Publicado em: 20/05/2019 às 13h55

Expedição leva tecnologia CAD/CAM a comunidades ribeirinhas do Norte do Brasil

Odontologia democratizada: trabalho de ONG mostra que a tecnologia pode oferecer Odontologia de ponta mesmo nos lugares mais remotos.

Ao todo, foram 34 dias de expedição, com 120 profissionais envolvidos. (Fotos: divulgação)


Por Andressa Trindade


O conforto do próprio consultório, a segurança de ter uma agenda organizada de pacientes e ter sempre à mão os equipamentos necessários para realizar um tratamento. Esse é um dia comum na vida de um profissional da Saúde já estabilizado na carreira. Mas, e se um colega propuser uma aventura? Por exemplo, visitar comunidades remotas e levar as mais recentes ferramentas disponíveis na Odontologia para essas pessoas? Foi esse o desafio aceito pelo casal Deyse Tavares de Carvalho e José Umberto Castelo Branco De Luca. Ela especialista em Prótese Dentária e mestre em Reabilitação Oral, e ele especialista em Prótese Dentária e usuário de CAD/CAM há mais de 25 anos. Ambos embarcaram na expedição da ONG Doutores sem Fronteiras (DSF) em meados de 2018, rumo à Rondônia, nas comunidades ribeirinhas do Baixo Madeira (distrito de Nazaré) e da reserva extrativista Lago do Cuniã, onde ficaram durante 12 dias.

Essa experiência foi inédita para os dois profissionais e a viagem foi motivada, principalmente, pela confiança no potencial do uso da tecnologia CAD/CAM para o tratamento odontológico em postos de saúde com pouquíssimos recursos para a realização de trabalhos de prótese dentária.

 

Time do bem e estrutura organizada

Quem escolheu o local a ser visitado pelos profissionais foi o Dr. Caio Machado, fundador da DSF e profundo conhecedor da região. Segundo José Umberto De Luca, a missão foi dividida em etapas, envolvendo 120 profissionais de diferentes áreas: dentistas, médicos, assistentes sociais e colaboradores – um time completo para cuidar integralmente da saúde dos pacientes ribeirinhos. “Participamos da terceira etapa da ação, junto com os outros dentistas da missão: Felipe Machado, Carol Carvalho, Katia Magro, Maria Fernanda Lima, Bruno Marcorine, Rodrigo Diniz, Karina Alonso Martins, José Irajá Rino e Roberto Stegun, além do próprio Dr. Caio Machado”, explica.

Logo nas primeiras consultas, pôde-se notar que os principais problemas diagnosticados estavam relacionados à má higiene bucal, falta de orientação quanto à ingestão excessiva de açúcares, cáries profundas, perda de dentes, dor e problemas periodontais. “Os atendimentos foram realizados em postos de saúde já existentes nos locais que visitamos. Nossa equipe de cirurgiões-dentistas era formada por profissionais especializados em Prótese Fixa, Prótese Removível, Dentística, Endodontia, Cirurgia e Periodontia”, relembra Deyse.

 

Após a triagem, os pacientes eram encaminhados para as devidas especialidades, sempre respeitando uma sequência de tratamento. Na terceira etapa, na qual ela e José Umberto participaram, foram realizados 39 procedimentos de prótese fixa usando CAD/CAM. Nas 11 localidades atendidas durante os 34 dias da Missão V, como foi nomeada a expedição, em torno de três mil pessoas foram beneficiadas pelos 120 profissionais envolvidos.

A facilidade e agilidade que o uso do sistema CAD/CAM promove no dia a dia clínico fizeram toda a diferença na missão. “O uso do scanner intraoral e da fresadora possibilitou a confecção das próteses fixas no mesmo atendimento, sem a necessidade de retorno do paciente. Assim, viabilizamos os tratamentos mesmo diante de um cenário em que o tempo era curto e o acesso às comunidades era difícil”, explica José Umberto. Aliás, a tecnologia CAD/CAM foi uma novidade tanto para as pessoas beneficiadas quanto para alguns profissionais envolvidos na ação.

 

Sala do posto de saúde local pronta para receber pacientes.

 

Permanente na memória

 

Para que a expedição fosse bem-sucedida, foi preciso planejamento, organização, cooperação dos profissionais envolvidos e apoio das autoridades locais e das próprias comunidades envolvidas. “A recepção desses pacientes foi extremamente positiva”, destacam Deyse e José Umberto.

Para eles, a experiência não pode ser explicada em palavras. “É difícil externar a energia da mata virgem, a alegria, a paz e a harmonia com que essas comunidades convivem. Não existe fome e nem miséria. A natureza, quando não agredida, devolve aos que dela cuidam. Vimos ali vidas modestas, mas saudáveis e sem o estresse ao qual estamos acostumados nos grandes centros urbanos”, relatam.

O casal destaca que o sucesso desse atendimento coletivo dependeu de uma ação multidisciplinar associada à utilização de materiais de qualidade e capacitação dos profissionais para a expedição. “Apesar das dificuldades de transporte e montagem dos equipamentos, os resultados evidenciaram o potencial positivo do uso do CAD/CAM em áreas de difícil acesso e a possibilidade de inclusão dessa tecnologia no atendimento à saúde pública”, conta José Umberto. “Pessoalmente, foi uma experiência ímpar para nós dois, que nos rendeu o conhecimento de lugares remotos e ainda pouco visitados, assim como o prazer de exercer nossa profissão em benefício do outro, sem retorno financeiro algum. Conhecemos um Brasil que poucos já viram. A vida corrida dos grandes centros e o envolvimento em nossas profissões não nos permitem ver a grandiosidade do nosso país. Vimos de perto que, apesar da pouca ou, por vezes, total ausência de atenção do Estado, as populações conseguem, com sabedoria, alegria e orgulho, sobreviver em condições adversas”, finaliza o especialista em tecnologia CAD/CAM.
 

De Luca realizando escaneamento intraoral para prosseguir o tratamento reabilitador.

 

Essa experiência clínica usando a tecnologia CAD/CAM em comunidades remotas rendeu o trabalho científico apresentado aqui neste link.