Publicado em: 20/05/2019 às 14h05

Cornelis Johannes Kleverlaan: a ciência dos materiais restauradores

Em entrevista, o professor holandês fala sobre a importância da pluralidade de pesquisadores nos grupos de estudos das universidades.

Cornelis Johannes Kleverlaan coordena pesquisas que abrangem os fatores que alteram a biocompatibilidade dos materiais. (Foto: Dirk Gilissen)



O químico holandês Cornelis Johannes Kleverlaan começou a trabalhar na Odontologia em 2001, atuando no estudo de compósitos para avaliar a contração de polimerização e também de materiais cerâmicos, como zircônia e dissilicato de lítio, que basicamente são o princípio da Odontologia livre de metal. Suas pesquisas buscam abranger os fatores que alteram a biocompatibilidade desses materiais.

Atualmente, Kleverlaan é professor titular em Biomateriais e líder do grupo de Ciências dos Materiais Dentários, Biologia Celular Oral e Anatomia Funcional, na Academic Center for Dentistry Amsterdam (Acta), em Amsterdã, na Holanda. Paralelamente, ele também ministra aulas sobre materiais dentários para reabilitação oral com coroas e próteses totais, assim como sobre os materiais utilizados na Endodontia.

Nesta entrevista concedida aos seus alunos brasileiros Amanda Dal Piva e João Paulo Tribst, o holandês fala sobre a importância da pluralidade de pesquisadores nos grupos de estudos das universidades e também destaca seu ponto de vista sobre a evolução na pesquisa dos materiais restauradores.

Amanda Dal Piva  João Paulo Tribst

 

Amanda Dal Piva e João Paulo Tribst – Qual a importância da internacionalização da pesquisa odontológica?
Cornelis Johannes Kleverlaan – É muito bom ter um grupo de estudantes de várias nacionalidades, pois assim você terá respaldo de todas as partes do mundo, tornando a pesquisa realizada muito mais rica. Por exemplo, nós temos estudantes de doutorado do Brasil, China, Estados Unidos, Índia, Itália etc. Só de brasileiros foram mais de 20 pesquisadores que visitaram nosso departamento ao longo dos anos.

 


Amanda e Tribst – Como a Odontologia se beneficia com os avanços da tecnologia?
Kleverlaan – Em muitos aspectos. Por exemplo, ao observar a engenharia médica é possível perceber que há muito tempo a Odontologia está na frente do sistema de usinagem com o CAD/CAM, mesmo que a comercialização dele tenha se tornado atrativa apenas a partir de 2002. A Odontologia está na frente da Medicina também na impressão tridimensional e na acurácia das peças protéticas. Hoje, na Holanda, é possível notar que o CAD/CAM está trabalhando em muitas áreas. O escaneamento dos preparos é cada vez mais comum e quase todas as coroas e próteses aqui são feitas com CAD/CAM.


Amanda e Tribst – Atualmente, diversos fabricantes estão oferecendo materiais restauradores rígidos e flexíveis para serem usados sob a mesma indicação. Quais propriedades mecânicas o clínico deve observar para selecionar o melhor material?
Kleverlaan – Em termos gerais, é muito difícil predizer qual material irá sobreviver na cavidade oral. Nós temos muitas complicações específicas relacionadas a cada paciente, o que influencia diretamente no sucesso e na falha da restauração. Mas, ao olhar para as propriedades mecânicas, é possível sim realizar cálculos matemáticos precisos, estudos laboratoriais e simulações de mastigação que ajudam a entender o funcionamento do material. Porém, o que realmente irá dizer se o material funciona são os dados clínicos. Os trabalhos clínicos se enquadram como um dos melhores campos da pesquisa odontológica e apresentam de fato uma maneira mais realista de confirmar se um material funciona ou não. Outro ponto que torna difícil predizer o funcionamento do material restaurador é o fato das propriedades mudarem rapidamente. Quando as pesquisas começam a entender como um material funciona, os fabricantes já disponibilizam outro material totalmente diferente, porém, para a mesma indicação.


​Amanda e Tribst – A falha das restaurações totalmente cerâmicas é diretamente relacionada ao comportamento de fadiga do material usado. O que pode diminuir o efeito da fadiga nesses materiais friáveis?
Kleverlaan – Na minha opinião, as primeiras falhas reportadas dos materiais totalmente livres de metal não ocorreram devido à fadiga, mas sim devido à geometria da restauração. Nesse quesito, as restaurações do tipo bi-layer, no qual um coping de zircônia era revestido por cerâmica feldspática, eram realizadas de maneira que enfraquecia o sistema de duas camadas. Foi preciso primeiro entender como a interface funcionava para resolver parte desse problema. Além disso, algumas pessoas utilizavam cerâmicas de cobertura espessas, o que facilitou ainda mais a fratura dessas restaurações. Hoje em dia, as coroas totalmente cerâmicas são, em sua maioria, usadas na forma monolítica, isto é, com apenas um material em toda sua estrutura. Desse modo, alguns materiais realmente se destacam, como a zircônia e o dissilicato de lítio, pois funcionam realmente bem.
 

Academic Center for Dentistry (ACTA) – Amsterdam, Holanda.


Amanda e Tribst – O senhor possui uma série de publicações analisando o desgaste dos materiais restauradores diretos. Existe alguma outra característica, além da quantidade de partícula de cargas, que possa amenizar o desgaste de resinas compostas?
Kleverlaan – Mais importante do que a quantidade de carga é a forma da partícula e seu tamanho – tanto para resina composta quanto para cerâmica. As partículas de cargas dentro da matriz devem ser as menores possíveis e arredondadas. Isso possibilita a criação de um material restaurador que resista ao desgaste e que proteja o esmalte antagonista.


Amanda e Tribst – Dentro dos materiais de preenchimento, o senhor possui algumas publicações com mais de 180 citações sobre ionômero de vidro. O que torna esse material tão especial?
Kleverlaan – Eu acho que não devemos estudar apenas materiais que só possam ser usados por pessoas com bastante dinheiro. Além disso, precisamos estudar opções para reposição das restaurações de amálgama, que é um excelente material restaurador, mas hoje se sabe que não é adequado para a saúde geral do paciente. Não vou dizer que é um material perigoso, mas sim que são observados efeitos futuros. Deste modo, devemos olhar qual material pode ser facilmente obtido e aplicado. O cimento de ionômero de vidro se enquadra nesses quesitos para cavidades pequenas e para a Odontologia pediátrica.


Amanda e Tribst – Na sua opinião, qual é o futuro dos materiais odontológicos?
Kleverlaan – Vamos dizer que nos próximos 20 anos 80% de todas as restaurações do mundo serão em cerâmica. O metal está desaparecendo como material restaurador.


Amanda e Tribst – Quanto às informações disponíveis nos artigos científicos, você acredita que os avanços obtidos conseguem alcançar o clínico geral? Existe algum impacto disso na Odontologia atual?
Kleverlaan – Aqui na Holanda a opinião compartilhada pelos pesquisadores é de que devemos publicar nossos resultados em revistas de acesso aberto. Deste modo, toda pesquisa que fazemos com dinheiro público são submetidas para revistas disponíveis para serem lidas por todos os dentistas, sem grande dificuldade. Apesar disso, ler um artigo científico não garante todo o conhecimento do assunto. Logo, os dentistas são encorajados a frequentarem diversos cursos dentro das universidades para aprenderem novos assuntos.