no lugar da resina composta, devido às propriedades mecânicas superiores, podem subestimar a importância da resina cimentante – normalmente um cimento resinoso – usada para aderir restaurações cerâmicas ao substrato dentário. Embora em pequena quantidade, o cimento resinoso tem um papel determinante na resistência do conjunto à fratura sob cargas oclusais.

Que a resistência das porcelanas diminuiria com o condicionamento com ácido hidrofluorídrico já era esperado. Mas, o achado de que alguns cimentos poderiam recuperar a resistência inicial da cerâmica (sem condicionamento ácido) foi muito importante. Dessa maneira, surgiram vários estudos a respeito do tema, todos incluindo cerâmicas feldspáticas1-5. Sobre os materiais resinosos, os estudos incluem cimentos comerciais1-3 e até materiais experimentais4-5 com diversas composições, feitos pelos próprios pesquisadores. Além dos cimentos resinosos, os estudos também testaram adesivos1 e resinas flow2-3.

Desde o início, demonstrou-se que os materiais com maior módulo de elasticidade – mais rígidos – eram aqueles que mais aumentavam a resistência à fratura da cerâmica. Posteriormente, buscou-se explicar os mecanismos para esse acontecimento e como se distribuem as tensões na cerâmica e no cimento resinoso. Dessa maneira, um estudo4 mostrou como, após a aplicação de força sobre amostras em forma de discos, as tensões se distribuem no conjunto cerâmica/cimento (Figura 1). Para tanto, um disco de cerâmica foi aderido a uma camada de cimento resinoso experimental, cujo módulo elástico foi baixo (~2 GPa), intermediário (~6 GPa) ou alto (~13 GPa). Constatou-se que a cerâmica que ficava em contato com o cimento (interface) suportava mais tensões do que a camada inferior do disco (cimento apenas) e, quanto maior o módulo do cimento, mais resistente a interface se mostrou.

Analisando os discos fraturados, observou-se que nos grupos com cimento mais rígido também houve menos fraturas na região da interface, pois as trincas se propagaram a partir do cimento. Portanto, o cimento protegeu a cerâmica contra fraturas. Para os três valores de módulo, os autores também observaram íntimo contato do cimento com os microdefeitos produzidos pelo ácido na cerâmica. De acordo com os pesquisadores4, a vantagem de se produzir o próprio cimento resinoso foi a possibilidade de ter um material com propriedades mais controladas, uma vez que os materiais comerciais possuem composição não totalmente informada pelos fabricantes. Dessa forma, foram eliminadas outras variáveis que pudessem interferir nos resultados (Figura 1).

Figura 1 – Amostra em forma de disco usado por Spazzin e colaboradores. Os materiais cerâmico e resinoso encontram-se na interface. O “F” representa a força aplicada durante o teste e a seta vermelha indica sua direção e sentido. A fratura por vezes iniciou na interface, propagando-se para dentro da cerâmica, mas, em alguns espécimes dos grupos com cimento de alto módulo, começou na parte de baixo da camada de cimento. Esta figura é apenas uma representação da amostra e não necessariamente reflete as dimensões exatas da camada cerâmica e de cimento.


Como mecanismos de aumento da resistência, os pesquisadores4 relataram a importância do preenchimento dos defeitos causados pelo ácido e o maior módulo do cimento, levando à menor deformação da cerâmica na região da interface. Dessa forma, o clínico deve buscar conhecer as propriedades do cimento que utiliza na literatura.

Estudos com cenários mais complexos, analisando o efeito do substrato dentário (esmalte ou dentina) sobre a resistência do conjunto cerâmica/cimento, bem como estudos que explorem outros tipos de materiais, como vitrocerâmicas (por exemplo, IPS e.max, Celtra, Suprinty) e/ou cerâmicas híbridas (por exemplo, Enamic), também são necessários para ter uma compreensão melhor dos efeitos do cimento resinoso sobre a cerâmica.

 

Referências
1. Addison O, Marquis PM, Fleming GJ. Resin strengthening of dental ceramics- the impact of surface texture and silane. J Dent 2007;35(5):416-24.
2. Fleming GJ, Hooi P, Addison O. The influence of resin flexural modulus on the magnitude of ceramic strengthening. Dent Mater 2012;28(7):769-76.
3. Spazzin AO, Guarda GB, Oliveira-Ogliari A, Leal FB, Correr-Sobrinho L, Moraes RR. Strengthening of porcelain provided by resin cements and flowable composites. Oper Dent 2016;41(2):179-88.
4. Spazzin AO, Bacchi A, Alessandretti R, Santos MB, Basso GR, Griggs J et al. Ceramic strengthening by tuning the elastic moduli of resin-based luting agents. Dent Mater 2017;33(3):358-66.
5. Bacchi A, Spazzin AO, de Oliveira GR, Pfeifer C, Cesar PF. Resin cements formulated with thio-urethanes can strengthen porcelain and increase bond strength to ceramics. J Dent 2018;73:50-6.


 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.