Publicado em: 15/08/2019 às 16h08

Implantes dentários: sucesso ou sobrevivência?

Paulo Rossetti traz detalhes da literatura específica e aponta o momento mais decisivo do ponto de vista clínico do tratamento com implantes.

Perto do IN 2019, e em tempos de “peri-implantites de origem incerta”, coloco aqui alguns fatos importantes da literatura específica:

  1. Em 1978, quase 40 anos atrás, os doutores Paul Schnitman e Leonard Shulman1, então professores do Departamento de Cirurgia Oral da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Harvard, nos EUA, montaram uma conferência para avaliar o sucesso dos quatro tipos de implantes usados na época: subperiosteal, transósseo, carbono vítreo e laminado. Para serem considerados bem-sucedidos, pelo menos 75% dos implantes deveriam providenciar “serviço funcional” durante cinco anos, com perda óssea não mais do que um terço do comprimento vertical do implante. A mobilidade (< 1 mm em qualquer direção) ainda era aceita. Houve grande dificuldade em considerar o que seria uma documentação clínica válida na época deste consenso (40 implantes?). Ao mesmo tempo, sugeriu-se fortemente que a documentação radiográfica fosse padronizada;
     
  2. Em 1986, autores2 revisaram os conceitos e, com a introdução do “procedimento de implantação Brånemark”, considerado “versátil e genial, mas criticado por ser complicado e caro” (um dia foi assim), o sucesso fica definido como uma perda óssea vertical de 0,2 mm após o primeiro ano de uso do implante, adotando os 85% de função após cinco anos e 80% após dez anos;
     
  3. Em 1997, outros autores3 propuseram quatro categorias de avaliação:
    a) não contabilizado: um implante que não falhou e não é acompanhado por qualquer motivo; b) falha: um implante removido por qualquer motivo necessário; c) sobrevivência: um implante que não se enquadra nos critérios a ou b; d) sucesso: implantes que não se enquadram em nenhuma das categorias acima são considerados sucesso. Entretanto, para serem elevados ao “sucesso”, usaram critérios clínicos e radiográficos em três partes: o grau 1 seria o único no qual o implante não teria mobilidade, já se diferenciando dos graus 2 e 3; enquanto isso, os graus 2 e 3 eram distintos pela quantidade de perda óssea radiográfica no primeiro ano de uso (< 1 mm e > 1 mm, respectivamente) e seguiam parecidos com < 0,2 mm de perda nos anos seguintes. O tempo de cinco anos de acompanhamento também era considerado. A amostra analisada pelos autores identificou que os “piores casos de perda” nas radiografias chegavam ao 1,8 mm (soma do primeiro ano mais os quatro anos subsequentes) e, assim, surgia este número mágico;
     
  4. Em 1999, há 20 anos, o 3o Workshop Europeu em Periodontologia sugeriu que o período de acompanhamento de um sistema de implantes deveria ter pelo menos cinco anos.


Os primeiros cinco anos são os mais decisivos do ponto de vista clínico (o paciente precisa retornar) e radiográfico (seu serviço de documentação deve se esmerar). Só assim teremos uma ideia do sucesso ou da sobrevivência da terapia que mudou os rumos da Odontologia.  

 

Leia mais:

1. Schnitman PA, Shulman LB. Recommendations of the consensus development conference on dental implants. J Am Dent Assoc 1979;98(3):373-7.
2. Albrektsson T, Zarb G, Worthington P, Eriksson AR. The long-term efficacy of currently used dental implants: a review and proposed criteria of success. Int J Oral Maxillofac Implants 1986;1(1):11-25.
3. Roos J, Sennerby L, Lekholm U, Jemt T, Gröndahl K, Albrektsson T. A qualitative and quantitative method for evaluating implant success: a 5-year retrospective analysis of the Brånemark implant. Int J Oral Maxillofac Implants 1997;12(4):504-14.
4. Wennström J, Palmer R. Consensus report: clinical trials. In: Lang, NP, Karring T, Lindhe, J. (eds). Proceedings of the 3rd European Workshop on Periodontology. Berlin: Quintessence, 1999. p.255-9.

 

 

Paulo Rossetti

Editor científico de Implantodontia da ImplantNewsPerio